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Segunda-feira, 10/5/2010
Lady Gaga, uma aula do pastiche
Relivaldo de Oliveira

"Cara, esse clipe é, tipo, o máximo", diz a menina da MTV se referindo ao clipe de "Telephone", lançado recentemente, com Lady Gaga e Beyoncé e com a direção de Jonas Åkerlund. O videoclipe é um dos símbolos da contemporaneidade. Usa uma narrativa que nem sempre quer contar uma história coerente, muitas vezes sequências e cortes rapidíssimos e a imagem é predominantemente apenas imagem, sem precisar explicitar o que se mostra, o que surge, e nem lançar algum tipo de lição que precisa ser apreendida.

Na televisão, uma matéria lançava uma pergunta a algumas "personalidades" sobre "os dez motivos para gostar de Lady Gaga". Todos falavam de inovação, criatividade, estilo, choque. Parte considerável, para não dizer dominante, da cultura contemporânea julga que alguns figurinos extravagantes, entrevistas chocantes e provocação feminista são suficientes para valorizar algo, uma cantora, um produto. A rigor, Lady Gaga não revoluciona nada na cultura, muito menos na cultura pop. Mas a cultura pop é o reino das referências, do reconhecível, de uma estética repetitiva que parece inovar. O pop é, e sempre foi, um reaproveitamento de culturas e formas anteriores, mas diferentemente daquilo que se pode tomar como cultura "séria" (Adorno), esse reaproveitamento não propõe algo crítico, ou que pretenda mudar a estética vigente; diferentemente da avant-garde, o pop apresenta o novo sem inovar, coloca novas vestes no mesmo corpo, canta sem ter voz.

Uma das características dessa estética contemporânea é o pastiche, as referências a conteúdos anteriores, uma imitação que copia o que já fora realizado. Essa referência não critica o anterior, não cria estilos autênticos (como certa estética modernista se propunha), e sim reaproveita a forma e o imaginário que já fora formado sobre esses elementos estéticos para ser reconhecível, digerível.

Isso, que Frederic Jameson já definiria como a estética predominantemente pós-moderna, assumiu características que refletem muito o juízo estético contemporâneo. Logo que o videoclipe da cantora foi lançado, começou a surgir uma quantidade gigantesca de elogios nos mais variados meios. Para muitos, "'Telephone' é o clipe do ano", "uma aula de cultura pop", "exemplo de imaginação e criatividade".

O vídeo de "Telephone" é repleto desses elementos "inovadores". O videoclipe se inicia com Lady Gaga em um tipo de prisão que mais parece um prostíbulo. Após dançar um pouquinho, a cantora sai da prisão (sic) e é apanhada por Beyoncé em uma caminhonete colorida (tudo é muito colorido no vídeo). Travam um diálogo (inútil) e então as duas seguem em direção a uma lanchonete onde envenenam todos os clientes, a começar por um bad boy que parece um gansgsta rap. Nesse trajeto, elas fazem coreografias, trocam de roupa pelo menos seis vezes e, vez por outra, cantam.



Figurinos extravagantes (Lady Gaga chega a usar óculos feitos de cigarros esfumaçantes e um tipo de chapéu feito de telefones), carro em alta velocidade, mulheres assassinas e uma narrativa que é um pastiche de Quentin Tarantino seguem dando o tom da "inovação". A sexualidade, como temática central, fecha o círculo "revolucionário" dessa estética contemporânea.

Pode parecer surpreendente, mas não acredito na visão apocalíptica (Umberto Eco) de que a cultura tenha tido sempre objetivos edificantes e que necessariamente tenha sido esclarecedora. Essa visão, de certa forma romântica e aristocrata, não representa a enorme quantidade de espetáculo nonsense que já existiu. A questão é que essa cultura contemporânea tem um alcance maior, mais eficiente e mais persuasivo. O jovem da MTV não está em busca de uma visão esclarecedora da vida; a vida já lhe deve parecer complexa demais (para alguns, lembrar de tomar banho já é complexo demais). Talvez a virtualidade de uma cultura que lhe pareça sempre nova seja mais interessante. É facilmente assimilável, é propositalmente gratuito, parece realmente interessante e estranhamente inovador.

Lady Gaga quer chocar, mas quase nada mais choca nesse mundo sem privacidade; quer ser diferente, mas quase tudo é pastiche. O pop precisa de uma nova Madonna que não pareça uma ninfeta pomba-lesa (Britney Spears), nem apenas uma cantora de R&B que acompanha rappers negros vestidos de branco. Procura-se uma mistura de fashion kitsch com atitude girl power; procura-se uma mistura de personalidade desafiante com músicas desafiadoras. Mas Lady Gaga não desafia nada, apenas reforça a artificialidade do pop. Travestindo-se de novidade, quer impactar; reaproveitando o que já existe, se apresenta como diferente.

"Telephone" está perfeitamente de acordo com esse espírito. É uma aula do pop, é um ensinamento do pastiche. Julgamos ser um produto excelente porque repleto de referências à cultura pop e que nós, com nosso imaginário repleto dessas formas, reconhecemos imediatamente e, por essa identificação, atribuímos qualidade. Para nós contemporâneos, o original é a repetição, a criatividade é a citação.

Em uma das sequências do vídeo, Lady Gaga prepara o veneno que matará os clientes da lanchonete. Como um mago, ela faz uma mistura de vários produtos para que o líquido tenha o efeito desejado. A cultura pop é bem menos complexa. Basta pegar uma loura que dance, se vista como um carro alegórico e pareça ter alguma atitude que a fórmula está pronta.

Bebamos a nossa porção repleta de novidade. Tipo, é o máximo que nos resta.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado no blog de Relivaldo de Oliveira.

Relivaldo de Oliveira
Belém, 10/5/2010

 

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