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Quarta-feira, 20/7/2011
O homem que enfrentou Ulisses
Luiz Rebinski Junior

Tão revolucionário para os críticos quanto "difícil" (quando não chato) para a maioria dos leitores, Ulisses, de James Joyce, terá mais uma chance de cativar os leitores brasileiros que ainda não foram seduzidos pelo que os críticos do começo do século XX chamaram de "um romance para acabar com todos os romances".

Depois de duas traduções para o português, vertidas pelo homem-dicionário Antonio Houaiss, nos anos 1960, e pela professora carioca Bernardina da Silveira Pinheiro, na metade dos anos 2000, a Penguin/Companhia das Letras publica uma nova versão do "romance-monumento" de Joyce em 2012, quando o livro comemora 90 anos.

O corajoso a se aventurar no emaranhado linguístico do irlandês se chama Caetano Waldrigues Galindo. Tradutor de autores como Ali Smith e Thomas Pynchon, outro ás da literatura experimental de língua inglesa, Galindo é professor do curso de Letras da Universidade Federal do Paraná.

Iniciada em 2002, a tradução de Galindo ficou "de molho" durante anos por conta da edição que a editora Objetiva colocou na praça em 2005. Mas há males que vem pra bem. Em 2012, ano de lançamento da nova tradução, Galindo terá "38 anos e alguns meses", a mesma idade de Leopold Bloom, o personagem central do épico de Joyce. Uma coincidência boba para qualquer um, menos para quem dedicou dez anos de sua vida ao senhor Joyce e suas invenções literárias.

1. Ulisses já tem duas traduções em português. A primeira de Antonio Houaiss e a segunda, considerada mais palatável, da professora Bernardina da Silveira. Por que uma nova tradução e em que o seu texto se distingue dos anteriores?

Eu estava trabalhando na minha tradução ao mesmo tempo em que a professora Bernardina. Com o lançamento da tradução dela, a minha ficou "de molho". Por que valia a pena fazer mais uma? Porque eu ainda acho que as existentes não deram conta de cobrir aspectos do romance que eu acho relevantes. A minha tradução pretende se distinguir precisamente por isso, por tentar responder mais "na mesma moeda" à variedade de estilos, à criatividade e ao tom geral do romance.

2. Uma das críticas à tradução de Houaiss, é que ela deixou o texto de Joyce muito sisudo, sem a oralidade do original. Como você resolveu esse problema?

Não sendo sisudo. Brincando mais com o texto. Divertindo-me mais.

3. Quando leu o livro a primeira vez e quantas vezes já o fez desde então? Quantos anos de trabalho essa tradução lhe tomou?

Comecei a ler o Ulisses em 1997. De lá pra cá devo ter lido, de capa a capa, umas sete ou oito vezes, e inúmeras leituras de trechos isolados e audições das gravações do livro. Essa tradução começou a ser feita em 2002. Quando for publicada, será um trabalho de 10 anos. (Nessa de datas e prazos, acho curioso que, no fim, a tradução vai sair quando eu tiver exatamente a mesma idade de Leopold Bloom durante a ação, 38 anos e alguns meses).

4. Quando sentiu que tinha condições de iniciar o trabalho? A ideia lhe surgiu a partir de seus estudos sobre tradução na Universidade, não?

Nunca senti que tinha condições. Duvido disso até hoje! Senti que tinha vontade. Mais do que isso, que tinha necessidade, pra poder entender de fato o livro (num sentido do verbo que é meio importante pra mim). E na verdade comecei a traduzir o Ulisses antes de me dedicar à prática e ao estudo da tradução. Posso dizer que foi com ele que comecei essas duas "carreiras". De lá pra cá, com o surgimento do bacharelado em estudos da tradução na UFPR - que é de 2001, mas com o qual eu só fui me envolver mais diretamente depois da minha defesa, em 2006 - e com a minha atividade mais frequente de tradutor - comecei a publicar traduções comerciais em 2003 -, eu virei alguém "da área" da tradução.

5. Ulisses é daqueles livros mais citados do que lidos. Quem deve se aventurar no livro? É uma obra para iniciados, como se apregoa? Que dica daria ao leitor?

