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Quinta-feira, 28/1/2010
Os filmes mais significativos da década
Taís Kerche

De 2000 a 2009 o mundo girou mais de 3.650 vezes em torno de si mesmo, sem contar os anos bissextos. Inúmeros fatos desastrosos, maravilhosos, repugnantes, fantásticos aconteceram na crosta terrestre. Entre eles, o lançamento de muitos, mas muitos filmes. Mas, no meio desses muitos, poucos realmente merecem destaque. E eu, como uma boa cinéfila, que tem os pés na cinefilia desde pequena, me incumbi da tarefa de eleger os melhores da década. Por mais que sejam poucos, a tarefa não foi das mais fáceis, afinal de contas, não assisti a todos os filmes produzidos nestes dez anos. Nem se eu me empenhasse na tarefa, conseguiria. Mas, daqueles que assisti, selecionei os mais significativos ― talvez esse adjetivo seja o mais adequado.

A década começou com três filmes impactantes no seu primeiro ano: Dançando no escuro, de Lars Von Trier; Amores Brutos, do mexicano Alejandro González-Iñarritu; e Réquiem para um sonho, de Darren Aronofsky, lançado no Brasil só em 2002. O filme de Lars Von Trier mostrou a versatilidade do cinema, ao colocar numa história dramática, na qual ele nos joga na cara o lado mais obscuro do ser humano, a possibilidade de se sonhar. Para isso, entre as cenas que retratavam a dura realidade de Selma, a mãe cega que luta pelo futuro de seu filho, ele inseriu sequências em que a personagem se via em meio a musicais, cantando e dançando, como se a vida pudesse voltar a ser colorida. Sua importância se intensificou quando levou a Palma de Ouro e o prêmio de melhor atriz para a Björk no Festival de Cannes. O segundo filme, Amores Brutos, trouxe notoriedade ao mexicano Alejandro Gonzáles-Iñarritu, ao narrar de forma eficiente a história de três personagens que têm suas vidas cruzadas por um único fato que mexe com todas as suas estruturas. É o primeiro filme de uma trilogia da qual fazem parte os ótimos 21 Gramas e Babel, que seguem a mesma linha. Por último, o americano Réquiem para um sonho, que traz à tona o conflito de personagens que sonham com feitos grandiosos, mas que imediatamente acabam com todos eles ao se viciarem em drogas ou remédios para emagrecimento, os impossibilitando de realizá-los. Contando assim, parece mais um filme sobre viciados e suas vidas perdidas, mas ele não tem a pretensão de dar nenhuma lição de moral, apenas coloca na tela a verdadeira doença, da forma mais realista possível, com trilha sonora incisiva e montagem diferenciada, o que faz dele uma obra-prima.

No ano seguinte, 2001, o cinema se desenrolou mais ameno. No campo das animações, merece destaque o divertido Monstros S.A., de Peter Docter e David Silverman. No cinema europeu, o mundo voltou seus olhos para a França, com o delicado e poético O fabuloso destino de Amélie Poulain, de Jean-Pierre Jeunet. E, no cinema americano, uma impressionante forma nova de contar uma história nos chamou a atenção: a montagem ousada do filme Amnésia, de Christopher Nolan. Uma história contada de trás para frente, retratando o drama de um personagem que não consegue reter absolutamente nada em sua memória e que utiliza ferramentas como câmera fotográfica, bloco de anotações e até tatuagens em seu corpo para consultar quem ele é em vários momentos de seu dia. A montagem inversa do filme fez com que o espectador sentisse a mesma angústia da personagem, lhe dando a sensação de ter que rever sempre os fatos passados para entender a narrativa. Um filme que merece destaque na história do cinema.

E na mesma linha, já em 2002, surgiu o polêmico e excelente Irreversível, de Gaspar Noé. Uma história também contada de trás pra frente, que começa com personagens e câmera transtornados por algo que aconteceu com uma determinada pessoa. Em seguida, ficamos sabendo o que realmente aconteceu, a personagem de Mônica Bellucci é vítima de um estupro, violência totalmente filmada por uma câmera estática, ou seja, paralisada, em choque, tornando-se personagem também. E depois, os fatos que se antecederam ao estupro, já com a câmera mais calma, imagens controladas, sequências leves e um final revelador. É o cinema utilizando-se de todas as formas imagináveis e inimagináveis de contar uma história.

