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Quinta-feira, 7/1/2010
Algumas leituras de 2009
Vicente Escudero

A leitura sem o compromisso de datas e linhas de chegada dificulta as escolhas, apesar de permitir que alguns livros fiquem temporariamente de lado. Seguindo neste ritmo inconstante, mesmo com alguns marcadores de página aguardando 2010 para voltarem à gaveta, 2009 foi um ano de boas surpresas na estante. Ao leitor indeciso sobre o que ler, deixo algumas ideias.

Histórias apócrifas, de Karel Čapek ― Pronuncia-se "kárel tchá-pek". Considerado o maior escritor tcheco da primeira metade do século XX, tornou-se conhecido mundialmente por ter criado o termo robô, originário da palavra robota, que significa trabalho, na peça intitulada R.U.R ("Russum Universal Robots" ― "Robôs Universais de Rossum"). O neologismo científico, segundo o próprio Karel, apesar da história dizer o contrário, foi cunhado pelo seu irmão Josef, durante a criação desta peça sobre uma civilização do futuro, na qual todo trabalho era realizado por um exército de autômatos, que em determinado momento se rebela e decide exterminar a raça humana. Com esta visão distorcida do futuro, Karel tornou-se referência para escritores de ficção científica como Philip K. Dick, Aldous Huxley e George Orwell. Histórias apócrifas é uma coletânea de contos curtos, estilo defendido com unhas e dentes pelo autor, que tratam de maneira anárquica eventos importantes e pitorescos da história. Desde a discussão entre um homem e uma mulher das cavernas, melancólicos, sobre os bons tempos em que as armas eram feitas de pedra, as crianças tinham educação e os homo sapiens não perdiam tempo entalhando obras de arte, passando pela conversa entre soldados gregos no cerco a Tróia, revoltados com o janotinha Aquiles e com Helena, uma "rameira que não vale um prato de feijão", até as lamúrias de um padeiro sobre os milagres de um profeta que há mais de dois mil anos multiplicou cinco pães para alimentar milhares de pessoas, quase arruinando seu negócio, em Jerusalém. Uma fonte inesgotável de risadas e esquetes para a trupe do Monthy Python.

A estrada, de Cormac McCarthy ― Uma batalha sem fim pelo bem. Pai e filho seguem uma caminhada sem fim em busca de uma civilização que tenha resistido à barbárie, vagando pelas cinzas dos Estados Unidos num planeta pós-apocalíptico. Distanciando-se de seus livros anteriores, do tema da aspereza do oeste americano (Meridiano de sangue e Onde os velhos não tem vez), McCarthy compôs uma narrativa on the Road, que se contrapõe diretamente ao universo beatnik, idealizado por Jack Kerouac. No mundo em que perambulam pai e filho, a vida vegetal foi carbonizada, os suprimentos não existem e o canibalismo é aparentemente a única forma possível de sobrevivência. Empurrando um carrinho de supermercado com cobertores, alguma comida enlatada e um revólver com apenas duas balas, a dupla segue rumo ao litoral em busca do mar, imaginando um oásis onde a civilização tenha permanecido intacta e distante das atrocidades praticadas por homens que regressaram à forma mais primitiva de existência. A única opção para eles é seguir em frente, não importa o que aconteça, distanciando-se dos "caras do mal", daqueles que mantêm outros humanos como gado, sempre em busca dos "caras do bem".

Pergunte ao Pó, de John Fante ― Ao contrário da adaptação para o cinema, com suas várias concessões para o gênero melodramático, focado na ambição dos escritores e nas diferenças raciais da Los Angeles da década de 30, o romance de John Fante compõe uma obra mais ampla, sem a pieguice da breve felicidade conjugal vivida pelo protagonista, o escritor e imigrante italiano Arturo Bandini, com a bela garçonete mexicana, Camilla. No livro, Arturo experimenta os conflitos de seu desejo sexual, causados pela inconstância de sua fé na religião católica. Sempre idealizando as mulheres, só depois de sofrer muito Bandini consegue entender por que Camilla sente-se atraída pelo balconista rude do bar onde trabalha: ele a aceita como a simples garçonete, calçando suas huaraches. Nas palavras de Charles Bukowski, Pergunte ao Pó é o romance de um autor que não teme fortes emoções.

Terras Baixas, de Joseph O'Neill ― Assim como A estrada, é também uma obra influenciada pelos atentados de 11 de setembro. Trata das lembranças de Hans, analista de risco de investimentos holandês, de quando ele viveu em Nova York, afastado de sua esposa e do filho, enquanto trabalhava e recomeçava a caminhar nos rastros das amizades e do amor perdido, tentando resolver os problemas da vida com a mesma disposição que tinha quando estava num campo de críquete: sem abrir mão de seu estilo próprio, nas rebatidas e na vida. Após mudar-se para Nova York com a família e presenciar o ataque terrorista aos prédios do World Trade Center, seu casamento começa a ruir por causa da insegurança da esposa, sempre à espera de um novo ataque. Ela retorna para Londres com seu único filho, enquanto Hans permanece trabalhando na cidade. Entre as idas e vindas das visitas a Londres, ele conhece em Nova York um grupo de jogadores de críquete, esporte que praticava na infância, formado por imigrantes de diversos países da Ásia e das Antilhas; entre eles, o árbitro chamado Chuck Ramkissom, personagem inesquecível, um carismático trambiqueiro vindo de Trinidad, que superou as dificuldades e sobreviveu com astúcia na cidade. Sua amizade e o esporte servem de conforto para Hans enquanto tenta reconstruir sua vida sentimental.

Legado de cinzas: uma história da CIA, de Tim Weiner ― Um tratado sobre a CIA, a Agência Central de Inteligência americana, desde o surgimento da agência de informação denominada OSS, transformada na CIA em 1947, já no inicio da Guerra Fria, até os dias atuais. Tim Weiner, jornalista do New York Times que cobriu a atuação da agência por mais de 20 anos, baseando-se na pesquisa de mais de cinquenta mil documentos oficiais e centenas de entrevistas com membros da inteligência, relata minuciosamente a atuação da CIA. Uma história de fracassos, alguma perspicácia e muita burocracia, sempre empenhada em garantir a imagem da própria instituição perante os sucessivos governos, acobertando os erros para manter seu prestígio. A imagem dos espiões americanos atuando em todos os cantos do mundo, decidindo o rumo de cada governo e interferindo no destino dos povos é descolada da realidade. Erros estapafúrdios como o patrocínio e organização da invasão da Baía dos Porcos em Cuba, no ano de 1961, a falta de habilidade na condução do vitorioso apoio à campanha dos rebeldes afegãos contra a União Soviética por mais de vinte anos e o uso de informações sem qualquer prova concreta na determinação da existência de armas de destruição em massa no Iraque, antes que os EUA entrassem no atual atoleiro, retratam o descontrole do serviço de espionagem americano. Algumas verdades não fazem parte do livro, como garante o próprio Tim Weiner. Se elas seguirem o mesmo rumo do conjunto relatado, só resta aos infiéis uma última prece: salve-se quem puder.

Vicente Escudero
São Paulo, 7/1/2010

 

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