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Segunda-feira, 28/6/2010
O fim do futebol-arte?
Humberto Pereira da Silva


LIANA TIMMę (http://timm.art.br/)

Torcedores e "Especialistas" em futebol têm manifestado que os jogos nessa Copa do Mundo estão fracos, monótonos, chatos, carentes de emoção. Faltam gols, grandes jogadas, destaques individuais: vitória com dois gols de diferença é goleada. Se a Copa é chata, nela também se tem dado destaque às inúmeras falhas individuais: Green, goleiro titular da Inglaterra só no primeiro jogo, protagonizou um dos momentos mais constrangedores, na falha que resultou no gol de empate dos Estados Unidos; igualmente constrangedor, mas com menos destaque, foram os gols perdidos pela Nigéria contra a Coréia do Sul, que selaram sua sorte no mundial.

O que se repete como mantra é: a França foi uma decepção, a Inglaterra não tem correspondido, a Holanda ganha, mas não empolga, a Argentina vence, mas não convence, a Itália foi uma vergonha, as seleções africanas são um fiasco, a exceção de Gana. Espera-se espetáculo, mas ele não ocorre. Fiquemos com um clichê: grandes jogadas individuais dependem de espaços. Quando pegamos os diversos documentários à disposição nas bancas de jornal com a História das Copas, o que surpreende é ver como Pelé e cia. tinham espaços. Nesses mesmos documentários se pode ver que foi com o "Carrossel holandês" em 74 que os espaços foram ocupados. O futebol-arte da seleção brasileira da Copa de 70 não se repetiu nas edições seguintes do mundial: um lampejo e derrota em 82 e vitória em Copa do Mundo novamente com o futebol-pragmático em 94.

O que a Copa Sul-africana repete e acentua é o império da disciplina tática, da maximização da eficiência, da lógica de resultados. Grécia, Suíça e Sérvia, para ficar nessas, protagonizaram partidas em que o que menos queriam era a bola. Contentaram-se com a aplicação tática, com uma armação defensiva que tornava praticamente impossível vislumbrar uma atuação individual ou coletiva de efeito de seus adversários. Como superar o "ferrolho" de defesas fortemente armadas para eliminar qualquer espaço possível de criação em campo? Eis uma indagação que muitos comentaristas esportivos têm feito.

O que se tem visto é que os melhores momentos, os lampejos de espetáculo, ocorrem quando por uma razão ou outra uma seleção perde o ponto de equilíbrio tático e se lança sem organização em busca de resultado. Por paradoxo, entre esses grandes momentos, aquele em que, contra a disciplinada Eslováquia, a seleção italiana, conhecida pela disciplina, na iminência de eliminação se lançou sem disciplina nos minutos finais da partida para arrancar um gol que a classificaria e sofreu justamente um gol que a eliminou precocemente nessa primeira fase. Os comentaristas foram unânimes em realçar a falha absurda da defesa italiana: tomar um gol após a cobrança de um lateral. Com a ânsia para marcar um gol salvador, teria a defesa italiana frieza para se preparar taticamente para cobrir espaços na hora do lateral?

A discussão, como se vê, gira em torno de falhas de posicionamento, portanto, de organização tática. Quem faz essas observações, no entanto, muitas vezes clama pelo futebol-arte. Não seria o caso pensar que essa Copa Sul-africana decreta o ocaso do tal do futebol-arte? Pensemos no futebol como a "arte do movimento com uma bola nos pés". Arte é uma exceção, não regra. A repetição, ou a reprodutibilidade, faz pensar na produção em série e na satisfação consumista capitalista. Os obstáculos à criação são superados pelo gênio. Mas o gênio não se submete às exigências de espectadores que pagam para vê-lo satisfazer seus desejos. Tampouco o gênio desponta conforme as pranchetas que o conformam a uma posição no campo, como se o campo fosse um tabuleiro de xadrez. Uma das grandes graças do futebol está justamente na insurgência a regras, no imprevisto: a partida tem noventa minutos e o movimento da bola é imponderável. Quando ocorrerem lances, jogadas geniais, nessa Copa isso será fruto principalmente da genialidade de um jogador para superar esquemas táticos, aproveitar falhas que o coloquem na condição de fazer valer o futebol-arte.

Otimismo ingênuo? Não, apenas a percepção de que as condições para a realização da arte do movimento com a bola nos pés atualmente não são as mesmas da Copa de 70. De qualquer forma, se, de fato, como o futuro assim o revelar, essa Copa representar o fim da arte no futebol, há poucas razões para acreditar que os torcedores tenham pulsões masoquistas para a chatice da maximização da eficiência com a disciplina tática. Claro, ainda por um tempo a publicidade se ocupará da ilusão: enquanto movimentar quantias vultosas e interesses, quem se beneficia com isso terá razões para apresentar embalagem bela por fora e vazia por dentro. Assim sendo, o futebol não se diferenciaria muito da Fórmula 1: o melhor piloto dispõe do melhor carro, sem um novo e imprescindível "pacote", não há carro nem há bom piloto na F1.

Futebol-arte e disciplina tática à parte, as seleções africanas são o destaque negativo dessa Copa. A Copa das Nações Africanas, disputada no início do ano e vencida pelo Egito, que não está na África do Sul, já o prenunciava. Mas quando se pensa em arte ou disciplina, nada disso se viu nas seleções africanas. Gana, a única a passar da primeira fase, não mostrou futebol vistoso ou disciplinado - circunstâncias bem específicas garantiram sua classificação. Costa do Marfim e Camarões, com jogadores como Drogba e Eto'o, acentuaram que dos países africanos não se pode esperar muito, mesmo com jogadores que são reconhecidos entre os melhores do mundo. Para as seleções da África, esta seria a Copa para mostrar que apresentaram "evolução", mas isso não aconteceu e a seleção de Gana, mesmo tendo passado para as quartas-de-final, não revela novidade alguma.

Vale por fim destacar que há muitos assuntos recorrentes e que evidenciam incompreensão sobre um evento cercado de tantos interesses. Uma observação recorrente é sobre o arranjo dos grupos e possíveis cruzamentos. Essa Copa tem evidenciado que cada partida tem características bastante próprias. Quem acreditar que cruzar com uma seleção supostamente mais fraca terá vantagem, se engana. O grupo da Itália, aparentemente fácil, deu a senha. Seleções com melhor aproveitamento na primeira fase têm contra si o fantasma da derrota e desclassificação num único lance. Uma competição chata e sem emoções é também marcada por inúmeras falhas individuais e de posicionamento tático. E um gol, não se pode esquecer, pode bem ser uma goleada; basta lembrar que foi assim que a Sérvia, última de seu grupo, venceu a Alemanha, que assim venceu Gana, que igualmente assim venceu a Sérvia.

Humberto Pereira da Silva
São Paulo, 28/6/2010

 

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