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Quinta-feira, 17/6/2010
Por que não devemos ter Copa do Mundo no Brasil
Adriana Baggio

No último dia 15, assisti à estreia do Brasil na Copa do Mundo da África. A vitória de 2 x 1 sobre a Coreia do Norte parece não ter animado os torcedores e nem a imprensa. Dividindo a atenção entre a TV, o marido e o Twitter, acabei acompanhando mais as reações do que o jogo em si.

Os narradores e comentaristas, como sempre, não deixavam o Dunga em paz. Na minha timeline do Twitter, os posts falavam sobre a chatice do jogo e davam continuidade à internacionalmente famosa campanha #calabocagalvao. O marido também não estava lá muito empolgado, mas não sei se foi por conta do jogo fraco ou da indefectível gripe do inverno curitibano.

Falando bem ou falando mal, o fato é que as pessoas estão mobilizadas, como acontece em todas as Copas desde que me entendo por gente. Empresas mudam o horário de trabalho, bancos e estabelecimentos comerciais fecham, as ruas ficam vazias. Quantos acontecimentos têm tamanho poder de fazer as pessoas alterarem suas rotinas?

Fico imaginando o que vai acontecer assim que o juiz apitar o final da última partida na África, independente de chegarmos ou não nesta fase. A partir deste momento começará a contagem regressiva para o campeonato mundial de 2014, que vai acontecer aqui no Brasil. E aí, sim, todo patriotismo e euforia serão multiplicados a tal ponto que poderão nos alimentar (e alienar) pelos próximos quatro anos.

Se você aguarda ansiosamente este grande evento, melhor parar de ler. O que vem a seguir pode chocar muita gente pelo alto grau de insensibilidade e mau humor: eu acho uma irresponsabilidade realizar a Copa do Mundo no Brasil.

Os únicos brasileiros preparados para avaliar estrategicamente e friamente a Copa, pensando em todos os prós e contras e traçando objetivos claros, são as empresas e a classe política. As empresas, pelas grandes oportunidades mercadológicas que um evento deste porte proporciona. Os políticos, pelas grandes oportunidades de angariar votos e ocupar cargos públicos sem, necessariamente, fazer um trabalho digno destas conquistas.

Já os brasileiros comuns estarão mais movidos pela paixão de ver acontecer em casa o maior evento do futebol. Esquecem que, para fazer uma Copa e reformar estádios, é preciso dinheiro. E que esse dinheiro não dá em árvore, nem mesmo nos magníficos exemplares da exuberante flora brasileira.

Alguns argumentam que a Copa vai trazer desenvolvimento, ajudando a resolver certas deficiências básicas como infraestrutura e transporte. Vai gerar empregos, divulgar lá fora uma imagem mais positiva do país, movimentar o turismo etc. Pode até ser. Mas temos problemas mais graves e urgentes para encarar (que não têm sido resolvidos, em grande parte, por crime e incompetência), e a força da nossa mobilização deveria estar voltada para isso.

Quando o Brasil foi eleito como sede da Copa e das Olimpíadas, um dos critérios que pesou na decisão foi a alegria do povo e sua vontade em receber estes eventos. Durante as filmagens dos locais repletos de pessoas vibrantes, acho que deveríamos ter aproveitado nossa mania de mostrar cartazes para a TV com dizeres como:

"Esporte é saúde! Só nos escolham para as Olimpíadas se os governantes resolverem o caos nos hospitais públicos brasileiros."

ou

"Queremos um 10 também no boletim, não só na camisa do craque. Antes de ter Copa, precisamos de educação!".

E ainda:

"De ladrão, já basta o juiz. Jogo, no Brasil, só se acabarem com a corrupção."

Depois de anos acompanhando as notícias sobre maracutaias em todas as instâncias do poder público, não consigo deixar de lado uma visão pessimista em relação aos acordos que serão feitos para viabilizar estes dois grandes eventos em terras brasileiras. Fico imaginando desvios de verba, conchavos entre empreiteiras e governantes, descaso com necessidades básicas de infraestrutura em nome de obras mais vistosas.

Pode ser que você não concorde comigo, mas não dá para negar que essas situações, infelizmente, fazem parte do imaginário coletivo brasileiro. E então, quando vi a logomarca que escolheram para a Copa de 2014, não pude evitar a associação.

A marca, que será apresentada oficialmente no próximo dia 8 de julho em meio a certas controvérsias, mostra mãos estilizadas formando uma bola. O grafismo sugere uma taça, talvez a taça que os jogadores brasileiros poderão levantar depois de uma emocionante final. É uma imagem muito parecida com outra, que faz parte do nosso imaginário positivo: aquela do Carlos Alberto Torres levantando a Jules Rimet na Copa de 1970 (relembre aqui, junto com outras dentre as imagens mais vistas do Brasil).

Para mim, no entanto, estas mãos são meio tétricas. Os dedos finos que engrossam nas pontas lembram algo malévolo. A forma como envolvem uma hipotética bola sugerem ganância, todo mundo querendo botar a mão na sua parte. E o 2014 em vermelho, ali todo espremidinho, é o povo tentando sobreviver em meio a tantos problemas, dando seu sangue no trabalho para comprar uma nova e grande TV que mostre os lances da Copa em todos os detalhes.

Minhas impressões não têm nada a ver com o trabalho dos designers que desenvolveram a marca. Esteticamente não me causa grande rejeição, apesar de eu preferir linhas mais elegantes e menos orgânicas. Em defesa dela e de uma análise mais aprofundada em termos de design, sugiro que os interessados assistam ao vídeo feito pelo professor Roberto Tietz, da PUC-RS. Ele discute a logomarca com bastante propriedade a partir de três aspectos: o modernismo americano do pós-guerra de Paul Rand, imagens relacionadas ao Brasil e referências a Henri Matisse.



Quem não gostar da marca pode botar a culpa em Ivete Sangalo, Paulo Coelho e Gisele Bündchen. Eles, entre outras personalidades mais qualificadas, participaram da escolha da imagem.

E então, aproveitando a onda de espírito crítico, poderíamos ir além dos assuntos relacionados ao futebol e questionar os desvios de verba, a corrupção, os problemas da saúde e de violência. Poderíamos nos mobilizar, assim como fizemos com o Galvão, só que para temas mais relevantes. Aliás, poderíamos exercitar essa postura logo depois da Copa, quando a campanha eleitoral vai pegar fogo de verdade.

Depende muito de nós se, daqui a quatro anos, as mãos da logomarca vão representar a conquista legítima da taça ou uma apropriação ilegítima dos recursos que produzimos para o desenvolvimento do nosso Brasil. É isso aí. A bola está com a gente.

Adriana Baggio
Curitiba, 17/6/2010

 

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