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Quinta-feira, 3/11/2011
História de um papagaio de papel
Elisa Andrade Buzzo


foto: Sissy Eiko

O pai apareceu com uma novidade velha: tinha ressuscitado o papagaio e naquele tarde ele iria levá-lo para voar num concurso de pipas. A filha lembrou de um tempo remoto em que a extensão da rua era a pista de decolagem. De um lado o pai segurava a carretilha, e na outra ponta intermeada pela linha ela esticava o papagaio com as asas bem abertas, como um Cristo, o mais alto possível que conseguisse. Quando o pai gritava impaciente "solta", de uma lufada o corpo do papagaio como que tomava vida e, inflado, subia até quase se perder de vista na imensidão do azul.

O que se lembrava destas tardes quentes e secas não era bem a estrutura esvoaçante do papagaio a dançar, antes a atmosfera de um mundo que sabia de seu término. Daí a ausência de cores fortes e a presença de tons aquarelados, próprios da sensação de desvanescência do passar do tempo. Como se o dia fosse um eterno passar, sujeito à transitoriedade imanente aos objetos. Aquele era o mundo infantil da paisagem a se completar, embora questionasse e estivesse cansada da mania dos adultos tentarem ocupar as crianças dando-lhes desenhos para colorir.

O concurso de pipas reacendeu a vontade no pai, que trouxe o papagaio todo empoeirado e amassado. Então era verdade, ele ainda existia? Colocaram o papagaio no porta-malas e foram para o lago. De modo que, quantos estavam chegando, o pai contou que havia alguns remendos no fio enrolado no carretel, por isso era necessário cautela, pois, no momento que em o papagaio estivesse bem alto, ele poderia se perder.

Então o pai permaneceu na borda do lago sob o sol do inverno, enquanto a filha correu pela grama até o outro lado, bem longe no dia seco. Era uma linha que unia o bicho ao céu e à terra. Assim, ele apenas tomava vida no momento em que abandonasse a superfície. Apesar da distância ouvia-se no silêncio o rumor das asas batendo ao sabor do vento. E o papagaio era então arco, cor, arco-íris, união de coisa antiga. Havia um momento de tensão, entre a repulsão e a entrega, que se telegrafava nos extremos seu e da mão do pai; e assim o papagaio, oscilando entre o deixar-se voar e o dominar, se mantinha rígido e flutuante, como se a gravidade fosse um desafio.

E, em outras alturas, apareceu um menino pescando sua pipa frágil para cima, enquanto ela sentia a "força do bicho" não se deixando morrer através da linha, um algo a domar do alto a partir do reles chão. "É como pescar um peixe", dizia o pai. E por aqueles instantes a aridez do mundo ganhava consistência nas cores fortes do papagaio, ponto radioso de tentáculos esvoando. A filha segurava e soltava a linha entre os dedos finos com medo do corte aparecer. E assim o papagaio ia subindo, cada vez mais, as mãos fazendo as vezes de carretilha. Então ele começou a perder altura, a rebolar longamente, até cair dentro do lago. Talvez nesta dança pedisse socorro, ou abrisse uma larga risada (gostava ou não desse périplo?).

A filha decidiu voltar para casa ao perceber que, para o pai, de alguma forma ela não servia mais, ou antes nunca tivesse servido aos desígnios de ser menino. Além de que já não havia mais papagaio, este já se afundara, seria peixe no lago, tecido morto a meter-se entre lodo, pato e ralo. O dia rebrilhava invertido tal qual o papagaio, que de voador se tornou nadador. A filha pensava, não teria sido melhor ele nunca ter antes saído de seu sono do que tê-lo feito, e agora para sempre perder a chance de acordar? Ou então de mais valia teria sido este último voo, um espichar de asas vigoroso, ainda que momentâneo?

Pois quando o dia acabava o pai voltou. Disse que tinha recuperado o trem pelas bordas e que agora ele estava a secar lá embaixo na casa. A filha não quis vê-lo assim, tal qual o imaginava, molhado e desgastado, queria ficar agora com ele na memória sacolejante em suas penas multicores, impávido.

Elisa Andrade Buzzo
São Paulo, 3/11/2011

 

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