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Segunda-feira, 31/5/2010
Simplicidade ou você quer dormir brigado?
Daniel Bushatsky

Há uma falsidade no ar! Estão me enganando. Sorriem para mim (ora, mas eu nem o conheço). Estou um pouco abalado, apreensivo, talvez. Com certeza, uma depressãozinha, aquela sadia, que todos devem ter um dia.

Está frio! Isso piora a sensação. Devemos ser felizes? Devemos nos dar bem com todos? Vejo pessoas na rua desagasalhadas. Se eu fosse realmente bom, tiraria o meu melhor casaco e daria para ela?

Meus pensamentos começaram no teatro. A peça A grande volta, com Fúlvio Stefanini e Rodrigo Lombardi, discute a relação de um pai, ator malsucedido, com o filho, publicitário, recém-demitido ― logo eles, que vendem a felicidade. Nunca haviam se falado de verdade. Tido intimidade! Lá às tantas, Fúlvio diz que não precisa sempre falar coisas inteligentes ao comentar como a lua estava bonita.

Fiquei pensando se isso não era a causa da minha tristeza. Cansei de sempre termos que falar coisas bonitas, complexas, profundas. É tão gostoso sentir o cheiro da manhã, tomar um café à tardezinha, ler o jornal despretensiosamente, admitir que gosta de Zorra Total (tá bom, exagerei).

A sociedade parece sempre estar fingindo. Devemos ter os sentimentos certos, o gosto correto, a roupa adequada. Quantas obrigações. Haja sofisticação...

Como estou cansado de fingir, o bonito é aquele casal de velhinhos conversando em uma praça, de mãos dadas. Quantos conseguem atingir isso? Poucos: as estatísticas demonstram que a maioria dos casais se separa antes dos três anos de casamento.

Por que isso acontece? Provavelmente porque estamos em uma era de individualismo. Não se divide mais nada. O que é meu é meu! Não dou ou empresto. Todos querem muito. Como um casamento, que prega justamente o contrário, pode continuar e prosperar?

Talvez seja a sociedade: competitiva e predatória. Talvez, e pior, porque impossível mudar, seja a natureza humana. Nos unimos para vencermos, mas e quando vencemos sem nos unirmos? Separamos!

Falando em casamento, fui há um muito bonito no sábado passado. O pai do noivo era também o pastor. Na prédica, a simplicidade. Nada de discutir política mundial, macroeconomia ou tentar fazer os ouvintes terem uma epifania.

Pelo contrário: ele ensinou aos noivos o básico, mas algo que todos esquecem ou querem esquecer com o passar do tempo. Para o noivo, disse que toda a mulher gosta de pequenas surpresas, um chocolate, uma rosa, uma valsa e até mesmo, pasmem, um pequeno elogio. Um reconhecimento. Lembrou-o, também, que mulheres, em geral, são mais emotivas e gostam de ver as estrelas, a lua e o céu.

Para a noiva, disse que todo homem é mais prático. Não tem o sexto sentido. Porém gostam de uma comida caseira feita especialmente para ele, de ver a esposa bonita e bem arrumada, fidelidade e, também, pasmem, um pequeno elogio. Um reconhecimento.

Para os dois, advertiu: nunca durmam brigados. É a pior atitude que vocês podem ter.

Fiquei emocionado. Um discurso despretensioso, mas profundo, que todos comentaram durante e após a festa. Alguns tirando sarro da esposa, pela falta da comida gostosa, mas todos sabiam o principal daquela mensagem: a paz.

Se não a paz mundial, pelo menos a paz familiar. Os ensinamentos do pai-pastor fizeram com que todos refletissem se o que perseguimos é real. O que é a felicidade? Como você define a felicidade?

Os filmes nos mostram uma utópica. Os romances, idem. Eu sonho com um dia na praia, coqueiros, céu azul, sem nuvens de preferência, com uma linda mulher e uvas sendo colocadas na minha boca. Acho difícil que aconteça, mas quem sabe.

Tudo é tão pretensioso. Tudo deve ser tão sofisticado. Nunca estamos satisfeitos com o que temos. Aposto que se eu estivesse na praia, com os coqueiros, um lindo dia e uma linda mulher, ainda me faltaria a sombra.

Por isso gostei da prédica. Nada de dinheiro, casas, carros e viagens. Muito menos aqueles discursos bíblicos ininteligíveis. Falava sobre a simplicidade. Como podemos agradar um ao outro sem prepotência e fingimento.

Na peça, pai e filho se aproximam após uma boa e sincera conversa. Simples, não?

Mas não é só. Minha única mudança no discurso seria acrescentar que podemos fazer o mesmo com nossos filhos, irmão, amigos e colegas de trabalho. Podemos ser mais sinceros. Falar a verdade.

Temos tantos problemas inventados pela sociedade, que merecemos descomplicar o complicado. Bucólico? Não! Simplesmente mais tranquilo e menos pretensioso. Não precisamos voltar à vida campestre, mas chega de perseguirmos o inatingível ― antes que me critiquem, não estou coibindo o sonho, só chega da palavra "falta". Sonhem com algo possível, menos material, mais espiritual.

Ou você quer dormir brigado?

Daniel Bushatsky
São Paulo, 31/5/2010

 

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