Qualquer leitor versado em literatura séria deve tentar. Se o cara só leu romance pop, ele vai sofrer. Mas um leitor instrumentadinho, leitor de Machado, de Flaubert, tem tudo na mão. E não se trata de um livro para iniciados. Inclusive é um livro iniciante, porque, desde que você preste atenção, ele te ensina como deve lê-lo. Mas, não enganemos ninguém, é um livro difícil pacas. Dicas: Acima de tudo, preste atenção. Tudo tem uma razão. Pergunte sempre por quê. Por que ele disse isso nessa hora? Porque tal personagem pensou isso aqui? Dois: Considere comprar o Ulysses Annotated (Don Gifford), se você gosta de notas de rodapé, de saber as referências históricas, etc. Ou, no mínimo, comprar uma tradução com um aparato, como tem a da Bernardina e como a nossa vai ter. Notas, traduções de termos estrangeiros, etc... Mas lembre, vale toda e qualquer pena.

6. Entre a fidelidade e a invenção, sua tradução pende mais para qual? Que tipo de liberdade tomou no trabalho?

Não sei se dá pra ver a coisa assim. Especialmente no caso de Joyce, onde inventar é ser fiel. Tomei as liberdades com a língua portuguesa e com a tradição da literatura brasileira que Joyce tomou com a língua inglesa. Ou seja, não se trata de invencionismo, mas sim de levar os limites da língua e da tradição até onde eles possam ir. O texto do Ulisses, na verdade, é surpreendentemente "normal" se você pensar em termos guimarãesrosianos, por exemplo. De "neologismos". É no tecido geral da coisa que está a maior graça. Na sintaxe, por exemplo. E aí você precisa seguir o homem.

7. Você também é professor da Universidade Federal do Paraná. Como concilia o trabalho de professor com o de tradutor?

Não sei. O que eu sei é que tenho dado conta. Os meus "índices de produtividade" não deixam a desejar na Universidade. A minha única sorte é que eu sou rápido. Traduzo rápido. Preparo aula rápido. Aí o tempo rende um pouco mais, acho.

8. Você ainda é bastante jovem, tem menos de quarenta anos, terá muitas traduções ainda. Mas, na literatura de língua inglesa, há desafio maior e mais complexo para um tradutor do que Ulisses?

Jovem! Legal... Bem, tem o Finnegans Wake, sempre. O maior de todos os desafios, se você quiser. Mas, dentre os romances "normais", provavelmente não.

9. O que achou de Bloom, a versão cinematográfica de Ulisses, filmada pelo cineasta Sean Walsh?

Bacaninha. Mas ainda falta o filme do Ulisses. Quem sabe agora com os direitos liberados alguém de mais peso se anima.

10. O sobrinho-neto de Joyce, que controla os direitos autorais do autor, é conhecido por embargar projetos relacionados à obra do avô. Houve algum empecilho desse tipo na sua tradução?

Pé de pato, mangalô três vez! Até agora nada. E, afinal, com o domínio público em 2012 e o fato de que nós estamos usando apenas o texto Penguin, de comum acordo com a Penguin, tudo está à prova de Stephen James Joyce.

11. Você também já traduziu Thomas Pynchon e é um estudioso da obra de Beckett. A linguagem experimental está no centro de seu trabalho?

Só escrevi duas ou três coisinhas sobre Beckett. Gosto sim, dos autores mais inventivos. Como gosto pessoal. E acaba que agora, na Companhia das Letras, as traduções que me oferecem tendem mais pra esse lado.

12. Aliás, sobre Pynchon, qual é, em sua opinião, a chave para entender e gostar do texto polifônico do autor?

É parecido com Joyce. Nisso das "chaves". Paciência, interesse pelo "puzzle", senso de humor -sempre tem que dizer isso. Os dois têm e precisam de um leitor com muito humor. E algo tendente ao "bizarro" às vezes. E, acima de tudo, o de sempre da grande literatura: Interesse por conhecer melhor o ser humano.

Luiz Rebinski Junior
Curitiba, 20/7/2011

 

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