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Sexta-feira, 1/1/2010
Meu Oscar vai para...
Ana Elisa Ribeiro

O título aí é difícil de completar. Fosse o Grammy, fosse a Jules Rimet, fosse a medalha olímpica ou o Jabuti, eu teria tantas dificuldades quanto tenho para falar de bons filmes em 2009. Filmes? Mas nem é essa minha especialidade! Acho que foi apenas uma questão anafórica, coesiva, co-referencial, do tipo conceptual, anfan (enfim, como diz um amigo nosso). Música boa foi o CD do Lenine, Labiata, que nem sei mais se comprei este ano ou no ano passado. Sei é que ele tocou no meu carro quase todos os meses do ano. Alternou com a Amy Winehouse e com a Norah Jones, música de engarrafamento, mas manteve a dianteira quase o ano todo. Mas como a Globo resolveu colocar Lenine em todas as trilhas de novelas e minisséries, comecei a ficar meio enjoada de alguns riffs, mas nada que não possa ser tratado com intervalos de Cassandra Wilson.

Li muito. Li muito mesmo. Mas é difícil listar aqui algo que não seja muito específico. Acho que cheguei a resenhar o A extinção dos tecnossauros, da Unicamp, mas é preciso estar interessado nas tecnologias que não deram certo. A arqueologia da mídia talvez tenha sido o livro mais bizarro da lista. Os relatos do autor russo sobre as experiências do Tesla ou do Thomas Edison com o próprio corpo beiram o climão de filmes como Laranja mecânica ou coisa que o valha. Acho que, naqueles tempos, nem se pensava nesses conselhos de ética tumorosos que temos hoje.

Quase não vi filme. Dudu me levou ao cinema para ver A era do gelo 3 em 3D e eu bem que me diverti com aqueles óculos esquisitos. Mas o filme não é bacana, não. Os outros são melhores, assim como aconteceu a Madagascar. De resto, tentei me animar a ir ao cinema ver outras coisas, inclusive esse filme badalado do fim do mundo, mas não rolou. Meu mundo caiu antes.

Voltando aos livros, a lista foi longa, mas como fazer apologia de coisas tão... indispensáveis a meia dúzia de pessoas? Comprei livros feito louca. São já sete estantes na sala onde temos o escritório. Tudo isso é uma certeza de nova reforma na casa, para o futuro próximo. Já avisaram: suba os quartos para o segundo andar, não suba o escritório. É peso demais. Cabeçuda. Você lê isto tudo? Não, claro que não. É um de cada vez. Quem não tem livros não entende. Faço um cálculo: uma fortuna investida em papel. E não vale nada. Pode entrar ladrão que ele não rouba. Duro é se puser fogo na casa, só para atazanar. Meu infortúnio maior seria isso. De resto, tem ali uma TV comum, dois aparelhos de som velhos e o carro pé duro. Livros e mais livros são nosso espólio, nossa herança, nossos fundos de renda fixa... commodities, como dizem meus colegas da Administração.

Não li sequer um livro de poemas. Há alguns dias experimentei aquela alegria profunda quando recebi o novo livro da Elisa Andrade Buzzo (Noticias de ninguna parte) pelos Correios. Chovia forte. A caixa de cartas é de ferro, grande, mas o envelope ficou com charmosas manchinhas de pingos e tinta de caneta. Uma delícia. Um quadro. Daí que abri sabendo já que era minha xará que ressurgia por via postal. Ela não se esquece. E abri a edição bilíngue já com água na boca. Mal folheei a brochura de capa cinza e meus olhos acharam o poema que eu havia guardado de quando ela o publicou no Suplemento Literário. Alegria de criança. Brinquedo novo. Ninguém pode pegar. Pus o livro em cima da mesa do escritório, pra não sumir entre os outros, e ando guardando um bom momento para lê-lo com os olhos descansados.

Li muitos desses livros acadêmicos organizados (que deveriam ter sido revistas). É uma espécie de praga acadêmica, especialmente na área de Humanas, em que isso vinga como capim. Mas não tem jeito. Tem de organizar, publicar e tocar adiante, para não perecer. Não é isso? Os números não mentem sobre as universidades. Avante. Fiquei com um livro do Jacques Fontanille na cabeceira um tempão, mas deixei o último capítulo para um dia. Um livro de copydesk (em inglês mesmo) mofou no criado-mudo. Por cima deles, os livros que leio para o Dudu na hora de dormir. Li muitos livros para avaliações oficiais. Li muitos livros para escrever logo em seguida. Li milhares de PDFs para compor mosaicos. E muitos livros sobre como as crianças aprendem a escrever, outros tantos sobre adultos analfabetos, meia dúzia sobre design, dezenas sobre novas tecnologias. Mas meu HD não guardou tudo. Preciso de férias e de um aplicativo mais eficiente.

Ano atravessado no caminho. Se 2008 foi de resolver uma série de coisas, 2009 foi assim meio de ladinho, cheio de realizações, mas lotado de desgastes e pequenas frustrações acumuladas. Quanto custa alugar uma caçamba dessas que ficam estacionadas no meio-fio? Uma ou duas dessas devem resolver meu problema de retirar entulho de cima de 2009. Leve logo, moço. Leve logo esta tranqueira. 2010 vem aí e quero estar ajeitadinha pra ver se consigo seduzi-lo.

Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 1/1/2010

 

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