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Terça-feira, 21/7/2009
Michael Jackson e a Geração Thriller
Diogo Salles

Pois é, esse garoto aí ao lado sou eu mesmo, em foto de 1984. Pode rir à vontade, é brega além do que permite o bom senso (devo ter perdido o meu). Tinha pensado em colocar uma foto do Thriller e enumerar todos os seus feitos para abrir esse texto, mas aí eu apenas repetiria o que já se leu à exaustão a respeito de Michael Jackson desde sua morte. Agora que os fatos já foram digeridos, é mais fácil contextualizar a carreira e falar apenas de sua música ― pois é esse o legado que ele deixou para a minha geração. As vendas hiperbólicas e o alvoroço que Thriller causou o tornaram um divisor de águas na indústria fonográfica. Olhando de novo para a foto, é perceptível como fui absorvido pelo redemoinho midiático que se formou dos anos 80... Mesmo eu sendo um dos piores dançarinos que já habitou esse planeta, era quase instintivo tentar imitar a pose e o olhar "Beat it". Tudo aquilo era "muito legal", segundo o meu conceito da época.

A lembrança que ficou desse tempo é muito forte. Thriller foi meu primeiro contato mais significativo com a música. Foi a primeira vez que peguei um disco (em vinil) e apreciei todas as faixas, uma a uma. E foi uma audição tão marcante que acabou me trazendo Off the wall (outro grande disco) a reboque. Tudo ali era cativante para uma criança de 7, 8 anos (antes que você pense em alguma piadinha maliciosa, é bom lembrar que, nos anos 80, "Jacko" ainda não era "Wacko"). Tudo em Thriller soava perfeito, mesmo as músicas menos conhecidas. A suavidade de "Baby be mine", o simpático dueto com Paul McCartney em "The girl is mine", o groove contagiante de "P.Y.T.", mas "Beat it" era mesmo a minha favorita. Minha primeira incursão (ainda que tímida) no rock. Pela primeira vez, fiquei impressionado com um riff de guitarra e fui atingido, como uma flechada no meio da testa, por aquele solo raivoso de um certo guitarrista, que eu só descobriria anos mais tarde (já, já, eu falo dele).

Lançado em dezembro de 1982, Thriller só "aconteceu" de fato a partir de março de 1983, depois que Michael Jackson participou da festa de 25 anos da Motown, onde interpretou "Billie Jean" e apresentou ao mundo o passo "moonwalk". No final de 1983 veio o videoclipe de "Thriller", uma grande revolução para a época. Feito a partir de uma costela de Um lobisomem americano em Londres, o diretor John Landis importava a linguagem do cinema, fazendo o clipe funcionar como um curta metragem de terror. A voz cavernosa e a risada sinistra de Vincent Price davam o toque final. Fiquei impressionadíssimo. Era assustador, mas eu queria ver (e ouvir) mesmo assim. Seguiram-se a massiva cobertura da imprensa e as imitações em programas de TV em todo o mundo. A febre parecia não ter fim, mas, com o tempo, se dissipou. Talvez porque Thriller fosse um feito impossível de igualar, ou talvez porque o disco que o sucedeu tenha demorado muito a sair: Bad só foi lançado em 1987.

O problema é que, em 1987, tudo era diferente. Eu mesmo já começava a enveredar para o rock, depois de ouvir The Joshua Tree, do U2. Mesmo assim, me lembro bem, resolvi ver o que Michael Jackson trazia de novo, e nada me cativou muito. Não que aos 11 anos eu já tivesse condições de ter uma visão crítica. Bad é um grande disco e tem ótimos momentos, como "Another part of me", "Man in the mirror" e "Leave me alone", mas faltava a magia e originalidade de Thriller. Algo simplesmente não estava mais lá. A ideia do clipe de "Bad" me pareceu mera repetição de "Beat it". A partir dali, fui me distanciando cada vez mais do pop e, consequentemente, de Michael Jackson. É fato que ele tinha talento de sobra. Cantava, compunha, coreografava, dançava, era um artista multifacetado. Mas é fato também que ele só pôde brilhar do jeito que brilhou pelas mãos do mago Quincy Jones ― que foi uma espécie de arquiteto de sua carreira solo. A produção dos discos, a escolha do repertório, as direções musicais tomadas, tudo isso foi fundamental na escalada de Michael Jackson para ter o reino do pop a seus pés. Mesmo que Quincy Jones ainda estivesse à frente da produção de Bad, ali a percepção sobre música já era outra. Cinco anos depois, a fórmula estava desgastada, a indústria fonográfica havia mudado e a MTV já pautava o mercado, com candidatos a estrela brotando em cada esquina. Mesmo assim, seu séquito de "die hard fans" se manteve impressionante até sua morte ― e agora tende a aumentar ainda mais.

