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Quinta-feira, 22/9/2011
Desabafo de uma quase ex-professora
Loriza Kettle

Confesso que nunca tinha pensado antes discutir este assunto, mesmo sabendo desde sempre da realidade que vivemos na Educação do Brasil. Mas o depoimento de uma professora numa audiência pública em Natal/RN me inspirou a falar sobre o assunto.

Na verdade desde que o respectivo vídeo foi veiculado fiquei pensando se deveria mesmo falar sobre isso. Afinal, ele teve uma repercussão muito grande na mídia e tornou-se o principal assunto nas salas dos professores.

Mas, justamente por sempre trabalhar com Educação e saber, como ninguém, da situação que temos, é que tenho o direito de expor minha tristeza e decepção com o tratamento que os professores têm por parte de todos. Um tratamento que se resume em três palavras: falta de respeito. Falta de respeito do poder público, da sociedade, dos pais, dos alunos e até da direção da escola.

Quem está lendo este texto deve estar pensando "mas por que uma jornalista está falando em Educação?". Primeiramente porque sou uma cidadã e só isso me dá o direito de falar. Além disso, como todo bom jornalista, tenho o senso crítico, não sou cega e nem hipócrita para negar o que está diante dos meus olhos. Mas acima de tudo porque tenho conhecimento de causa, sei muito bem o que é uma sala de aula desde muito tempo. Me formei no Magistério (nível médio), dei e dou aulas aulas para todos os níveis da Educação Básica, do Ensino Infantil ao Ensino Médio.

Por isso posso falar como ninguém como estão as salas de aula hoje em dia. A situação é crítica, e falando francamente (não pretendo fazer de outra forma), em quase todos os níveis do ensino. Não posso generalizar, tenho que ser justa. Pelo menos até a 3ª série do Ensino Fundamental (hoje 4 ano) o professor consegue resultados satisfatórios. Mas da 4ª série em diante, como diz um colega jornalista, "o bicho pega".

É verdade que a Educação no Brasil sempre foi difícil. Eu costumo dizer que antigamente o professor só ganhava mal, mas pelo menos era respeitado pelos alunos. Hoje em dia nem isso. Falando assim pode parecer que faz muito tempo que os mestres tinham algum respeito, mas, não. Há apenas 10 anos eu entrava numa turma do Ensino Médio e conseguia a atenção dos alunos só ficando na frente da sala, sem falar nada. Há apenas 10 anos eu conseguia dar uma aula explicativa ou corrigir os exercícios na lousa. Hoje a realidade é bem outra.

Você pode pensar que o problema é comigo, que perdi o controle dos alunos, que não tenho mais domínio de sala. Durante algum tempo eu também pensei a mesma coisa. Eu convido você a visitar a sala dos professores de qualquer escola da sua cidade. Converse com os professores, preste atenção nos comentários. Não vai demorar muito tempo para perceber que a conclusão é unânime.

Mas, se a Educação no Brasil sempre foi difícil, tem uma coisa que entornou o caldo de vez, a progressão continuada. Sinceramente, eu não sei quem foi o "gênio" que inventou isso, mas com certeza não foi um professor. De acordo a progressão, o aluno não pode repetir de ano, ou seja: a escola é obrigada a promovê-lo, mesmo que ele tenha "vagabundeado" o ano inteiro, não tenha feito nenhuma atividade e não tenha conseguido nota suficiente em nenhuma avaliação. Agora, eu pergunto: pra que professor se o aluno sabe que vai passar de ano mesmo que ele não faça nada nas aulas? Pra que prestar atenção nas aulas? Pra que fazer as atividades? Pra que respeitar o professor? O professor perdeu completamente sua função: ensinar.

É por isso que as turmas estão cada vez mais indisciplinadas. O aluno de hoje não quer saber de estudar. O que interessa é passar de ano, mesmo que não aprenda nada. E se ele já sabe que vai passar de ano, perde totalmente o interesse pelas aulas. Aí conversa o tempo todo, briga com o colega, sai várias vezes da sala. E não adianta o professor pedir atenção, ninguém ouve. Pra quê?

E ainda tem aluno que acha que o professor tem obrigação de dar nota pra ele. Ele não faz nada o ano inteiro e ainda pensa que tem direito a nota. Quando o professor pede um trabalho e recebe um lixo, o aluno acha ruim se não tem nota no trabalho. Quando ele simplesmente copia o trabalho do colega, ou do livro, é a mesma coisa. E o que acontece? Muitas vezes o professor é agredido em sala de aula, espancado e até morto.

