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Quarta-feira, 17/2/2010
Meus álbuns: '00 - '09 ― Pt. 1
Rafael Fernandes

O que define uma seleção de melhores álbuns musicais da década? "Qualidade"? Critérios técnicos? Relevância? Enquete? Egocentrismo? Esnobismo? Hype? No final das contas, nosso gosto, claro. Mas sempre acompanhado de alguma análise e uma dose de simancol (mas que bela gíria idosa!). Ficam aqueles lançamentos que nos marcaram e, por que não, nos acompanham até hoje. Selecionei alguns nacionais e internacionais para uma série de textos (a primeira parte a seguir). Apesar de várias opções, a escolha não foi tão árdua, mas contou com a dificuldade da exclusão, o risco do esquecimento e, ainda, de arrependimentos futuros. As ordens não são necessariamente classificações.

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1) Guns N' Roses ― Chinese Democracy (2008)
Produzido por Axl Rose e Caram Constanzo

Ironicamente, a demora na confecção do disco trouxe resultados fantásticos. Buckethead, que contribuiu com ótimas músicas, licks de vanguarda e solos brilhantes, entrou na banda apenas no final de 2000. A melhor faixa do disco e uma das melhores músicas da década, "Better", data possivelmente de 2002. E as adições geniais e também de vanguarda do guitarrista Ron "Bumblefoot" Thal (que entrou em 2006) só aconteceram entre 2006 e 2008. Além disso, as ótimas inserções dos demais trouxe um dos melhores trabalhos de guitarra num disco de rock nos últimos vinte anos. Com grandes músicas, arranjos caprichados, banda competente e performance arrasadora de Axl Rose, Chinese Democracy é um grande disco de rock.

Minhas preferidas do álbum: "Better", "Shackler's revenge", "Scraped", "Sorry", "Street of dreams", "Catcher in the rye", "Riad n' the bedouins"


Ouça um trecho de "Better"

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2) System Of A Down ― Toxicity (2001)
Produzido por Rick Rubin

O System of a Down fazia um som poderoso, com algo de loucura e um toque de humor ― mas sem avacalhar. Toxicity é a mostra ideal do som do grupo. Um álbum que soa coeso e variado. É criativo e não perde a pegada. Tem vocais agressivos, mas também linhas melódicas que prendem a atenção. A faixa-título tem o peso do metal e uma certa dramaticidade, mas sem ser careta. A variação entre uma parte lenta seguida de um esporro sonoro, numa transição propositalmente brusca, é um artifício que deixa a música mais interessante. O instrumental é variado e o vocalista Serj Tankian tem uma ótima performance, com boa dinâmica.

Minhas preferidas do álbum: "Toxicity", "Chop Suey", "Jet Pilot", "Deer Dance", "Aerials"


Ouça um trecho de "Toxicity"

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3) The Dillinger Escape Plan ― Irony Is a Dead Scene (2002)
Produzido por Benjamin Weinman, Mike Patton e Chris Pennie

Irony Is a Dead Scene é a união do The Dillinger Escape Plan, um dos grandes nomes do math metal dos anos 2000 e Mike Patton, um dos mais criativos músicos dos anos 90 e 00. É apenas em EP, mas é ótimo. Começa altamente agressivo e insano com "Hollywood squares", segue firme com "Pig latin" e termina bem com "Come to daddy" (um cover de Richard D. James, conhecido como Aphex Twin). Já "When good dogs do bad things" é uma obra-prima do metal extremo ― por mais paradoxal que isso soe. Tem todos os elementos do disco: peso, esporro, loucura, berros, contratempos, arranjos elaborados e climas soturnos. Ouvidos sensíveis, passem longe.

Minhas preferidas do álbum: "When good dogs do bad things", "Hollywood squares"


Ouça um trecho de "When good dogs do bad things"

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4) Muse ― Absolution (2003)
Produzido por Rich Costey e Muse

Mesmo sendo possível encontrar diversas referências em seu som (como Queen e Radiohead), o Muse já conseguiu ter uma marca própria. Absolution foi a consolidação disso. A introdução do álbum, quase uma marcha, se une à épica e pop "Apocalypse Please", avisando que um exército de grandes canções está pronto para invadir nossos ouvidos. Um piano intenso marca o ritmo e os coros dão profundidade a essa música que já é uma das minhas favoritas. Entre os destaques de um disco arrebatador estão a quase dançante "Time is running out", um rock incisivo, "Stockholm Syndrome", a catártica "Butterflies & hurricane", a singeleza da valsa-pop "Blackout" e o encerramento dramático de "Ruled by secrecy".

Minhas preferidas do álbum: "Apocalypse Please", "Stockholm Syndrome", "Butterflies & hurricane", "Blackout"


Ouça um trecho de "Apocalypse Please"

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5) Dream Theater ― Train Of Tought (2003)
Produzido por John Petrucci e Mike Portnoy

O Dream Theater se propôs a fazer um disco que soasse metal do começo ao fim; a sonoridade deveria se parecer, ainda, com os elementos clássicos do estilo. Claro que tudo isso dentro do universo particular da banda. Deu muito certo. É um trabalho sombrio, muito pesado, com licks rápidos e virtuoso ao extremo. "As I am" soa como um Metallica Black Album; tem um grande riff e um solo magistral. "This dying soul" começa "bate cabeça", mas logo se revela com muitas alternativas e belas melodias. Por fim, uma das melhores músicas do grupo, "In the name of God", com um belo e apoteótico refrão.