Neste mesmo ano, o cinema brasileiro também ganhou um pouco mais de destaque no cenário internacional, com o grandioso Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, o qual nem preciso tecer elogios, pois seria um ato redundante. Ainda na terra do pau-brasil, pudemos apreciar o sensível documentário Janela da alma, de João Jardim e Walter Carvalho. Nele, há depoimentos riquíssimos de personalidades como o escritor José Saramago, o cineasta Wim Wenders, o fotógrafo cego franco-esloveno Evgen Bavcar, entre outros, sobre o modo de ver e perceber o mundo.

De 2002, pularemos para 2004, ano em que Michel Gondry na direção e Charlie Kaufman no roteiro nos presentearam com Brilho eterno de uma mente sem lembranças. O filme projeta o desejo de muitas pessoas que viveram um grande amor que não perdurou: apagar, de forma quase cirúrgica, as lembranças do relacionamento. Só que desvenda algo importante: mesmo sem as lembranças, os sentimentos perduram. Também em 2004, quando já pensávamos que não tínhamos mais o que retratar da Segunda Guerra, surge nas telonas A Queda ― As últimas horas de Hitler, do alemão Oliver Hirschbiegel. O filme retrata, como bem diz o título, os últimos momentos de fúria e de manipulação do líder nazista, que, de forma bizarra, se mostra totalmente insano ao levar suas convicções às últimas consequências.

Em seguida, já em 2006, o cinema francês novamente ressurge com o intrigante Caché, de Michael Haneke. Um suspense de uma complexidade não exposta na tela, apenas sugerida. Tudo é muito sutil, principalmente o terror psicológico vivido pelos personagens. Uma obra ímpar do gênero, totalmente diferenciada do que usualmente chamamos de suspense.

No final desse mesmo ano, a atmosfera almodovariana tomou conta dos cinemas com o belíssimo Volver, um dos filmes mais poéticos, cheio de lirismo, do cineasta espanhol Pedro Almodóvar, que trouxe para as sequências coloridas e intensas a presença de sua musa do início de sua carreira, a atriz Carmen Maura. Além disso, retratou a força das mulheres em suas relações familiares. Tema que ele sempre abordou com maestria e que neste filme se reiventou.

A vida dos outros, do alemão Florian Henckel von Donner, também foi destaque em 2006. Concretizou a notoriedade do cinema alemão ao retratar a Alemanha Oriental e sua neurótica e horrenda polícia secreta, a Stasi. A personagem principal deste filme é um espião da Stasi que fica encarregado de registrar tudo o que acontece na vida de um dos maiores dramaturgos do lado comunista do muro, cinco anos antes de sua queda. Mas, aos poucos, o espião passa de delator a protetor, pois entra em contato com um mundo de amor, alegrias, música e poesia.

Já chegando na reta final da década, nos últimos três anos, merecem destaque três filmes. Do outro lado (2007), do cineasta alemão de origem turca Fatih Akin, aborda o conflito de identidade de personagens que se veem divididas entre duas pátrias, num filme cheio de imagens simbólicas e rico na abordagem política e histórica de dois países, a Alemanha e a Turquia. Em Foi apenas um sonho (2008), do polêmico Sam Mendes ― que adora mostrar a decadência do modo de vida americano, apontado como perfeito mas que é sombriamente doentio ―, nota-se um trabalho mais apurado no perfil psicológico de cada personagem. Um homem que sonhou um dia não participar dos padrões de felicidade impostos, mas que foi tragado por ele, como acontece com muitas pessoas, e sua mulher que acreditou no sonho dele e foi também sendo levada pelo american way of life. Por último, o melhor filme do cineasta Quentin Tarantino desta década, Bastardos Inglórios, de 2009, que nos rendeu boas risadas e um sentimento de desejo realizado ao vermos o ditador Adolf Hitler ter seu rosto desfigurado por uma quantidade significativa de balas. Tarantino conseguiu deixar sua marca em um dos acontecimentos mais marcantes da história da humanidade no século XX, a Segunda Guerra.

Taís Kerche
São Paulo, 28/1/2010

 

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