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Terça-feira, 31/5/2011
Discos eruditos fundamentais
Jardel Dias Cavalcanti

A minha relação com a música encontra paralelo teórico nas idéias dos estetas românticos, principalmente Nietzsche, Hegel e Schopenhauer. Antes de indicar aos leitores alguns discos que acho essenciais aos amantes da música, falarei um pouco sobre esta estética.

Nietzsche dizia que a vida sem a música só poderia ser um engano. E interrogava: "Existe vida após a música, mas nós a suportaremos?" Para ele, a verdadeira vida é a música, pois quando entramos em sintonia com ela pertencemos de fato ao Ser.

É a música que nos leva ao coração do mundo, segundo o filósofo, pois sua vivência é que produz o arrebatamento do estado dionisíaco que rompe os limites e fronteiras comuns da existência. E a intensidade da experiência pode por vezes ser tão intensa que tememos pelo nosso pobre eu, ameaçado de sucumbir ao canto das sereias, ao "orgasmo musical". Diante da música de Richard Wagner ele escreveu: "em relação a essa música cada fibra, cada nervo estremece, e há muito não tive um sentimento tão duradouro de alheamento".

Já Hegel dizia que "a música traduz sentimentos profundos e imprecisos, movimentos de alma por assim dizer imateriais a que não se pode atribuir conteúdo nem pensamento". Por isso, a música difere das formas de pensamento (filosofia, ciência e religião) pelo poder de dar às idéias elevadas uma representação sensível e de torná-las acessível através do som. Diz o filosofo que "a missão principal da música consiste em fazer ressoar o eu mais íntimo, a sua mais profunda subjetividade, a sua alma ideal... porque ela é sustentada apenas pela interioridade subjetiva e não existe se não por e para ela".

Além de gerar uma liberação da alma para regiões insuspeitadas, ela pode suavizar os mais cruéis e trágicos destinos, transformando a dor em prazer, nos fazendo atingir um alto grau de libertação. É por isso que a música é tão importante em nossa vida, intensificando sentimentos, gerando catarses, nos fazendo evadir dos estados mornos da realidade.

Há uma série de discos que me apaixonam e aos quais sempre ouço, mas o espaço aqui é pequeno para elencar todos. Indicarei alguns aos leitores do Digestivocultural, sofrendo pelos que deixarei de mencionar. Farei uma seleção apenas de discos de música erudita, abandonando os de jazz, rock e musica popular brasileira que aprecio também.

Começo indicando o CD "The three piano sonatas", do compositor francês Pierre Boulez, com as peças interpretadas pelo pianista Paavali Jumppanem, gravado pela Deutsche Grammophon. A obra expressa seu conteúdo poético e sensual através de uma rigorosa organização dos elementos sonoros (sua técnica ficou conhecida como serialismo). Segundo observação de Tiago Charters de Azevedo, "na última sonata, inspirada no livro-projeto de Mallarmé, Boulez evoca três imagens ou ideias que dirigem a obra: a ideia de obra aberta, que cabe ao executante resumir/acabar, a de work in progress e a de infinitude e permutatividade; a ideia de labirinto; e, por último, a ideia de um universo em expansão (as equações de Einstein em sua Teoria da Relatividade Geral ressoam nas simetrias que Boulez impôs à sua terceira sonata para piano e cuja ideia, a de um universo em expansão, tem nas equações do físico uma das soluções mais relevantes para a compreensão da evolução do universo)".

Outra indicação é "Piano Works" (4 vols), de Erik Satie, interpretadas pela pianista Klára Koermendi (Naxos Gravadora). Músicas inclassificáveis, que vão do deboche ao intimismo, com peças minimalistas (as vezes apenas seis notas), onde a repetição é por vezes solene e sem desenvolvimento, como um instante para sempre prolongado; outras vezes a repetição é mecânica e ainda dramática. Um nonsense que abusa de títulos absurdos, como "embrião ressecado", que se traduz em situações sonoras divertidas, tristes, vulgares, etc.

Compositor oficial da Rosa-Cruz, Satie produziu para a Ordem músicas irracionais, com acordes dissonantes. O tempo das peças varia entre 1 minuto e meio e 4 minutos. Mas vale registrar uma apresentação de John Cage, em 1963, de "Vexations" de Satie, pequena partitura que levaria dois minutos para ser executada, se não aparecesse a informação no alto da partitura: "tocar o tema 840 vezes". Andy Warhol assistiu a apresentação e se inspirou nela para seu vídeo de 8 horas no Empire State. Nesse disco de Satie eu tenho uma preferência particular pelas 4 "Ogives".

