busca | avançada
41741 visitas/dia
1,3 milhão/mês
Terça-feira, 25/5/2010
Para que o Cristianismo?
Jardel Dias Cavalcanti

Tem algum sentido ainda a religião no mundo moderno e, principalmente, o Cristianismo? O animal humano precisaria ainda dos valores metafísicos organizados na forma de doutrinas religiosas que servem no mais das vezes apenas como sistemas vigilantes da moral e da conduta dos comportamentos sociais?

Os avanços da engenharia genética, em que pesquisas científicas produzem em laboratório "células sintéticas", com genomas artificiais gerando vida (reconstituição do organismo doente) e também gerando morte (a possibilidade destas bactérias criadas detonarem a autodestruição das células quando colocadas em contato com a vida fora do laboratório ― como o fatal Antraz, usado em guerras biológicas), faz o homem ter a sensação de estar substituindo Deus. Quem manipula, cria ou destrói a vida agora somos nós, e não Papai do Céu.

Livros e mais livros têm sido publicados reacendendo o debate sobre a inexistência de Deus. Indagou certo pensador: quando, finalmente, enterraremos de uma vez por todas nossos mortos, nossos "Cristos", "Guevaras", "Lênins" etc.? Acrescente-se agora, com a nova onda de ateus finalmente saindo do armário, e com os escândalos da igreja católica, com processos contra padres que andam estuprando crianças sob sua proteção, a necessária pergunta direta: o cristianismo é bom para o mundo?

Esta pergunta é o título do livro lançado agora pela Garimpo Editoral, no qual debatem a questão dois americanos, o pastor Douglas Wilson, que acredita que o cristianismo é bom e verdadeiro, e o ateu Christopher Hitchens, que acredita que o cristianismo é uma grande mentira e, no final das contas, algo perverso.

O livro se organiza a partir de capítulos onde a fala de cada um revela sua oposição ao pensamento emitido pelo debatedor no capítulo anterior. O debate é quente, inteligente, dos dois lados. Mas a grande questão que o livro suscita é a seguinte: estamos num tempo em que verdades dogmáticas não colam mais. Que o poder exercido por religiões supostamente bem intencionadas, mas no fundo perversas, pode ser colocado no banco dos réus de um tribunal internacional que procura preservar a vida acima de tudo, inclusive acima da crença em um suposto Deus criador.

Mais ainda, o livro reabilita o debate público sobre o sentido que algumas ideias tiveram no passado da história e a irrelevância que podem vir a ter na vida atual. Revela ainda a possibilidade civilizada de se chocar conceitos, verdades e preceitos que antes estavam longe do debate por serem consideradas verdades intocáveis, artigos da fé cega (que no fundo tem se provado uma faca amolada), e que, agora, podem ser questionadas, discutidas, repensadas à luz da própria história destas ideias.

Nos ambientes onde a intelligentsia vive, como diz Adorno, é fato que deve-se levar em consideração a historicidade em relação a quaisquer constructos metafísicos de método ou de verdade. Nos meios menos informados, no entanto, isso não é levado em consideração, sendo a fé que impera em sua absoluta e inquestionável certeza.

Após a crítica de Nietzsche às ideias morais "a golpes de martelo" e Schopenhauer, com seu pessimismo, o imperativo categórico que move o pensamento moderno é o de que a hipótese de um ideal metafísico deve ser, no mínimo, dinamitada.

Retomando mais de perto o livro O cristianismo é bom para o mundo? ― Um debate (Garimpo Editorial, 2010, 80 págs.), podemos dizer que algumas ideias são centrais no debate entre Hitchens e Wilson. A primeira delas, apresentada por Hitchens como oposição ao seu interlocutor, diz que o que move inicialmente o debate é o fato de ele considerar uma falsidade "as alegações metafísicas da religião, e também tem a ver com o que penso ser um despropósito a afirmação de que a religião é a fonte moral em nossa conduta".

Outra ideia de Hitchens é relacionar Deus ao absolutismo: "Para mim, a ideia de que uma pessoa possa desejar um senhor supremo, absoluto e imutável, cujo reinado seja eterno e inquestionável, alguém que exija propiciação incessante e que nos mantém debaixo de vigilância contínua, não importa se estamos dormindo ou acordados, vigilância que não tem fim depois de nossa morte, bem, essa ideia para mim é desconcertante. Um sistema assim tão pavoroso significaria que palavras como 'liberdade' e 'livre-arbítrio' não têm sentido algum. Esse estado de Big-Brother celestial seria o cúmulo do totalitarismo, muito mais hermético e tirano do que o estado visto em 1984, pois os 'crimes do pensamento' ― ofensas cometidas apenas na imaginação ― seriam detectadas no momento em que ocorressem".

