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Segunda-feira, 25/7/2011
Suspense, Crimes ... e Livros!
Ricardo de Mattos


Les Mystéres, de Isabelle Plante

"Minha avó sempre dizia que Deus fez as bibliotecas para que as pessoas não tivessem desculpas para serem tão estúpidas."
Joan Bauer

Gostaríamos de compartilhar duas descobertas recentes que ocuparam de maneira prazerosa nossas horas quase-vagas. Trata-se dos livros A menina que não sabia ler, de John Harding, e Libri di Luca, de Mikkel Birkegaard. São aparentados d'As memórias do livro, de Geraldine Brooks; d'A menina que roubava livros, de Markus Zusak; d'A elegância do ouriço, de Muriel Barbery; d'A sombra do vento, de Carlos Ruiz Zafón; d'O leitor, de Bernhard Schlink; do juvenil A biblioteca mágica de Bibbi Bokken, de Jostein Gaarder. Enfim, de obras que, de alguns anos para cá, quer adotem traje histórico, ou de mistério, ou de romance, revelam-se homenagens à narrativa, ao autor e ao leitor. Ilustram a força transformadora que um livro ― ou alguns ― pode ter na vida do leitor que se deixa envolver. Embora possa-se apontar variáveis da qualidade literária, apreciamos esta seleta academia em que Leitura e Escrita enaltecem-se mutuamente.

O inglês John Harding nasceu em 1951, no vilarejo de Fenland, localizado na ilha de Ely, Cambridgeshire. Trabalhou como repórter e editor durante um curto período de sua vida. É também autor de What we did on our Holiday, While the Sun shines e One big damn puzzler. O primeiro foi adaptado para a televisão. O segundo recebeu aclamações críticas. O terceiro levou o nome de Harding para o exterior. Ainda não foram traduzidos para o português e as poucas informações colhidas afirmam que há bastante diferença temática entre eles.

Florence and Giles é o título original de seu quarto livro. O título adotado no Brasil mui provavelmente visa atrelá-lo às bem-sucedidas vendas do livro de Zusak. Si o título original não despertar o interesse dos leitores que desconhecem o autor, o oportunismo mercantil também pode ser nefasto. O conteúdo merecia ser apresentado com maior cuidado. Como ficou, seria o mesmo que apresentar Os irmãos Karamazov como A grande família ou coisa que o valha. A despeito disto, temos aqui uma novela não apenas declaradamente inspirada no conto A volta do parafuso, de Henry James e nos contos de Allan Poe, mas que faz justiça à alegada inspiração. O que não significa superar o mestre, veja-se bem. O realismo da narrativa não impede a presença daqueles elementos que caracterizam a literatura gótica autêntica, que usa "o terror, o sobrenatural e o macabro como possíveis fontes de ficção". De fato, Radcliffe, Poe, e O monge, de Lewis, surgem como referências e mesmo pistas que acabarão por elucidar o inesperado desfecho.


John Harding

A órfã protagonista, Florence, reside com o meio-irmão Giles e três empregados num casarão decadente, Blithe House, em algum ponto da Nova Inglaterra. Seu tio afastou-se da casa motivado por mal-sucesso afetivo que teve por principal conseqüência a proibição de ensinar-se a menina a ler. Ela consegue violar a ordem tutorial, mas precisa manter seu aprendizado em segredo. O amor ao irmão e à leitura será defendido mesmo que de maneira desproporcional, como saberá quem ler a obra. Deveras, a personagem conferirá tratamento demasiado severo à pessoa que, em certa altura, mesmo valendo-se de ardis, nada mais buscará além de reparar ocorrências do passado.

Nova Inglaterra é o nome de parte da região nordeste dos Estados Unidos, onde localizam-se, entre outros, os Estados de Connecticut, Maine e New Hampshire. Também é distinto pólo cultural, onde nasceram ou moraram diversos escritores. Lá desenrola-se a trama no ano de 1891. Henry James é o homenageado principal, mas seu nome não aparece no texto, apesar de já ser, à época, escritor de nomeada. Harding consegue, com isso, pintar um ambiente que foi rico até certo período e depois estagnou. Notamos em Florence transtornos amadurecidos demais para sua idade ― doze anos. Não se fala ainda em histeria ou inconsciente, pois Sigmund Freud ainda começava seu trabalho. São detalhes que, quanto mais percebidos, mais falam acerca da mentalidade da época e mais conduzem o leitor para o cenário da história.

Mikkel Birkegaard (1968) reside em Copenhagen, capital da Dinamarca. É autor do thriller policial Libri di Luca, no qual trabalhou sete anos: dois escrevendo, dois reescrevendo e três buscando editor. Lançado em 2007, o livro foi extremamente bem sucedido, em dez dias figurando na lista dos mais vendidos e parece já estar a caminho de Hollywood. Traduzido em mais de vinte idiomas, em Portugal recebeu o título de A biblioteca das sombras. Pela boa acolhida que teve, parece confirmar o editor e escritor francês Jean Paulhan, quem afirmou que "o maior livro de um escritor é, em geral, o primeiro que tenha escrito". Seu segundo romance, Over mit lig (Sobre o meu cadáver) é de 2009.


Mikkel Birkegaard

"Libri di Luca" é o sebo mantido pelo pai do protagonista. Poucos têm sorte de encontrar um ambiente assim, onde o leitor é conhecido pelo nome, suas preferências literárias conhecidas do livreiro e as novidades discretamente reservadas. Reclamamos de barriga cheia, pois ainda podemos contar com o provinciano recurso da "caderneta" numa livraria local, mas certa nostalgia atinge-nos quando nos deparamos com descrições desta familiaridade nascida entre livros.

Luca é o dono, morto logo nos primeiros parágrafos, morte esta que caberá ao filho, o advogado Jon Campelli, deslindar. O sebo também serve de sede para a Sociedade dos Bibliófilos, e de palco para sessões de leitura, na qual harmonizam-se emissores e receptores. Evidente que o enredo dificultará a vida do leitor, mas uma chave encontra-se no hábito, pouco difundido no Brasil, do que podemos chamar "leituras públicas". Difere daqueles momentos em que um escritor é convidado a ler uma página ou duas de algum livro seu n'algum evento. Essas leituras partem de um livro e de um leitor treinado a ler o texto em voz alta, e somente com a voz, com a entonação treinada, dar vida aos personagens e tornar vívida a narrativa para os expectadores.

A história da leitura conta-nos que um livro ou panfleto poderia ter alcance não revelado pelo número da tiragem, por ser comum a leitura em voz alta em praças e parques, de forma que o analfabetismo não correspondesse, necessariamente, à falta de acesso à informação e à cultura. A prática chegou aos saraus e mesmo a teatros e clubes literários, onde Charles Dickens encontrou aplausos por mais este dote. Em Libri di Luca, enquanto o leitor acompanha os passos da investigação, a "mensagem subliminar" de Birkegaard refere-se ao poder da leitura, ao envolvimento e mútua influência estabelecidos entre quem divide impressões e gostos semelhantes sobre determinada obra...

Para ir além








Ricardo de Mattos
Taubaté, 25/7/2011

 

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