Minhas preferidas do álbum: "This dying soul", "In the name of God", "As I am", "Stream of consciousness"


Ouça um trecho de "In the name of God"

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6) At The Drive In ― Relationship of Command (2000)
Produzido por Ross Robinson

O At The Drive In foi uma das grandes bandas de rock do fim dos anos noventa. Sua sonoridade é visceral (pense num Nirvana que sabe tocar), tem muita "pressão", o instrumental é bem feito e a banda era muito coesa. Nela não haviam virtuosos, mas todos eram bons no seu ofício ― com destaque para o trabalho de guitarras, sempre dialogando. O vocalista Cedric Bixler-Zavala mostrava uma gritaria típica do rock alternativo dos EUA. Mas sem exageros e mesclando com boas melodias e variação de interpretações. Os arranjos são bem feitos ― raras são as músicas sem diferentes dinâmicas e climas. Uma ótima canção, que chegou a ter relativamente boa veiculação na MTV, é "One armed scissors". É a terceira música de um disco arrasador.

Minhas preferidas do álbum: "Arcarsenal", "Pattern against user", "One armed scissors", "Invalid litter dept.", "Cosmonaut", "Non-Zero Possibility"


Ouça um trecho de "One armed scissors"

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7) The Mars Volta ― De-Loused in the Comatorium (2003)
Produzido por Rick Rubin e Omar Rodriguez-Lopes

Depois que o At The Drive In acabou, o vocalista Cedric Bixler-Zavala e o guitarrista Omar Rodriguez-Lopez fundaram o The Mars Volta, que lembra a pegada da sua banda anterior. Mas agora o som iria mais para um lado "progressivo", com músicas longas, de mais partes, com arranjos caprichados e trabalhos conceituais. E ainda aparecem elementos de psicodelia. De-Loused in the Comatorium foi o trabalho de estreia. "Son et lumiere" começa o disco num anticlímax; uma quase balada viajante. Dura pouco. A potência do som já se apresenta no fim dessa canção e mostra de vez sua cara na abertura de "Inertiac ESP".

Minhas preferidas do álbum: "Son et lumiere", "Inertiac ESP", "Roulette dares (the haunt of)", "Eriatarka", "Cicatriz ESP"


Ouça um trecho de "Inertiac ESP"

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8) Tomahawk ― Tomahawk (2001)
Produzido por Joe Funderburk

Depois do Faith No More, Mike Patton se saiu muito bem, obrigado. Das esquisitices da carreira solo, ao pop do Peeping Tom, passando pelo trash metal esquizofrênico do Fantômas e diversas parcerias e participações (com Kaada, Lovage e outros), há espaço para um rock direto com o Tomahawk. Num projeto que é mais do guitarrista Duane Denison (ex-Jesus Lizard), Patton mostra como é um grande frontman do rock. As músicas têm estrutura simples, mas uma certa estranheza e um humor quase perverso que espantam qualquer ameaça de clichê. O trabalho de guitarras é ótimo, com riffs inteligentes que também não são nada óbvios. Os urros de Mike Patton estão lá, mas agora mais contidos e com vocais mais variados.

Minhas músicas preferidas: "Flashback", "Sir yes sir", "God hates a coward", "Laredo", "Narcosis"


Ouça um trecho de "God hates a coward"

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9) Pain Of Salvation ― The Perfect Element Pt.1 (2000) e Scarsick (2007)
Produzido por Andres Theo Theander, Daniel Gildenlöw e Pain Of Salvation (TPEI) / Daniel Gildenlöw (Scarsick)

O Pain Of Salvation entra com dois álbuns na lista, já que ambos fazem parte de um só conceito. Scarsick, de 2007, é a continuação de The Perfect Element pt. 1, de 2000. Curiosamente, eles têm sonoridades distintas: o primeiro é orientado para um metal progressivo mais tradicional e o segundo tem uma veia sonora mais crua e direta. Ambos revelam a criatividade e competência de Daniel Gildenlöw (o dono do grupo) nas composições, arranjos, guitarras e vocais. Nos dois álbuns ele usa muito bem a "manobra" de contrapor vocais e passagens agressivos a belas, muitas vezes plácidas, melodias. As temáticas da letras e o tratamento sonoro se aproximam, mas a intenção que recebem é distinta. Em The Perfect Element são mais introspectivos e dramáticos; em Scarsick cínicos e cheio de ironias.

Minhas preferidas dos álbuns: The Perfect Element ― "Ashes", "Used", "In the flesh", "Morning on Earth, "The perfect element" / Scarsick ― "Scarsick", "Spitfall", "America", "Disco Queen", "Enter Rain"


Ouça um trecho de "Used"


Ouça um trecho de "Spitfall"

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10) Oceansize ― Everyone Into Position (2005)
Produzido por Dana Austin

O Oceansize é uma banda de boas (e em geral longas) canções, com arranjos elaborados e diferentes cores e climas sonoros. As músicas conseguem ter um certo apelo pop, mas são bem construídas e sem se perder em facilidades "comerciais". O grupo lançou três excelentes álbuns e escolho este por ter sido o primeiro que ouvi ― e que me fisgou. É recomendado para quem gosta de um tipo de pop com mais alternativas. Mas os que não gostam de músicas melancólicas devem passar longe. Uma das minhas preferidas é "Music for a nurse". Ao mesmo tempo delicada e intensa, abre passagem para uma das melhores do disco: "New Pin", melancólica e redentora.

Minhas preferidas do álbum: "Music for a nurse", "New pin", "The Charm Offensive", "Heaven Alive"


Ouça um trecho de "New Pin"


Rafael Fernandes
Araçoiaba da Serra, 17/2/2010

 

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