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Sexta-feira, 13/8/2010
Escrevendo com o inimigo
Ana Elisa Ribeiro


LIANA TIMMę (http://timm.art.br/)

Passo a passo. Letrinha, sílaba, palavra e frase. Não passava muito daí enquanto a gente estava na escola. Texto, só na rua. É lá que as coisas acontecem com mais liberdade. Na escola era só a composição com tijolinhos, pouco cimento e muita areia. Parede dura demais dá trinca. Daí já se vislumbra o método. Acho que a gente começava a ler pelas letras, embora alguns amiguinhos da vizinhança aprendessem pelas palavras, ou algo assim. É como dizem os químicos: sintético e analítico. Mais ou menos isso.

Lá pelas tantas, alguém dizia que certas palavras eram como pontes que criavam articulações com outras, com parágrafos inteiros. E por falar neles, eram matéria de estudo durante infinitas semanas. O que é um parágrafo? Há quem diga que é um bloco de palavras e frases cercado por um branco de cada lado. Parágrafo americano, parágrafo francês. É quando se muda de assunto. Mais adiante, revelam que é quando mudam o ângulo ou o foco do assunto. Ah, meu Deus, como assim? Faça o que eu faço. Não adianta só prestar atenção ao que eu digo. Era assim que se aprendia a escrever. Mas e quando o professor não escreve? Aí o jeito é prestar atenção mesmo e anotar. Parágrafo é quando você abre uma endentação na primeira frase. Ponto e parágrafo. Na máquina de escrever, era feito com um toquinho a mais. Difícil era educar o olho para separar sílabas (coisa que não existe mais para crianças que usam editores de texto eletrônicos).

Será que se aprende mesmo a escrever? Ou depende muito mais de conhecimento tácito, operativo, procedimental ou seja lá o nome que isso tenha. Uma coisa é certa: ninguém nunca sabe a gramática normativa. Sabendo disso, é só relaxar. Mas há quem se dê bem com ela. Então é melhor fazer um esforço. Aprenda ao menos a procurar. No outdoor do aeroporto estava escrito: o que você acha depende muito do que você procura. Meu avô já dizia: assombração sabe para quem aparece.

Vamos lá: aprenda a escrever um parágrafo e seja feliz na vida acadêmica. Levamos uns doze anos para aprender e, quando chego na faculdade, uma professora dessas famosas me ensina que resumos acadêmicos não são feitos com parágrafos. Faz-se com apenas um blocão de texto em que se encontram dados como introdução, metodologia, resultados, discussão e conclusão do trabalho, tudo de roldão, de uma vez só, num único fôlego universitário. Que decepção. Agora que eu aprendi a abrir parágrafo, me desensinam. Mas fique calma, querida, é apenas para alguns gêneros de texto de circulação restrita a certa comunidade. Não é assim para todo mundo.

E aí me acomete aquela gana incrível de abrir um parágrafo. Um grande esforço é necessário para que eu atravesse esse desejo de articular melhor a leitura do meu estimado leitor ideal. O que ele vai pensar de mim? Que não sei sequer abrir parágrafo? Que tipo de escritor sou eu? Mas me disseram que esses leitores estão preparados para ler esta categoria de textos. Fico em paz.

Disseram também que os títulos devem resumir a ideia principal do texto. Lendo jornais de cinquenta centavos (ou menos), fico pensando muito nisso. Será? Pego acolá um livro do Verissimo (o cronista) para ler e lá estão todas as deslições de título que a escola não me deu. Títulos são elementos inteligentes de textos que querem ser mais do que apenas burocráticos. Aí um amigo querido me alerta: dance conforme a música. No vestibular, você usa aí os parágrafos e os títulos que aprendeu nas aulas do cursinho (estamos aqui, caro leitor, tratando de uma média, claro. Feliz é você se a carapuça não lhe serve). Na rua, em casa, no trabalho, você usa o que deve ser mesmo, conforme as interações, os gêneros e as necessidades vão ditando.

Já viu quantos tipos de A existem? Como é que se aprende isso? Haja memória. Como é que se desaprende apenas um formato das coisas? Ainda bem que o cérebro é flexível como borracha. Pena que não seja bonitinho. Palavra, sílaba, letra. De que se faz um bom texto? De regras, me diria o bom aluno. Decore aí: não se separa o sujeito do verbo (que diz respeito a esse sujeito, claro). Copiou? Pois escreva aí o que estou lhe dizendo, se quiser conservar seus pontos na caderneta (ou no sistema on-line). Não separe o sujeito do que ele fez. E por que insistes? Porque algum dia lhe disseram que a vírgula se coloca "onde a gente respira". Santa madre. Pois respire diferente. Trate de não respirar tanto assim. Respire como se caminhasse na esteira. Não suba escadarias antes de escrever. Torça para que sua redação de vestibular seja feita no andar térreo. Desaprenda. As vírgulas têm lugar lógico (na maioria das vezes) para acontecer. Um amigo trafica uma informação: use de menos que a chance de acertar é maior. Ah, é? Eu sei que isso é certo para o emprego de "isso" e "isto". Quando é que você usou "isto"? Decore aquelas explicações sobre distância do interlocutor, mais perto, mais longe, acolá. Encene isso por aí. Depois faça as contas.

Escrever sozinho dá nisso. E escrever com coautores? Escrever em parceria. Isso existe? Claro que sim. Só que é mais difícil do que achar parceiro no amor. Você se casa umas quatro vezes enquanto arranja apenas meio coautor de verdade. E é necessário permitir que mexam muito nas suas gavetas. Tanto o marido/a esposa quanto o coautor. Mas vai que dá certo? Para isso, é preciso aprender e desaprender juntos.

Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 13/8/2010

 

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