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Quarta-feira, 26/1/2011
A aura da música
Luiz Rebinski Junior

Confesso que demorei muito pra entender cinco por cento do que li daquele sujeito alemão chamado Walter Benjamin. Tão cruel quanto tentar fazer um semi-adolescente desvendar o mistério da (provável) traição de Capitu, é mandar um estudante de comunicação xerocar um capítulo de A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Mas, se o curso de jornalismo não me foi de muita serventia, a biblioteca da faculdade onde estudei me prestou grande serviço. Morei lá por um tempo. Passei mais horas estirado nos sofás que rodeiam as estantes do que nos bancos da sala de aula. Desbravei aleatoriamente aquelas estantes, fazendo listas de livros - "a ler" - sem nenhum critério. A maioria dos livros não indicada pelos teóricos da comunicação. Ainda bem. Mas entre Cem anos de solidão aqui, O processo ali, arranjava um tempinho de meu ócio criativo para Max Weber, José Marques de Mello e os amiguinhos de Benjamin, os homens da tal Escola de Frankfurt, que todo mundo da comunicação já xerocou, mas poucos, pouquíssimos, leram. E um punhado ainda menor entendeu o que leu. Faço parte dessa leva.

Mas um conceitozinho ficou. Aquele que diz que a arte do século XX perdeu a aura, não tem mais o mesmo valor do que aquilo que foi feito em escala não-industrial. Realmente não sei se o senhor Benjamin está certo ou errado, se a simples reprodução de uma obra tira dela o seu valor e se isso faz de Andy Warhol menos artista do que Caravaggio, por exemplo. Mas, pensando nesse conceito, me veio à cabeça a questão da crise do disco. Para quem foi acostumado a valorizar o que ouvia, essa feira livre que virou a música é, no mínimo, estranha.

Eu sou do tempo em que se gravava fita cassete. Isso não faz muito tempo, mas a rapidez da tecnologia é tamanha, que um inocente K7 hoje já soa como piada. Então eu vivia atrás de amigos que tivessem grandes acervos de LPs para escutar artistas que conhecia por meio das revistas de música. Isso quer dizer que, para eu escutar determinado disco, era preciso, no mínimo, gastar sola de sapato. Às vezes até mesmo implorar para um amigo não muito próximo a gravação de um disco raro, que poucos tinham. Cheguei até a pagar para que me gravassem um disco em uma fita. Pura humilhação em nome da música. Então, pra mim é muito estranho ter a discografia de uma banda ao meu alcance sem nenhum esforço. Claro que não estou reclamando de ter acesso aos discos que, antes do download, eu sonhava em escutar. Não é isso, baixo sem dó aquilo que me interessa. Sei que tem o lance dos direitos autorais, que é uma questão complicada, mas baixo música com o mesmo espírito com que gravava minhas fitas cassetes, então não me considero um criminoso ou pirata. Uma questão de democracia cultural, pra mim. Também não estendo uma barraquinha na esquina para ganhar grana com os discos que pego na internet, no máximo gravo um cedezinho para um amigo.

É muito bom ter a História da música ao alcance das mãos, mas a verdade é que isso banalizou a música. Dia desses um figurão da indústria disse que a música havia virado um assessório pra iPod. Eu penso nisso desde que comecei a escutar música no novo formato e queria ter verbalizado isso antes do tal sujeito. Então, se fosse pra resumir o que virou a música na era digital, acho que essa frase definiria bem o que tá acontecendo.

Um disco hoje é apenas um cartão de visita de um músico ou banda. Uma espécie de portfólio bem custoso. Já tive a oportunidade de acompanhar a gravação de um disco de uma banda independente. Em geral, os caras tocam nos piores moquifos por um ou dois anos até economizar a grana necessária para fazer o disco. Quando o trabalho fica pronto, a banda o distribui de graça para um monte de gente em troca de uma hipotética divulgação. Os discos vendidos em shows não pagam a cerveja nem o custo do transporte dos equipamentos.

E com a velha guarda da música nacional, aqueles acostumados com o conforto das antigas gravadoras, não é muito diferente. Nando Reis, dia desses, se queixava, dizendo que o artista se ferra pra fazer um disco e, quando fica pronto, ninguém compra/escuta.

Mas então, diante dessa zona toda, me pergunto se as pessoas gostam menos de música hoje do que há vinte anos. A venda de disco tem relação com o consumo? As pessoas continuam amando música, mesmo não querendo mais pagar por ela? Eu desconfio que as pessoas ainda amem a música, só que mantêm uma relação diferente com ela, menos apegada. Só pode ser. As pessoas não querem mais saber quem foi o saxofonista que tocou com Van Morrison em It's too late stop now, o discaço ao vivo do irlandês. Pouco interessa que foi gravado em 1974 com a Caledonian Soul Orchestra, formada por dez músicos excepcionais. O cidadão quer mais é achar "Gloria" rapidamente e jogá-la na vala comum de seu iPod, mesmo que corra o risco de deixar para trás canções ainda mais antológicas. O rito da música parece que ficou reservado àqueles que não se iniciaram com o download.

E isso não tem nada a ver com aqueles caras mais radicais, que só escutam LPs e são ratos de sebo. Qualquer piá de bermudão e camisa de flanela nos anos 1990 queria ter os discos do Nirvana. Ou pelo menos parte deles. Mas hoje, se um emo pudesse escolher, pagando pouco, entre uma pasta com músicas no computador e uma estante com CDs, o que ele escolheria? Também acho que a culpa é da própria indústria, que deu um tiro no pé quando extorquiu os consumidores com seus preços criminosos. Quando quis recuar, baixando seus produtos, já era tarde. Talvez hoje a questão seja irreversível. Mesmo que os discos sejam vendidos a preços justos, não sei se voltariam ao patamar de vendas do passado.

Mas acho que só a questão da grana não explica essa espécie de revolução social que se abateu sobre a música. Há algo que não nos foi explicado ainda. E que talvez só saberemos o que é no dia em que essa nova onda passar.

Para ir além
Leia também "Para mim e para você, o CD teve vida curta".

Luiz Rebinski Junior
Curitiba, 26/1/2011

 

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