Indico duas obras de Arnold Schoenberg, que são "Noite Transfigurada" e "Pelleas e Melisandre", ambas com a Orquestra Filamônica de Berlin, sob a regência de Herbert Von Karajan (Deutsche Grammophon). Há ainda uma ótima edição da gravadora Naxos de "Pelleas und Melisande", com Robert Craft na regência. Schoenberg caracterizou sua música atonal como um gesto de resistência à cultura popular predominante, fazendo música dissonante, com linhas cromáticas que se emaranham contrapontísticamente, e como Wagner, não deixa os acordes se resolverem, criando sufocos, texturas diáfanas, gestos impetuosos. Mas vai além de Wagner, Debussy, Strauss e Malher, que apesar de suas dissonâncias e acordes incomuns, não quebraram de vez o pescoço da tonalidade, que é o que Schoenberg dizia ter feito.

De Gustave Malher é imprescindível ouvir "Das lied Von der Erde" (As canções da terra). Obra inspirada nos poemas chineses de Li Tai Po, expressa movimentos que vão das alegrias da juventude ao pessimismo diante da morte, sendo seu último movimento "Der Abschied" (O Adeus), depois de "Amor e morte" de "Tristão e Isolda", uma das músicas mais comoventes de que se tem notícia. A edição que eu indico é a da Orquestra Sinfônica de Ljubljana, com os solistas Zeger Vandrsteene (tenor) e Glenys Linos (mezzosoprano).

Do compositor americano John Cage, tenho apreço por "Music for prepared piano", dois volumes, da Naxos, interpretadas pelo pianista Boris Berman. Nas suas músicas ressoa uma busca espiritual pela forma concisa, derivadas da música de vanguarda européia (como não pensar em Satie e a Escola de Viena?) cruzada com interesses filosóficos pelo Zen Budismo, o I Ching e Induísmo. Vale ressaltar a composição "Music for Marcel Duchamp", que demarca também a área de interesse neodadaísta de Cage. Uma das características de sua música são os silêncios extensíssimos, com retornos sonoros de grande exatidão, inspirado no teatro Nô japonês. O Piano preparado consiste na introdução de vários acessórios dentro de um piano normal, que produz uma variada e renovada gama de sons.

A obra de Edgar Varèse, apresentada pela New York Philarmonic e Ensemble InterContemporain, sob regência de Pierre Boulez (Sony Classical) é imperdível. Pode-se ouvir "Ionisation", "Density 21.5", "Intégrales", dentre outras peças importantes do compositor. Rompendo com a estrutura melodia/harmonia/ritmo, princípio sob o qual se faz música até as vanguardas, Varèse cria a idéia de espaço a partir do ajuste entre tensão/ relaxamento, concentração/dissolução sem perder a idéia de mistério, liberdade e tensionamentos (que por vezes ressoa Stravinsky da "Sagração da Primavera").

De Richard Wagner não se pode deixar de ouvir "Tanhauser", mas sugiro a ópera "Tristão e Isolda", ao qual indico a gravação de 1952, regida pelo maestro Wilhelm Furtwägner, editada pela Folha de São Paulo e que tem sido vendida em bancas de jornais. Em "Tristão e Isolda", estamos na forma da ópera como o apaixonado está na forma do seu delírio amoroso. Os estados interiores variam irracionalmente e Wagner faz o mesmo com a música, quando então entramos no tempo do sonho ou do pesadelo, da embriaguês e do incomensurável, no reino do inapreensível. Wagner leva o espectador para o universo dos sobressaltos, gerando incertezas, e estados de alma que são verdadeiras suspensões inconclusas. Música sublime e de abismos profundos.

De Stravinsky é "A Sagração da Primavera" que destaco (sobre o qual já dediquei um texto aqui no digestivo). Obra polêmica no momento de sua primeira apresentação, que pareceu brutal aos educados ouvintes parisienses, talvez seja tão atual quanto qualquer obra contemporânea pela sua energia futurista, seus cortes bruscos, sua alternância de estados emocionais. Possuo várias gravações, mas sugiro três, uma pela Orquestra de Minnesota, sob regência de Stanislaw Skrowaczewski (Au Coeur Du Classique), outra sob regência de Pierre Boulez (da Sony) e, por último, pela Philarmonica Slavonica, regida por Hanspeter Gmür (Del Prado).

As sugestões acima apresentam os principais aspectos da música erudita moderna e oferecem momentos de grande prazer através de composições ousadas e instigantes. Boa audição!

Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 31/5/2011

 

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