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Segunda-feira, 26/9/2011
Dois Escritores Húngaros
Ricardo de Mattos


Istvan Sandorfi: O Silêncio de Adèle

"O instante de clareza é aquele em que compreendemos a vida inteira" (Antal Szerb).

Gostaríamos de dedicar esta coluna a dois escritores húngaros: Gyula Krúdy e Antal Szerb. Seus livros vieram para nossa coleção segundo os meios de hábito: reserva e risco. Ou seja, o livro de Krúdy, O companheiro de viagem, adquirimo-lo para leitura posterior, não nos sendo claro agora o motivo exato da reserva. Talvez a intenção de adquirir a totalidade da coleção na qual se encaixa. Já com o de Szerb, O viajante e o mundo da lua, deparamo-nos na estante de um supermercado, em meio à praga de livros sobre emos vampiros. Eis uma nova aplicação para a expressão "lírio crescido em meio ao lodo". Corremos o risco de adquiri-lo e lamentamos que tão boa obra seja lançada no mercado sem maiores cuidados.

As notícias sobre Gyula Krúdy (1878-1933) são contraditórias. Paulo Rónai apresenta-o como autor de livros estranhos, escritos para poucas pessoas. O tradutor Paulo Schiller, como escritor disputado por editores - ainda que esquecido ao final de sua jornada. Ambos convergem a respeito da importância de sua obra na restauração pós-guerra da identidade húngara. Começou a escrever para jornais aos treze anos, o que explica o fato de sua produção registrada ultrapassar várias vezes a casa do milhar. Há entre nós uma expressão que indica dificuldade financeira: vender o almoço para comprar a janta. Krúdy escrevia de dia para pagar o jantar - ou o jogo - da noite. E com isso deu ao público crônicas, ensaios históricos, contos, romances, críticas, biografias e peças teatrais. Schiller refere-se a ele como "poeta que contava sonhos em prosa". Realmente, impressionou-nos sua capacidade de fazer o leitor visualizar "a cabeça vermelha dos galos, o rosado das carnes (que) balançam nas cestas de vime, a torre da cidade (que) parece ter sido lavada com esponja durante a madrugada".

Antal Szerb teve vida curta e obra longa. Rónai - que dividiu com ele uma mesa durante estudos realizados na Biblioteca Nacional de Paris - informa-nos acerca da constante surpresa com "os frutos de uma erudição já então incrivelmente extensa". Szerb legou traduções, contos, ensaios de literatura comparada, três romances e duas obras monumentais com destinação acadêmica: História da literatura húngara e História da literatura universal. Sua raiz cristã e católica não impediu que leis raciais considerassem-no judeu e enviassem-no para o campo de trabalhos forçados de Sopron, na Hungria. Lá, extenuado por atividade inútil e que excedia suas forças, foi abatido a coronhadas.


Gyula Krúdy

Extraímos estas informações biográficas das próprias obras lidas - orelhas, prefácios - mas também de da apresentação que Paulo Rónai fez de cada autor constante de sua Antologia do Conto Húngaro. Esta obra, por si, já merece atenção específica. A seleção e a tradução dos contos são de Paulo Rónai (1907-1992), a quem muito é devido não só pelo que nos trouxe da literatura estrangeira - a obra completa da Balzac, por exemplo - como pelo que mostrou de nossa literatura no exterior - as Memórias de um sargento de milícias. O volume de contos é caprichado: revisão de Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira e prefácio de Guimarães Rosa.

O livro de Krúdy é pequeno. Em 127 páginas de texto, encaixam-se o prefácio de Paulo Schiller, a novela e algumas páginas ficcionais de outro escritor húngaro Sándor Márai, a respeito de Krúdy. Márai fez uma inusitada ligação entre a Hungria e o sertão nordestino brasileiro, ao escrever Veredito em Canudos. Trata-se de romance escrito com base n'Os sertões, de Euclides da Cunha, traduzido entre nós há menos de dez anos. Krúdy assinava suas crônicas na imprensa como "Szindbád", e o texto de Márai, que descreve os últimos dias do colega, intitula-se justamente Szindbád volta para casa.

