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Segunda-feira, 16/8/2010
Trem na Espanha
Eduardo Mineo

Estou viciado em Jeffrey Bernard, embora ele represente muito daquilo que eu desprezo, ou seja, o tipo canastrão, de valores flexíveis demais. Quer dizer, não tão flexíveis porque a gente se encontra em quase tudo o que ele escreve, mas as coisas ficam estranhas na medida em que o assunto caminha para mulheres, casamentos etc. Minha vida é terra firme e a dele flutua. De qualquer forma, ele me acompanhou durante toda a minha viagem pela Itália com seus Low Life e More Low Life, que reúnem as colunas que escreveu para a Spectator. E "Train in Spain" foi a coluna que mais me interessou, pois conta aquilo que eu estava vivendo no momento, mais ou menos da maneira como eu enxerguei também, embora no final das contas eu tenha gostado muito da minha viagem e também tive mais cuidado ao escrever sobre os imigrantes do que ele teve com os árabes. Cheguei até mesmo a tirar da minha tradução as partes mais ofensivas, e depois tentei suavizar o tom, mas o discurso ficou tão deficiente que preferi mantê-las e acreditar que os leitores terão senso de humor suficiente para rir delas como eu ri.

Trem na Espanha
por Jeffrey Bernard

É amplamente alegado que as palavras imortais "nunca dê uma chance a um otário" foi de W.C. Fields, mas não foi dele. Foi Deus quem as murmurou durante um cochilo na tarde do sétimo dia. Alguns milhões de anos depois, os árabes cunharam o provérbio "num minuto a vida está em suas mãos, no minuto seguinte, na sua bunda". E três semanas atrás, passei a noite toda acordado por dois rouxinóis que estavam cantando numa laranjeira no lado de fora da janela do meu quarto, na Espanha. Bom, o quarto não era exatamente meu, mas eu esperava que eles pelo menos tirassem os rouxinóis antes de me alugar um quarto nos Jardins da Espanha. Keats, Granados, de Falla? Não me faça rir.

Mas para começar do começo, me disseram "não vá de avião, veja a Espanha, pegue o trem em Madrid e conheça o interior". O que eles não me disseram foi que "se você for de trem, a viagem vai durar treze horas e você ficará cercado por camponeses marroquinos cagando no chão". Eu sei que esta última parte pode soar tão mal quanto um bêbado de dentadura tentando assoviar, mas é bem verdade. É realmente impressionante, essa gente. Me processe por racismo se quiser, mas estou aqui para te dizer que os árabes são bem medonhos. Não me importo se eles furtam a Marks and Spencer com 5.000 no bolso ― o dinheiro deve ser para autoindulgências ―, e não me importo se eles ficam de cócoras na frente da minha cabine devorando melões, mas depois de cuidar de seus rebanhos e vendê-los, eu queria que eles não embarcassem no meu trem. Enfim, eu levei meu pulmão direito à Espanha para pegar um ar, mas esta viagem tirou outro ano da vida dele.

Me recuperei após dois dias numa piscina só minha, debaixo de um Sol que iluminava a floresta de carvalho que ia até o mar cintilante, onde eu admirava do outro lado as montanhas azuis da África cheias de, sem dúvida, camponeses cagando perto de seus rebanhos. Era um sinal divino, mas Deus, onipresente e não querendo deixar por menos, colocou ainda alguns urubus sobrevoando aquele céu só por minha causa. Se não eram rouxinóis, eram urubus. Por que fui escolhido assim era a minha maior preocupação naqueles dias, enquanto eu vagava pelos bares de Tarifa. Também me ocorreu que, se Norman colocasse uns pedaços de polvo, chouriço e saladas no bar do Coach & Horses e se ele também servisse vodkas quádruplas por 45 centavos, tudo acompanhado pelo dedilhar de violões e batidas de castanholas, então talvez ele não fosse um cara tão infeliz.

Foi perto da piscina ― posta por Ele, já que eu não posso nadar ― numa tarde que conheci Helen, a viúva inglesa que morava ali. Uma encantadora e amigável senhora. Ela tinha apenas duas falhas que eu podia ver e ouvir: ela dizia "bom, é isso aí" em resposta a tudo que eu dizia, e ela estava sempre acompanhada por um cachorro chamado Roy. Como Alan Rawsthorne me disse uma vez, "nunca confie num cachorro de nome esquisito". E ele estava certo. Roy ficava na mesma rua de Keats, Granados e de Falla latindo para os rouxinóis na virada da noite. Mas Helen era excêntrica com cachorros e tinha um vira-lata por ali que ela alimentava todo dia. Toda manhã ela estacionava o carro precisamente na estrada da montanha, saía, assoviava e dava pedaços de presunto parma para esta coisa que vinha cambaleando de trás das pedras. Quero dizer, simplesmente não se dá presunto parma para cachorros! É como oferecer sanduíche a um gato. De qualquer modo, esta era a rotina toda manhã. Logo depois, ela ainda nos levava até o mercado de Tarifa, ou através da costa até um hotel que pertencia a nazistas criminosos de guerra, onde eu bebi coquetéis enquanto ela levava Roy para caminhar na praia e latir para turistas com peitos de fora. Pensando bem, eu acho que as pessoas não gostavam muito do Roy.

Então lá estava eu, pegando um bronzeado saudável no meio de um cinematográfico idílio alcoólico e culinário quando Aquele Que Deve Ser Amado jogou sua última carta das férias. Eu estava sentado perto da piscina numa tarde pensando se alguma das laranjas locais acabaria na barraquinha do Charlie na Berwick Street quando de repente eu tive esta terrível dor no peito. Eu supus que deve custar umas 500 libras por semana para ficar doente na Espanha e eu quero ser cremado na Inglaterra e não servir de alimento para os urubus ou para o Roy. A única forma de voltar para Londres era via Málaga e a única forma de chegar em Málaga era de táxi. Consegue imaginar 160 quilômetros num táxi? Minha carteira evaporou. Sem contar a passagem de avião para Madrid. Ainda assim, melhor que o cheiro dos camponeses marroquinos. Quando voltei, me senti melhor. Foi tudo uma zona, mas esta é a vida, ou, como diria Helen, é isso aí.

Eduardo Mineo
São Paulo, 16/8/2010

 

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