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Quarta-feira, 30/3/2011
A rentável miséria da literatura
Lucas Carvalho Peto

A literatura está empobrecendo. A literatura como expressão artística por excelência perde espaço dia após dia. Autores como Georges Bataille perdem espaço para contadores de histórias "vendáveis". A verdade é que os leitores aumentam, mas a qualidade de suas leituras diminui significativamente. A transgressão está diminuindo. O poder "revolucionário" da linguagem está sendo deixado de lado. Aqui, o que se questiona é a padronização, e não uma ou outra obra. Esse ou aquele autor. Essa ou aquela editora. Questiona-se a padronização. Os Tertuliano Máximo Afonso, personagem do livro O homem duplicado, de José Saramago, estão perdendo a queda de braço para o senso-comum. Se o Tchítchicov de Gogol, perambulasse, hoje, em uma breve busca por fortuna literária, não encontraria, de fato, muito além de almas mortas. E o jovem Wilhelm Meister, de Goethe, para quem "um poema ou deve ser excelente ou não existir", apaixonado pelo teatro shakesperiano, que em cóleras se consumia a constatar a "ausência de um único comentário sobre o valor poético de uma peça teatral", o que seria dele? O que seria desse mesmo Meister, que se percebia atônito frente à predileção dos atores por questionamentos como: "O que será desta peça? Quanto tempo ficará em cartaz? Quanto ganharemos com ela?". Hoje, encontraria ele os Vinteuil's proustianos, ou Karmazínov's, que, como apontado por Lipútin, em Os Demônios, de Dostoiévski, prezava mais por suas "relações com os homens fortes e a alta sociedade do que com a própria alma e sua arte"?

O que deveria ser uma expressão da subjetividade do autor como em Proust, um retrato político-social como em Victor Hugo, um esboço fictício de ideias filosóficas como em Camus e Simone de Beauvoir, ou, nos moldes parnasianos, arte pela arte, atualmente não passa de cópia da cópia, de uma cópia copiada. O que dizer, então, sobre a inovação? Inovação estética e conceitual, como no Decamerão de Boccaccio, por exemplo. Esta também está escassa. É só entrar em uma livraria e constatar o óbvio. As capas se assemelham. As histórias se assemelham, até as ideias se parecem. "Vivemos no que se pode chamar hoje, sem nenhum exagero, um deserto de ideias. Não há ideias novas, não há ideias que mobilizem, não há ideias que façam levantar as pessoas da sua resignação", disse Saramago. Roland Barthes diria (disse, aliás) que os autores não existem mais, existem apenas scriptores. E por quê? Os autores são os culpados? As editoras? E o leitor, ele não tem "parcela de culpa"?

O affair com a sétima arte tem seu papel nessa questão. Deixa-se de lado uma produção literária reflexiva, epistemológica, existencial, metalinguística ou filosófica para se produzir cinema impresso. Essa é a base genética da predileção pela descrição física das personagens e do ambiente no qual estão inseridas. Alguns dirão que Flaubert já fazia isso. E Proust também, em menor escala. A diferença aqui é o objetivo. Flaubert e Proust tinham um propósito estético puro. Não se pode dizer o mesmo da maioria dos autores contemporâneos. Eles buscam o estético prático e, com isso, furtam de seus leitores um dos pilares da literatura: o imaginário. E o objetivo é preciso, criar personagens que lembrem atores famosos, com especificidades da moda. O cineasta não precisa mais vasculhar os livros em busca de histórias para retratar, os escritores é que se esforçam para levar seus escritos para a tela. É uma inversão de polaridade. Essa é uma das partes que cabe aos autores.

A sociedade-minuto também impede uma produção literal vertical, ou seja, uma literatura que questiona e submerge nas questões. Personagens com pouca, às vezes nenhuma, intensidade psicológica são interessantes. Fazem, e só. Não há tempo para as divagações de Raskólnikov, nem para os diálogos infinitos de Dolmancé. Quem quer ser lido precisa produzir literatura-miojo: três minutos e pronto. E de preferência cremosa. Quanta ironia, vislumbrem o zeitgeist! Por que a primeira versão do romance Suave é a noite, de F. Scott Fitzgerald, não nos aparece mais como em sua primeira edição, com os flashbacks na história da desintegração do casamento de Nicole Warren e Richard Diver? Porque, como aponta Zizek, a volta ao passado, atualmente, "não fica inteiramente justificada em termos artísticos". É desperdício de tempo. E a única maneira de permanecer fiel à verdade artística é "cerrar os dentes e admitir a derrota".

