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Quarta-feira, 21/4/2010
Guns N' Roses no Brasil: São Paulo
Rafael Fernandes


Crédito da foto: @gunsnroses

A maioria das resenhas sobre os shows do Guns N' Roses no Brasil foi um festival de ideias pré-concebidas, regadas a ódio a Axl Rose. O resultado? A repetição de clichês: textos que pareciam cópias entre si e chegavam ao ponto de colocar nas matérias set lists e músicas que não eram do show específico. Também foi muito destacado que a banda viveria de seu passado. É irônico, então, que tenha tocado em São Paulo nove músicas de seu mais recente disco ― mais que o dobro da soma de músicas dos dois Use Your Illusion e duas a mais que as do clássico Appetite For Destruction. Quanta nostalgia, não?

Na realidade, foi uma apresentação ótima. Só não foi excelente por alguns poréns, como o atraso de sempre de Axl Rose. Alguns fãs tentam justificar o injustificável alegando que o cantor só entra quando está preparado e sempre para dar seu melhor. Essa última parte é verdadeira, mas que comece a se preparar antes, se demora tanto, se tem seus rituais. Tudo bem, isso é um show de rock, mas não precisa exagerar. Porém, também não compro essa pretensa ingenuidade de fãs "indignados" com o atraso. Esse comportamento do cantor, apesar de condenável, é recorrente, conhecido e foi amplamente divulgado. Não dá pra fingir surpresa. Eu, como muitos, fui preparado: com boa companhia, trocando mensagens de texto com amigos, descansando nos intervalos, vendo a "paisagem". Era uma noite apenas para diversão, o que de fato se concretizou. Outros dois problemas: a voz de Axl não estava no seu melhor, o que foi justificado por um problema na garganta e provado por uma rouquidão ao falar. Também houve problemas no som, que em alguns momentos tornavam inaudíveis sua voz. De resto, nada a reclamar.

Depois da histeria do início do show, com "Chinese Democracy", cortada pelo anticlímax do momento "Axl clássico" de interromper o show, o público ficou insandecido com o início de "Welcome To The Jungle". As pessoas pulavam como loucas. Axl Rose foi um show à parte. É muito carismático, um dos grandes frontmen do rock. Sua performance vocal estava prejudicada pelos já citados problemas na garganta. Eu diria que em um terço das músicas ele foi mal, como em "I.R.S", em que chegava a não cantar alguns versos. No outro terço as também citadas questões de mixagem do P.A. por vezes deixavam sua voz abaixo do instrumental. No terço restante, esteve ótimo. Em músicas como "Welcome To The Jungle", "Street Of Dreams", "Sorry" e "This I Love" mostrou grande potência e desenvoltura. E como alguém já disse, quando Axl canta, parece que dá significado a cada verso ― não são só palavras simplesmente cantadas a esmo. Além disso, grande sorte dos paulistanos, estava com um bom humor raro, fazendo piadas, sorrindo para o público e até usando da autoironia: em dado momento incentivou o público a gritar "Fuck You, Axl Rose". Ele é dos últimos representantes de uma linhagem clássica do rock de cantores que hipnotizam o público ao mesmo tempo em que contam com grande desenvoltura vocal ― artigos raros hoje em dia.

É importante destacar a competência da banda ao vivo: peso, dinâmicas, surpresas e dedicação descrevem bem o que fizeram no palco. Não soa como músicos "juntados" nem como "músicos contratados" ― essa bobagem repetida à exaustão. Soa com uma banda extremamente coesa e integrada. Parece que tocam juntos há mais de dez anos. Pior do que essa crítica, mesmo, só a "cover de luxo". Repita-se: que banda cover toca nove músicas de seu disco mais recente de inéditas? Ou, como bem disse o Felipe Machado: "Se uma banda cover leva 38 mil pessoas a um estádio, eu queria tocar em uma banda cover" (nota: nos cinco shows no Brasil, mais de 110 mil pessoas viram a banda).

O baixista Tommy Stinson e o baterista Frank Ferrer compõem a coesa cozinha do Guns N' Roses. Enquanto os guitarristas se esbaldam em poses e caretas, eles seguram a onda. O guitarrista Richard Fortus, que encarna bem a porção poser da banda, fecha seu competente centro rítmico, por ser responsável pela maioria das bases. Chris Pitman e Dizzy Reed tomam conta das programações (o primeiro), pianos (o segundo) e teclados (ambos). São a cobertura da potente massa sonora do grupo. Já DJ Ashba parece ter sido escolhido mais por sua persona do que por suas habilidades ― apenas médias. Além disso, acaba emulando demais a figura de Slash, com um chapéu, cigarro e poses ― nisso ele só tem a perder. Mas os fãs já o acolheram e ele tem boa presença de palco. Ron "Bumblefoot" Thal fecha o trio de guitarras. É um músico de muitos recursos, que vai facilmente de uma uma interpretação comovente a intervenções de vanguarda.

"Rocket Queen" ficou ótima no show: peso e suingue duelaram bem. "This I Love", apesar de bem breguinha, teve uma performance fabulosa de Axl ― o que conquistou o público, que aplaudiu bastante no final. "Sorry" e "Shackler's Revenge" também se sobressaíram. A primeira tem ressaltada sua dramaticidade e a segunda é menos seca e mais solta que a gravação em estúdio. Algumas das músicas novas, como "Better", tiveram reação satisfatória, logo nos seus primeiros acordes ― o que é incrível dada a parca divulgação e pedradas críticas que o disco recebeu. Lamentavelmente, a canção mais bem recebida pelo público está longe de ser o melhor momento de qualquer encarnação do grupo: a enfadonha "November Rain". Mostra bem o que o público médio espera de uma banda. Em compensação, grandes clássicos como "Welcome To The Jungle", "Mr. Brownstone", "Paradise City" e "Nightrain", além de recentes como "If The World" e "Madagascar", foram ótimas.

Num Tungcast, já conversei com o Diogo Salles sobre a grande capacidade que as bandas dos anos 80 tinham de tranformar cada show num espetáculo de fato, em levar a maior diversão possível ao público. Coisa que, infelizmente, se perdeu um pouco nos anos 2000 ― também com certa culpa de muitos exageros cometidos na mesma época. E esse tal espetáculo acaba sendo taxado por uns e outros como brega, clichê ou poser. Não se trata disso. Trata-se de um senso de entretenimento. Porque estamos falando de rock, não de arte (ou pseudoarte). O show do Guns N' Roses é assim: uma produção certeira com bom cenário e suas luzes e explosões calculadas. Essas explosões são muito impactantes in loco. E não são usadas gratuitamente: apenas para aumentar ainda mais o frisson do público. Só quem esteve lá percebeu como os fãs se enlouqueceram quando a cortina de fogo foi se formando no início de "Chinese Democracy". Ou quando uma explosão encerra "It's So Easy" quase fazendo o estádio vir abaixo. Axl Rose tem seus xiliquinhos, idiossincrasias e seus inexplicáveis e imperdoáveis atrasos, mas nunca entra num palco senão para entregar o melhor a seu público: dar a ele uma noite memorável.

Rafael Fernandes
Araçoiaba da Serra, 21/4/2010

 

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