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Sexta-feira, 25/3/2011
De como tipificar os sonhos
Ana Elisa Ribeiro

Eu tinha uns sonhos bem explícitos, conscientes e nítidos. Mas tinha também outros bem vagos, daqueles que mal se desenham, quase não se revelam. Só depois que se afasta a chance de eles virarem algo mais palpável é que eles se configuram, já de costas, dando tchauzinho, descendo a ladeira.

Uns sonhos devem ter vindo comigo desde o zigoto. Esta coisa de nome feio é o "resultado da reprodução sexuada", como diz aí a Wikipédia. Foi quando me conceberam e nem sabiam. Talvez eu nem fosse um sonho ainda. E lá, naquele encontro de "dois núcleos haploides" de células compatíveis, algum sonho já surgia. Sonho, por exemplo, de nascer. Não sei.

A consciência de que a gente sonha aparece relativamente cedo. Com 4 ou 5 anos já se relata aos pais o movimento intenso da madrugada. Heróis, maremotos ou beijos de mãe povoam a noite das crianças. Mas esse sonho não vale. Esse aí é aquele que o Freud descreveu. Aquele que deve ter lá suas razões, mas que acontece mesmo, digamos assim. Sonho noturno é sonho. É aquela movimentação que mostra que o cérebro não apaga. É aquele mosaico de cenas (às vezes improváveis) que a gente pode esquecer que viveu quando acorda. Às vezes dá para contar aos outros; às vezes, não.

O sonho do qual eu trato é outro. É aquele que se parece com um desejo no futuro. Uma espécie de assunto que pode nos pautar por diversos ciclos da vida. Aliás, às vezes os ciclos é que se pautam por eles. Sonho de crescer e se casar (com um príncipe, claro). Sonho de ter uma casa com varanda. Sonho de ter o carro do ano. Sonho de ser bombeiro, médico, delegado. Sonho de viajar o mundo inteiro, inclusive pelos países menos servidos de aviões. Sonho de morar na cidade maior ou na menor. Sonho de ser velho com calma. Sonho de estudar grego clássico. Esse sonho é aquele que se mistura com o futuro que a gente queria ter. Um sonho dentro do outro. Uma espécie de promessa ou de provável frustração. Um tipo de cordão que une dois pontos, não necessariamente duas retas (aliás, geralmente curvas e loops). Esse sonho é aquele que a gente desenha para a professora do ensino fundamental. O sonho de burguês que todo mundo tem, exceto quem acha que é o dono dos sonhos. E a gente sabe que vai galgando a vida até achar esses sonhos realizados, em algum lugar do sótão.

Tem sonho que a gente percebe que está se transformando em realidade. Assim ó: vou estudando, me formando, aprendendo, correndo atrás, cumpro os exames, me aprovo, passo uns apertos, mas, quando me assusto, estou dedicando meu diploma de dentista à minha mãe. Esse é desse tipo de sonho em forma de escalada. Tem gente que sonha desde cedo. Tem gente que mistura com um elemento meio genético. Tem gente que não percebe que não está sonhando o próprio sonho (e acorda tarde demais). Mas tem gente que descobre que não sonhou, mas acaba curtindo.

Já outro tipo de sonho é difícil de escalar. Não tem cursinho, não tem exame, não tem concorrência, não tem aula particular, preparório específico, intensivão, café com guaraná, livro para adotar, manual de instruções. A gente vai se movendo, achando que está na direção certa, mas sabe lá para que lado esse sonho vai. Ele parece que está na frente, mas não está. Parece uma sala de espelhos de um parque barato. É sonho imprevisível.

Desse tipo há muitos. Como saber? Vai-se sonhando até que ele um dia baixa, que nem um download. Ou a gente percebe que passou o tempo e ele não aconteceu. Tem desses sonhos que dependem de rituais para a gente perceber. E nem sempre a gente está disposto aos rituais. Tem sonho que é arisco.

Eu sonhei muitas coisas difíceis e muitas pautas para a minha vida. Além de sonhar, eu sempre esperei que as coisas fossem ficar boas, tranquilas, confortáveis. Nem sempre elas ficaram. Nem sempre elas se comoveram comigo.

Viver muito não é um dos meus sonhos. Eu me pareço mais com alguém sem paciência do que com uma velhinha que rega flores. Até meus cactos morreram, que dirá qualquer outra coisa menos forte. E nem sonhei com heranças, descendência ou casamentos pomposos. Mas eu sonhei com uma alegria mais ou menos constante, e ela não aconteceu. Sonhei com cuidados parecidos com os que eu tinha na casa da minha mãe, e não aconteceu. Sonhei com livros, muitos livros, e, aí sim, venho compondo meu mosaico de impertinências. Vou comprando estantes, dividindo as prateleiras e lendo o que eu puder.

Eu tinha o sonho de ter uma grande biblioteca, com escadas rolantes, mas com vista bonita, de onde se pudesse ver a cidade piscando à noite. Não deu. Minha pequena biblioteca é térrea e de dentro dela mal se vê o muro do vizinho. Os sonhos vão se reduzindo, até caberem nos moldes da mediocridade da gente.

Tem sonho que é que nem sorte: se você não pega na hora, nunca mais aparece. Alguém precisa ensinar a gente a enxergar esse tipo de sonho esvoaçante. Ninguém ensina. Ou a gente percebe ou a gente só avalia a posteriori. É, passou. Já era (minha frase mais frequente, embora não seja minha preferida).

E tem um elemento importante: pesadelo travestido de sonho, que engana bem, ilude, se camufla e parece que vai levar a família inteira para um céu azul. Mas não vai. É só uma convulsão de precipícios que vai rolar bem na sua frente. E é difícil sair deles. Rodamoinho de vento sujo. Uma espécie de falta de opção.

Sonhar é um desses momentos da inteligência que a gente precisa promover. E precisa aprender a capturar.

Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 25/3/2011

 

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