Escrito no verão de 1918, O companheiro de viagem registra o monólogo pelo qual um velho conquistador narra algumas de suas conquistas num vilarejo do interior húngaro. Seu rol inclui uma dona de casa que cede ao seu primeiro avanço, arrepende-se depois e resiste a qualquer outra investida. Visando resguarda-se, apresenta ao personagem outras mulheres que o mantenham afastado. Contudo, não esconde seu ciúmes quando ele aceita as regras e segue com o jogo. O Don Juan de Krúdy ainda dedica-se a uma jovem vulgar e a uma terceira moça, filha de uma fanática que pretende também fanatizá-la. Quanto à terceira conquista, podemos obter um ponto no tempo e no espaço que, si compararmos com o tempo presente, revela o quanto mudam as mentalidades e os costumes. Fosse hoje publicada uma narrativa na qual um senhor de seus cinqüenta anos descrevesse os passos dados para envolver uma garota de quinze anos, seu autor teria sérios problemas.


Antal Szerb

O livro de Szerb é mais extenso e seu personagem, Mihály, muito mais comportado. Comportou-se demais a vida inteira, aceitou regras demais... Quando em viagem de lua-de-mel pelo interior da Itália, foi soterrado por lembranças do passado liberadas no encontro com um amigo. Quando pensou a respeito do que foi sua vida, ainda que num curto período durante a adolescência, no que foi sua vida adulta até a peregrinação nupcial, e ao cogitar sobre o que poderia ter ocorrido fosse outra a rota seguida, Mihály desbaratina entre cidades seculares, arte e comida. Não se trata, contudo, de um Comer Rezar Amar húngaro da primeira metade do século XX, mesmo porque a melancolia centro-européia parece imprópria para a mensagem otimista do filme.

O primeiro casamento de Mihály é o segundo de sua esposa. Nos primeiros dias do convívio, ele é encontrado por um amigo e, logo depois, recebe uma carta do primeiro marido. Neste ponto do romance o personagem é colocado em cheque pelas lembranças do passado e pelo prognóstico do futuro. O encontro com o amigo faz com que ele relembre fatos de sua juventude com a clareza própria da nostalgia. A carta, por sua vez, escrita com raro cinismo, desnudou-o perante si mesmo. Forçou-o encarar características suas até então despercebidas, negligenciadas, ou mesmo, negadas. Saindo da habitual introspecção, foi com desconforto que se descobriu previsível e, portanto, manipulável.

Zoltán, o primeiro marido, transmite a Mihály verdadeira "bula" sobre a mulher, atingindo detalhes íntimos. Até oferece dinheiro. Faz com que ele perceba que a viagem pela Itália nada mais é, para ela, do que repetição do que fez no casamento anterior. Daí a falta de entusiasmo na exploração de lugares e coisas que permitam ao novo casal estabelecer o próprio núcleo de lembranças. Os parágrafos da carta são numerados como correspondência comercial ou documento forense. Dada a formação religiosa de Szerb, podemos arriscar a dizer que, com esta carta, Mihály passou da condição de marido para a de cúmplice de adultério consentido. Por trás dos votos de felicidade, as entrelinhas avisam: si você acha que não tem competência, devolva.


Paulo Rónai

Dentre as respostas possíveis, Mihály opta pela fuga. Troca providencialmente de ter e erra por cidades carregadas de arte, história e personagens como o médico temeroso do inferno e Millicent, jovem norte-americana. O pequeno affaire vivido com ela não passa de contraponto ao fastio cultural da primeira esposa. "Mihály ganhou a inteira confiança de Millicent. Ao anoitecer, sabia tudo sobre ela; porém não havia nada que valesse a pena saber".

Não chega a ser um romance de formação, tal como os legados por Goethe, Chateaubriant, Sabino e Rolland e que retratam trajetórias. Mihály precisa tornar ao passado e encontrar o ponto de reajuste que lhe permita viver o futuro. Foi necessário rever seus amigos - até que ponto os encontros são reais é algo que o leitor poderá observar - para convencer-se de que eles amadureceram e são outros, embora atendam pelos mesmos nomes. Ou nem isso, no caso de Ervin. O que Mihály não quer, ele sabe. Tanto ele quanto o personagem de Krúdy encontram-se no momento em que a alma realiza certo movimento centrífugo, movimento de quem quer fugir do núcleo e espalhar-se pelo mundo visando dissolver-se. Contudo, o movimento é frustrante, pois si parte do centro, por maior que seja o esforço de afastamento, é impossível abandoná-lo. Assim, os personagens de Szerb e Krúdy procuram no mundo as respostas que não encontram em si; circulam por diversos lugares em busca do "lugar inicial"; procuram em todas as mulheres a primeira mulher.

Ricardo de Mattos
Taubaté, 26/9/2011

 

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