Um terceiro ponto levantado por Hitchens diz respeito ao fato da Igreja Católica, embora proclame suas benesses, também ter que responder pelos sistemas opressivos com os quais colaborou ou instituiu. "A igreja católica tem de gastar muito tempo para responder pelos crimes cometidos contra a humanidade, e gasta muito dinheiro hoje para indenizar as vítimas de ações de estupro e tortura contra crianças".

Segundo Hitchens, a religião ocidental cristã nos condena desde seu mito fundador. Adão e Eva são punidos de forma repugnante por terem exercido uma faculdade a eles concedida na criação. E nós, que nem lá estivemos, somos condenados a pagar por essa transgressão até o fim dos tempos, tendo que rastejar para alcançar o favor de um Senhor tirano difícil de agradar. Esse dado faz Hitchens dizer que a Bíblia não passa de um conto de fadas sinistro, recheado com a dimensão vazia do sobrenatural. A conclusão de sua tese é de que existem maiores chances de se viver democraticamente em países onde a religião é pouco presente do que em países fortemente religiosos (veja-se o caso dos totalitarismos do Irã, Afeganistão talibã e Arábia Saudita). Por isso, entre outras coisas, o cristianismo é inútil para o mundo.

Já Douglas Wilson tem outra forma de pensar a religião e Deus. Seus argumentos são quase de um poeta. Deus tem suas dádivas: "Ele sabia que o pôr do sol em tons de azul, laranja e cinza seria tão lindo e incrível que nos deu olhos para que pudéssemos enxergar em cores". A vida como um milagre incessante de beleza e admiração é obra de um ser supremo. (A velha ladainha de sempre, eu diria, com a licença do leitor.) Ele ainda nos diz que Deus nos deu mente e coração com a única finalidade de podermos agradecer ao Supremo por essas suas benesses.

Diz Wilson: "Ele poderia ter feito todos os alimentos nutritivos, mas com gosto de jornal ensopado de óleo. Em vez disso, Ele nos deu sabores de melancia, castanha de caju, cerveja preta, pipoca com manteiga, maçãs, pão fresquinho, picanha assada e uísque 25 anos. E claro, Ele sabia que precisávamos agradecer-lhe tudo isso; então nos deu mente e coração". Bela poesia, não é Sr. Wilson? (Ainda bem que ele não se esqueceu de nos dar uísque 25 anos.)

Essa dádiva, a vida e seu milagre, só podemos e só temos que agradecer a alguém, no caso, Deus. Afinal, diz Wilson, "conforme aprendemos com nossa mãe, quando alguém nos dá um presente como esse, a única resposta é agradecer à pessoa".

Ele retoma o apóstolo Paulo para insistir nessa proposição do lugar central do relacionamento do homem com Deus: a gratidão. Ou seja, Deus é Deus e ser grato a ele é a única coisa de importante que nos resta nesta vida. E o cristianismo está aí para ser a ponte entre os homens agradecidos e a Suprema potência do universo. E também o melhor sistema especulativo para guiar a vida do homem a partir da máxima "ama o teu próximo".

Hitchens dirá que essa regra não necessita da religião para existir, pois toda sociedade que se pretende minimamente estável adotaria essa máxima naturalmente como princípio ou desapareceria. Além do mais, em nome de deuses supremos sabemos que assassinatos intermináveis foram praticados ao longo da história. E sabemos que o mal muitas vezes é praticado em nome de um bem questionável.

O debate se estende dentro do livro a outras questões, de importância vital nesse debate, mas que no fundo retomam o tema central que é sobre a importância ou não do Cristianismo para o mundo. Não cabe nesse artigo retomar todas elas, por falta de espaço. No entanto, uma coisa acaba ficando como lição: que o cristianismo não seja nossa única forma de ética para a vida, dadas as implicações que religiões totalitárias causam no próprio meio social. Não se deve, pois, confundir ética social com cosmologia e poder supremo.

A vida social exige ética, mas, como disse Heráclito, "o ser e não ser permanentes da dialética do universo não são orientados para um objetivo específico, ético ou moral, o universo é um fogo eterno e não foi feito nem pelos homens nem pelos deuses. Não tem ética, portanto."

Do meu ponto de vista particular, acho que Hitchens tem muito de novo a dizer ao leitor; quanto a Wilson, tem somente uma velha ladainha a repetir.

Para terminar, faço uso de um trecho de Heine, citado por Hitchens, para que o leitor pense por si: "Na escuridão, um cego é o melhor guia; mas quando chega a luz do dia, é bobagem usar cegos como guias".

Nota do Editor
Leia também Especial "Deus tem futuro?".

Para ir além





Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 25/5/2010

 

busca | avançada
41741 visitas/dia
1,3 milhão/mês