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Terça-feira, 7/9/2010
Eleição para boi dormir?
Jardel Dias Cavalcanti


LIANA TIMM© (http://timm.art.br/)

A eleição para Presidente da República está marcada pela preferência majoritária por três candidatos: Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva. Eles são o ponto nevrálgico da disputa. É em torno deles que se constitui toda a retórica das eleições. Vou comentar abaixo individualmente sobre cada um deles.

Dilma Rousseff
Já saindo com uma vantagem invejável, a candidata do PT, Dilma, tem por trás dessa posição um governo que, querendo ou não, caiu nas graças da população. A economia sobcontrole (ao menos aparentemente, pois há muita água suja por trás desse controle) satisfaz um eleitorado que há muito não ouve estatísticas assustadoras sobre desemprego, inflação galopante, desestabilização da economia. Isso gera uma sensação de conforto que discurso opositivo nenhum consegue desmontar. Ninguém quer sair desse conforto produzido pelos 8 anos de PT no poder. As classes média, baixa e alta estão despreocupadas. E isso é bom para a candidatura de Dilma.

Depois de eleito, Lula (e o PT, consequentemente) conseguiu afastar de si a imagem do operário, proletário, radical, sendo reconhecido mundialmente por sua história sindical (não revista criticamente ainda) e por ter se tornado líder "operário" de um país com aspirações liberais e democráticas e em estado de franco desenvolvimento. A imagem do Brasil no exterior cresceu em importância (somos um potencial em consumidores, ora bolas) e pensa-se que isso se deve a Lula unicamente, esquecendo-se das várias atuações de Fernando Henrique Cardoso fora do Brasil, anos atrás, preparando o terreno para o que Lula computou para si mesmo como atributo positivo de sua política de relações exteriores e não virtude do governo anterior.

Dilma, substituta de Lula escolhida pelo PT, aproveita a boa imagem do governo Lula e já tem quase certa sua vitória. Ninguém mexeria em time que está ganhando. Há um componente simbólico também na eleição de uma mulher, o primeiro presidente do sexo feminino no Brasil, como aconteceu no Chile com Michelle Bachelet. (Antes de ser presidente, Bachelet apoiou o Partido Socialista na clandestinidade e, por este motivo, foi presa com sua mãe em 10 de janeiro de 1975, sendo torturada e interrogada. Depois de um ano de reclusão, mãe e filha partiram ao exílio na Austrália, para partir mais tarde para a Alemanha Oriental). Isso em tempos que temos como memória recente a emocionante vitória de Barack Obama como primeiro presidente negro dos EUA... Uma vitória que simbolicamente redime décadas do estúpido racismo americano. Portanto, os tempos são outros, com ventos favoráveis a uma democracia que afasta velhos clichês, sejam eles sexistas ou racistas. Mulheres e negros no poder são sintomas de que o velho mundo não vale mais nada e que se assentava em preconceitos marcadamente equivocados e medíocres.

Evidente que tudo isso por si só não garante qualidade governamental, mas torcemos que sim. Dilma é uma candidata que, se não tivesse a garantia de um governo por trás de si, talvez não aguentasse sozinha o páreo da disputa com Serra e Marina, pois tem dificuldades visíveis para se confrontar com entrevistadores, opositores, deixando claras as suas contradições e insegurança. As plásticas que a rejuvenesceram (sugestão de nossa querida Marta Suplicy?; essa, sim, a candidata de meus sonhos) lhe deram segurança quanto à aparência, mas não quanto a exposição clara de seu programa de governo. Afinal, vamos avançar em relação aos buracos deixados por Lula ou não? Pois sabemos que estamos ainda num país onde se concentra uma grande riqueza nas mãos de poucos e muita miséria na vida da maioria da população. Conseguir pagar um carro em centenas de prestações não nos livra da falta de hospitais e médicos para a população, da falta de escolas públicas de qualidade e professores bem pagos, de salários decentes para todos (ou seja, distribuição de renda).

Dilma, nossa próxima presidenta, representa o PT moderado, que expulsou seus radicais de seu quadro e se adéqua bem ao liberalismo moderno exigido pela democracia europeia e americana, sem prejuízos maiores para os donos do poder (banqueiros e industriais, principalmente).

