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Quarta-feira, 15/6/2011
Anos 90, lado B
Noah Mera

Conheci este objeto, o disco, um ano antes da morte do formato. Ainda que se lancem discos até hoje isto é apenas o prolongamento artificial de uma indústria falecida em 1999.

A popularização do MP3 libertou a música do disco. Digitalizados, os arquivos entrariam em seleções cada vez mais variadas recombinados da maneira que o usuário bem entendesse e não mais ao gosto do artista ou da gravadora. Uma liberdade que só sonhávamos nos anos 80, ao gravar nossas coletâneas caseiras em fitas K7. Liberdade também ao comprar/baixar apenas as músicas que interessam, sem ser obrigado a comprar um conjunto fechado.

Na era do Twitter a música também deve ser fragmentada, qual o tempo (e paciência) que temos para digerir uma proposta de 40-50 minutos? Na era do imediatismo, queremos apenas o the best of.

Essa percepção, porém tardou muito a alcançar artistas e empresários e ainda não foi totalmente absorvida. É interessante acompanhar a evolução do projeto Teargarden by Kaleidyskope da banda Smashing Pumpkins que se trata justamente de eliminar o disco como processo de trabalho. A banda lança periodicamente músicas novas que ficam disponíveis para audição no site e são compiladas em luxuosas edições de colecionador de tempos em tempos. Oceania será a próxima leva, com músicas inspiradas no jogo de Tarô.

Sou uma criança dos anos 80 e meu encontro com o disco foi tardio. Não que não tenha tido contato com o objeto antes, Pink Floyd e The Beatles estavam bem ao alcance, cheguei até a comprar alguns vinis, mas nada que tivesse um impacto significativo. E eu sempre fui um curioso musical.

Os anos 90, minha adolescência, aquele período em que se costuma desenvolver a discofilia, foram de um marasmo e um incessante velar do eterno moribundo rock'n'roll que vinha perdendo espaço crescente para a música pop. Sem espaço e em profunda crise criativa, só restou ao rock a autodestruição. Daí a importância do Nirvana e Kurt Cobain, herói Campbelliano do culto à celebridade, 'antena da raça' que incorporou como ninguém o zeitgeist dos anos 90. Interessante de analisar, mas achava a musica de uma chatice abissal naquela época, preferia me ater ao nonsense e bom humor de Mutantes, Pato Fu (e aqui cabe um disco favorito na época: Gol de quem?) e Karnak.

Foi quando em 1998 me deparei com dois discos que marcariam a minha história como consumidor de música. Vasculhando a loja de CDs, uma busca de quem sabia mais do que não gostava, acabei me demorando em uma capa de CD que sempre evitava por ter uma cara New Age e reconheci uma banda da qual já havia lido muito (um ano antes do napster conhecíamos bandas lendo!), desanimado pedi para a balconista os Cds para ouvir... e me tornei de curioso a apaixonado por música. O disco era Mellon Collie and The Infinite Sadness do Smashing Pumpkins, a obra máxima da grandiloquente banda liderada por Billy Corgan. Se as influências eram o Hard Rock e o punk - as mesmas das bandas grunge que dominavam a cena musical (na esteira do Nirvana) e as letras tivessem da mesma angústia e niilismo juvenil, o acréscimo de influências do rock progressivo na mistura e a pretensão de um disco conceitual, uma obra de arte como um todo, eram todo o diferencial que eu precisava e procurava. O disco é diversificado e coeso, vai do folk Take me Down ao metal de Zero passando pela eletrônica 1979 e pela progressiva e orquestrada Tonight, tonight mesmo assim cada parte funciona dentro da estrutura do álbum. Não que seja novidade, mas nenhum disco conceitual tinha capturado minha atenção desta maneira antes.

O outro disco foi Ok Computer do Radiohead, um épico conceitual (de novo) de música eletrônica que descortinou algumas possibilidades sonoras que não entravam no meu cardápio habitual. A partir daí o som do Radiohead foi ficando cada vez mais hermético, de digestão cada vez mais difícil, mas um processo delicioso em entender a proposta, viajar nas texturas e rococós da banda.

Assim, ainda que eu entenda que discos não fazem sentido, tenho uma pequena discografia básica sentimental, formada por puro acidente.

Noah Mera
Curitiba, 15/6/2011

 

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