Olha essa situação. Eu estava numa turma do 1 ano, passando pelas carteiras, conferindo os trabalhos. Percebi que tinha um aluno que não estava fazendo nada e fui até lá conversar com ele. Perguntei se ele não ia mesmo fazer o trabalho e ele disse que não. Eu argumentei que aquele trabalho valia nota e, se ele não fizesse, ia ficar com nota vermelha. Sabe o que ele me disse? "Não tem problema, professora, no final eu vou passar de ano mesmo." Depois dessa eu me calei e não falei mais nada porque, como dizem: contra fatos, não há argumentos.

O pior de tudo é, às vezes, perceber que a própria direção da escola colabora para esse estado de coisas. Eu dava aula numa 4ª série e tinha um aluno com 13 anos e que, pasmem, não sabia ler nem escrever. Lembro muito bem que cheguei a marcar algumas aulas de reforço, mas ele não aparecia. Além de tudo, faltava demais as aulas. Agora me diz: como esse aluno conseguiu chegar na 4ª série sem saber ler nem escrever? A tal da "progressão continuada", claro.

No final do ano é óbvio que ele não conseguiu passar, só nota vermelha. A diretora me chamou na sala e, acredite, me falou que eu teria que dar nota para promover o aluno para a 5ª série. Eu disse que não ia fazer isso porque ele não tinha como acompanhar nem a 4ª série quanto mais uma 5ª série. A diretora falou que a escola não podia segurar o aluno porque, por lei ele, teria que ser promovido. Fiquei revoltada, mas fui obrigada a "inventar" nota para o aluno.

O que esse aluno ia fazer numa 5ª série? Sinceramente, promover esse aluno foi uma maldade. Pra que fazer isso se ele não ia produzir nada? Eu entendo porque ele faltava tanto: além de estar fora da faixa etária dos colegas, não conseguia acompanhar as aulas. Ele não entendia nada do que era explicado e não era capaz de fazer nenhum exercício proposto. Então, o que ia fazer lá? Não tinha motivação nenhuma para estar em sala. Também concordo que era muito melhor ficar em casa. Eu faria a mesma coisa.

Se o objetivo da Educação é ensinar, transmitir conhecimento, a progressão continuada fere esse princípio. Porque se o aluno não presta atenção nas aulas, não faz os exercícios, logo ele não aprende. Contudo, passa de ano. No ano seguinte, é a mesma coisa, ele continua não prestando atenção nas aulas, não aprendendo... e passando de ano! E o ciclo se repete indefinidamente.

Agora, eu pergunto: onde está a Educação? Cadê a Educação que eu não vejo? Onde está o princípio da Educação? Eu respondo: não existe!

O que eu vejo é alunos cada vez mais mal educados, cada vez mais desinteressados, cada vez mais burros. Aliás, tudo isso não é à toa, tem um motivo. É claro: pra que transmitir conhecimento se é muito mais fácil manipular uma população ignorante? É isso que o governo quer, um povo burro para manipular, para fazer tudo o que ele quiser. E como conseguir isso? Fazendo da Educação um fiasco.

A Educação está um caos. E é bom esclarecer aqui, a palavra certa não é "educação" e sim, "deseducação". Cada dia que passa me decepciono mais, principalmente vendo como o poder público trata os professores, com total falta de consideração e respeito.

É por isso que está cada vez mais difícil encontrar professores nas salas de aula. Claro, com a situação nas escolas e salas de aula, somando com o descaso por parte do governo, o professor não quer mais passar por essa humilhação. Muitos estão mudando de ramo.

O professor é o profissional que tinha que ser mais respeitado, afinal, todos os outros profissionais passam por ele. Mas a situação é justamente o contrário. A desvalorização desse profissional cresce a cada dia e tendência é piorar ainda mais.

Vai chegar o dia em que não vamos mais encontrar professores e as aulas vão ser ou por correspondência ou internet. Será que desse jeito o aluno se anima estudar?

Nota do Editor
Este texto foi originalmente publicado no blog O assunto em questão, de Loriza Kettle. (Leia também "Desabafo de uma professora".)

Loriza Kettle
Campinas, 22/9/2011

 

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