José Serra
O candidato José Serra tem para si o segundo lugar garantido. Ele conjuga votos de pessoas geralmente de classe média, que se sentem mal com o cheiro do povo representado num partido como o PT (e seu ícone operário Lula) com afeições pelo MST, Cuba, Hugo Chaves etc. Além disso, Serra representa a classe alta paulista, antipopular em sua representação, e o passado do governo FHC, com sua tentativa de privatizar nossas empresas e riquezas, universidades, que fez o povo sentir na pele a alta dos preços de tudo etc. Uma péssima lembrança para uma população que via todo dia a maquininha de marcar preço em produtos de supermercado em ação.

Para professores ele é uma péssima impressão também, de um governante que deixou policiais espancarem os educadores dos filhos da classe pobre e média deste país. Professor mal pago e magoado não é boa política. Tratar manifestação de professores como caso de polícia é cutucar onça com vara curta. E Serra carrega essa imagem nas costas. Não quero discutir o valor de Serra ― que ele tem, com certeza ―, mas o efeito que sua imagem causa no eleitorado.

Portanto, o candidato preferido pelo PSBD, que afastou a liderança mineira menos carrancuda de Aécio Neves, não tem uma impressão tão positiva como Dilma a passar para o eleitorado. Ou o PSDB renova sua atitude, se tornando humilde e escolhendo um candidato mais popular, ou vai derrapar na areia movediça de seu ego inflado (aristocrático?).

Marina Silva
A Marina Silva, terceiríssimo lugar, com uma margem de voto pequena e o peso de ser evangélica, vai conseguir votos de fiéis da sua igreja e ingênuos defensores do ambiente, que veem nela uma espécie de terceira via para o quadro acima esboçado.

À imagem da mulher pobre, magricela, desnutrida, alfabetizada depois de adulta, se junta aquela de uma guerreira, heroína, que venceu os dissabores da vida e aponta para uma área de interesse coletivo: a proteção do meio ambiente.

Fugindo nos debates de questões modernas e de interesse geral, como, por exemplo, o aborto e as drogas, Marina tem se esquivado de ser ela mesma, de defender seus próprios pontos de vista, acionando, como político velho de guerra, estratégias de falsa retórica para se desviar do perigo de ser tachada de atrasada, religiosa e perigosa para a democracia liberal.

Vendendo a imagem de "pura", como se sua política se opusesse a do governo Lula por não aceitar suas ligações com setores do poder para lá de comprometidos com corrupção, com roubalheira, crimes do colarinho branco etc., Marina não conseguiria governar sem fazer os mesmo conchavos que o PT tem feito (até com pessoas como Collor, Sarney e Maluf, filhotes da ditadura, que hoje defendem o governo Lula em troca de benesses governamentais).

A lisura de Marina não se sustentaria (se sustenta com o vice que escolheu, o presidente da Natura?), tendo que conseguir governar ao preço de vender sua suposta pureza de caráter para velhos políticos, sedentos não de impor suas ideologias, mas de permanecer a todo custo no poder onde mamam desavergonhadamente em tetas bem gordas e que dão leite como o mel que nasce no paraíso: a custo de nada e do esforço de toda a população.

Conclusão
Nessa guerra onde está antecipadamente definida a vitória de Dilma, talvez não tenhamos a esperança de uma renovação mais radical do fato mais urgente desse país: a distribuição de renda.

Continuamos com problemas seriíssimos a resolver e que custariam ao menos os dedos e os braços dos donos do poder. Mas estes não estão dispostos a perder a posição em que se encontram, preferindo sonhar com a benevolência de um governo petista acomodado ao poder e distante do pesadelo que poderiam produzir se constestassem de uma vez por todas o poder daqueles que exploram a vida e o trabalho dos mal pagos trabalhadores brasileiros. Esse pesadelo eles não vão ter, pois a rédea curta que prende o PT é construída com o legítimo e refinado coro da conformidade que o poder cria.

Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 7/9/2010

 

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