O sistema econômico não se ausenta. Só o que vende fica. Está exposto nas prateleiras, nos sites, em outdoors, camisetas. Em resumo: é uma avalanche. Quem é Michelet? Genet? Rimbaud? Balzac? Petrarca? Raimundo Correia? Gide? Yesenin? Eles vendem milhões de exemplares? Suas personagens, em fotos, decoram os quartos de milhares de jovens? Seus livros são filmes que viraram, ou virarão, febre mundial? Essa é parcela das editoras.

Outro problema: o exílio que se impõe aos grandes autores. Não que os mesmos estejam extintos, pelo contrário, continuam vivos e fortes: na mesa dos leitores "hardcore". Mas, no geral, o pouco que deles se conhece são os quote. Esse movimento não é novo. O que se conhece, primordialmente, de grandes autores (me limitarei aos brasileiros, para ser mais específico) como Machado de Assis, Guimarães Rosa e Clarice Lispector são algumas poucas frases batidas. De Lispector, sobre o amor e os questionamentos existenciais. De Guimarães, algumas frases soltas das primeiras páginas do cultuado, e pouco lido, Grande Sertão: Veredas. "O senhor não duvide - tem gente, neste aborrecido mundo, que mata só para ver alguém fazer careta". De Machado, pobre Machado, que não se preocupou em reproduzir bordões, se fala pouco, muito pouco. Isso sem contar o citado, amado, mas pouco lido Caio Fernando Abreu. Pouco se lê, mas muito se diz que leu. E os autores estão exilados em fragmentos de suas obras. Essa é a contribuição dos leitores.

As relações entre os três elos são complexas. As editoras ditam o que se lê, independente da qualidade, os autores produzem, os leitores aceitam. Ou, por outra perspectiva: os leitores demandam leituras mais "mamão-com-açucar", as editoras procuram, e promovem, os autores que se propõem a fazê-lo. Essas vias são complementares, concomitantes, e todos os envolvidos têm papel ativo.

Alguns irão exclamar que aqui se fala da literatura "de massa". Um braço fraco da arte. O lado "pop". Não se enganam por completo. Porém, esse elo é o que, necessariamente, deveria ser o mais forte. A literatura "pop" é que deveria ser a mais "hardcore", os leitores de clássicos não precisam de mais; na leitura, os que precisam são os que se iniciam. "Nossos antepassados só depois de terem tido as ideias que os fizeram inteligentes é que começaram a ser suficientemente inteligentes para terem ideias", diz Maria da Paz para Tertuliano. E por que não tratar os clássicos como best-sellers? Aliás, por que não defender que os clássicos mesmos se tornem os best-sellers? Por que não iniciar um movimento nesse sentido? Por que não transformar os clássicos na "literatura de massa"? Será que o único impecilho é o comercial? Ou o benefício do interculor fala mais alto? O medo de que, com isso, o discurso daqueles que antecipam uma liberdade intelectual, aqueles que profetizam o ardor pelo saber, o discurso daqueles que dizem conhecer o "caminho das pedras" perca força?

A literatura está miserável em qualidade, mas rica em quantidade. A esperança existe, está em Jorge Mario Vargas Llosa, esteve até pouco tempo em José Saramago e Moacyr Scliar, está em Gabriel García Márquez. E em outros mais, claro. A questão agora é: quem guiará os insurretos? Bons nomes? Existem. No Brasil? Sim. Onde? Lá no fundo, onde o preto do lápis se funde ao branco do papel e o verde da cédula ainda não penetrou.

Nota do Editor
Lucas Peto mantém o blog lucaspeto.wordpress.com.

Lucas Carvalho Peto
Ribeirão Preto, 30/3/2011

 

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