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Quinta-feira, 29/9/2011
Um lugar para o tempo
Elisa Andrade Buzzo


Ilustra: Tartaruga Feliz

Não houve tempo para me despedir de Preta. Estive trabalhando e não pude viajar para vê-la. É preciso dizer que bateu uma indefinição, um sentimento estranho e triste, pois perdi a chance de algo que afinal seria a última vez. Poderia muito bem ter passado a noite em claro, inventado qualquer estratégia, pois somos treinados para dançar conforme a música, mas pular alguma faixa se necessário. Foi quando ela mais precisava que eu pegasse na sua mão, no seu rosto alongado e gentil, ela que estava sempre pronta a receber, carinho era a sua moeda de troca - o que todos desejam, ainda que muitas vezes com um egoísmo desmedido.

O tempo de Preta acabou. Tanto faz que se passem um, dois minutos, uma hora, dias, anos, séculos - a partir do momento em que o término foi selado o tempo deixa de ser matéria, o corpo abandona a relevância. A natureza transitória do instante passa, mais do que nunca, a ser compreendida e a ser o alvo de nossa insatisfação por nos deixar... sem tempo. É difícil conceber que isso iria acontecer, sem piedade o corte ainda havia de ser profundo, e de vez o retorno seria impossível. Deve ser como uma estrada, em que o auto estaca e o asfalto de chofre acaba. Qualquer que seja seu estado, a concretude do corpo físico e os laços emocionais são tão presentes, que a ideia do desaparecimento, da falta repentina, é difícil de ser concebida.

Frente ao meu mísero tempo me vem a questão: por que insistimos e nos vangloriamos de não ter tempo para nada, de ter uma jornada maluca, apertada, como se isso fosse um símbolo de status social? Muito dinheiro entrando, muito reconhecimento, muitos amigos e convites, pouco dinheiro entrando, mas muito qualquer coisa que compense uma falta. É um privilégio não ter tempo para algumas essencialidades? Quem tem muito tempo está, inversamente, perdendo tempo?

Se os motivos e as resoluções são cobrados indistintamente, se o tempo do repouso, da reflexão não é incentivado, tendo até mesmo ares de proibição, se não há espaços adequados na cidade para curti-los em paz, em que momento estaremos consigo próprios, depois, com os outros? Esses fragmentos de tempos, duramente adquiridos, estamos direcionando-os para um falar que nada diz, a frenética procura da tela do celular, a insistência em apertar botões que também demandam seu tempo para funcionar, a resposta instantânea e a falta de voz e mão? Creio na pertinência do momento de rever os acontecimentos, seu impacto, a projeção futura, depois, como disse Drummond, esquecer para lembrar.

O editor de livros, por exemplo, não tem tempo para ler em profundidade, nem para ir nas livrarias, muito menos bibliotecas. O médico não tem tempo de conversar com os pacientes. Às duras penas, alguns tentam não cair no espírito de rotatividade que nos ronda. Não temos tempo de ir ao teatro, visitar esquifes, o patrimônio histórico e cultural nas nossas imediações, no entanto, partimos para a Europa com sede de ver velharias. E, caso fôssemos dar o devido tempo às coisas, não haveria maneira de organizar o dia. Assim, passamos ao largo da existência num equílibrio delicado, nos desvencilhando das amarras de post-its e check-lists.

Por que cada vez mais parece que se tem menos tempo exatamente para as pessoas que mais amamos? Mesmo para o contato humano, direto, íntimo e caloroso? E mais, às vezes trata-se com disfarçado menosprezo aquilo de que já temos a segurança da posse, enquanto o que ainda é desafio, desejo de conquista e nos dirije certa indiferença vai render esforços desmedidos. Temos o ímpeto meio que incorrigível de correr atrás do que brilha e se mexe com uma suposta maior vitalidade. Eu não tive tempo para o essencial, o serenar de olhos abertos, para a despedida definitiva de alguém; eu o gastei com amenidades, deveres insensíveis.

Parecia que Preta e eu tínhamos todo o tempo do mundo para conversar, envelhecer, comungar com o mundo, cada instante mais um instante, existir, cada dia mais um dia e desse amontoado impreciso tirar o nome "vida". De repente o tempo esgotou-se, o último grão de areia pousou no gomo de baixo da ampulheta, meio que sem aviso, nem um a mais, nem um a menos, apenas a medida rigorosa. Foi-se e agora cá estou eu com meus tempos de marcar consultas, treinar, entregar trabalhos, ir a lançamentos, e quando eu finalmente chegar, vou levar comigo um momento retardatário (o mesmo que nada?). A conta é exata e a vida é desprotegida demais para andarmos num meio tempo.

Elisa Andrade Buzzo
São Paulo, 29/9/2011

 

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