De volta ao Thriller, muito se fala a respeito das barreiras que Michael Jackson derrubou na época, atingindo todas as idades, gostos, etnias e atropelando todos os preconceitos. A partir dali, a distinção entre "música para negros" e "música para brancos" seria sepultada de vez. A mistura de pop, soul, funk e R&B já estava no caldeirão, mas era o rock o ingrediente que derrubaria a barreira racial. Era um mercado (essencialmente "branco") a ser conquistado. Quincy Jones sabia disso e pediu a Michael que escrevesse um rock vigoroso, para equilibrar o repertório. Um "My sharona" negro, segundo suas palavras. Michael Jackson escreveu "Beat it", que caiu como uma ogiva nuclear na seara roqueira dos anos 80, invadiu rádios de "música branca" e fez Michael Jackson ganhar o respeito até mesmo dos roqueiros mais incautos. Hoje, ninguém se lembra de "My sharona", mas todos se lembram de "Beat it".

O solo de "Beat It" em dois takes*
A gravação de "Beat It" transcorreu bem, mas faltava o solo de guitarra. Mesmo contando com guitarristas tarimbados no estúdio para executá-lo (como Steve Lukather), Quincy Jones sabia que aquele não poderia ser um solo qualquer. Teria de ser algo poderoso, transcendental. Poucas pessoas eram capazes disso naquele tempo. Por indicação de Lukather, Quincy Jones ligou para o mais genial e inventivo guitarrista surgido desde a morte de Jimi Hendrix: Eddie Van Halen.

Toca o telefone:

― Alô! ― responde Eddie.
― Alô?
― Alô! ― Número errado. Eddie desliga. "Sempre ficam ligando aqui em casa!", reclamou. Toca o telefone novamente. "É melhor que seja algo desta vez", esbraveja.
― Alô!
― É o Eddie? Aqui é o Quincy, cara!
― Que Quincy? O que você quer, seu idiota ("you fucking asshole")?
― Eddie, não desligue! É o Quincy Jones, produtor musical!
― Meu Deus. Me desculpe, Quincy. Tudo bem?
― Olha, o Steve Lukather me pediu para te ligar e perguntar se você poderia participar da gravação de um solo de guitarra numa música que eu estou produzindo para o novo disco do Michael Jackson.
― O Steve é um grande amigo... Bom, vou ver o que posso fazer. Me dê seu telefone aí.

Ali Eddie entrava numa contradição. O Van Halen já era a maior banda de hard rock do cenário, só que trabalhos fora da banda ― que vivia dias turbulentos ― causavam grande mal estar em todos. Mas seu irmão Alex Van Halen estava fora da cidade, David Lee Roth estava aqui, no Brasil, explorando a Amazônia e Michael Anthony estava com a família na Disneylândia... Por que não? Ah, eu vou fazer esse favor ao Steve e ao Quincy e ninguém jamais saberá dessa gravação, pensou ele. Anos depois, Eddie dá a seguinte declaração para a revista Rolling Stone sobre o tão polêmico e genial solo: "Eu fiz [o solo] como um favor. Eu não quis nada. Talvez o Michael me dê algumas lições de dança algum dia. Eu fui um completo idiota, de acordo com os meus bandmates, com o nosso empresário e com todo mundo. Mas eu não fui usado. Eu sabia o que estava fazendo. E só fiz porque eu quis fazer".

Eddie Van Halen liga para seu amigo Donn Landee, engenheiro de som do Van Halen, e eles acertam a ida até o estúdio em Hollywood, onde aconteciam as gravações de Thriller. Lá chegando, eles encontram a música quase pronta. Quincy Jones pede para ele ouvir e dar algumas sugestões. Eddie achou que o ponto em que eles queriam o solo era uma espécie de "zona morta" da música e sugeriu que ele solasse em cima de outra base. Segundo ele, era um trecho em que havia mudanças de acordes e seria perfeito para o solo. E assim foi feito.

O Eddie pega sua Charvel Frankenstrat (um modelo de Stratocaster que ele mesmo adaptou) e realiza dois takes. Pelo que consta, o segundo take é que entrou no disco. Posteriormente, o solo teve de ser "abafado", pois Quincy Jones o achou muito distorcido ― queria uma sonoridade menos "metálica". Como o Eddie solou numa base diferente da que estava prevista, eles tiveram de reorganizar toda a música. Após os 20 minutos da gravação do solo, Michael Jackson entra no estúdio: "I really like that high fast stuff you do, Eddie". Hoje, o solo figura entre os 100 melhores solos de guitarra na história do rock.

"Beat it" atingiu as paradas no dia 12 de março de 1983, ficando por 15 semanas e alcançando o 1º lugar nos EUA, Países Baixos e Espanha, 2º lugar na Suíça e 3º lugar no Reino Unido. E a música ainda reuniria Eddie Van Halen e Michael Jackson de novo, dessa vez no palco. Ambos em turnê, eles sincronizaram as agendas e o encontro aconteceu em Irving (Texas), no dia 13 de julho de 1984.

No final de 1982, pouco antes do lançamento de Thriller, Eddie Van Halen recebe uma carta de agradecimento de Quincy Jones, que, no final vem assinada como: "The Fucking Asshole". Eddie emoldurou a carta e a guarda até hoje em seu estúdio 5150, em Los Angeles.

* Fonte: Guitar World (Edição especial, de abril de 1992) ― com colaboração de Simon Holanda.

Diogo Salles
São Paulo, 21/7/2009

 

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