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Sexta-feira, 16/12/2011
O que em mim sente está lembrando
Ana Elisa Ribeiro

Fernando Pessoa, aquele poeta português que era muitos, anda me soprando umas ideias. Não sei se o que em mim pensa agora está sentindo. Ou se o que em mim sente não consegue pensar. Ou se o que em mim lembra atravanca meu pensamento. Se minha correção é resultado de meus sentimentos ou de meus pensamentos. Se o que me parece lembrança é, na verdade, sonho. Se o que me parece memória é, de fato, invenção. Estou sem saber se posso pensar direito com estas lembranças.

Em um mês uma vida inteira se passou. Em cinco dias ou pouco mais o trecho inédito de uma história passou ininterrupto, mas aguardando a cena final. Ninguém sabia como ela seria, à maneira dos últimos capítulos de novela. Não havia um mistério a desvendar ou um assassino a revelar. A qualquer momento, qualquer um de nós dois poderia habitar o cadafalso. Uns dias, uns meses, uns anos. Impossível saber o calendário dessa história, assim como de qualquer outra. No entanto, esta parecia ainda mais provisória. Daí um conflito doloroso entre deixar-se levar (e viver, como ensinam alguns, ou curtir, como ensinam outros) e o cortar o mal pela raiz (como alegam os mais prudentes e os medrosos).

Acertando contas com o passado, uma experiência dessas bem inteiras, que vêm com respiração própria e trilha sonora envolvente, aconteceu nos espaços que eu habito. De repente, todos os cantos da casa, do terreiro e da minha vida foram tomados por uma presença comedida. Não era um assalto, desses que provocam sustos. Era um alagamento. O espaço era tomado por algo líquido, que se apropriava de cada fresta, canto, aresta e se impregnava no ar. E música complica tudo.

Qual experiência com música pode ser facilmente apagada? Daqui a cinquenta anos, quando eu ouvir isto ou aquilo, seja lá em que dispostivo for, testarei de novo aqueles dias de vida e de respiração compartilhada. Dezenas de anos à frente e estas memórias ainda estarão vivas. Memória vive de diversos acionamentos. A música é, certamente, um deles.

Em alguns dias, começo, meio e fim. Não nesta ordem e nem com esta simpatia. Tudo o mais parava lá fora. Dentro do carro só havia duas pessoas no mundo. E que me perdoem as demais pessoas importantes deste planeta breve em que eu circulo.

E era no abraço ou no beijo que eu mais experimentava a sensação de desapego que existe. Ou a sensação de arrebatamento. E não era um vento forte que soprava minha saia. Não era um ataque com torque. Era uma sensação flutuante. Um voo de planador. Sem motor, sem explosão, sem tranco. Era no abraço ou no beijo que as coisas se entorpeciam todas. O som da cidade e mesmo a música iam sumindo, sumindo, se apagando até sobrar só coração e respiração. Não sei de quem. Dentro da boca só há troca.

Em cinco ou seis dias todo o repertório standard do jazz voltou à minha sala. Todas as vontades de ser o que eu não fui vieram dançar para mim. Todos os projetos de futuro se alinharam à minha frente. Todos os sonhos se misturaram com as horas acordada. Todas as promessas pareciam confiáveis. Todos os cheiros tinham a mesma fonte. Todos os arrependimentos fizeram fila. Não havia cobertas e nem janelas fechadas porque nós produzíamos nosso calor.

Disposta a aceitar, a confiar e a mover mundos & fundos, descobri, fartamente, que eu ainda podia sentir coisas que eu pensava mortas. E talvez tenha sido essa descoberta o elemento disparador do final da história. Agora que você já sabe, podemos voltar à programação normal. Com um problema: a música.

A música me fará lembrar, sempre, mas não fará reviver. Experimentar para não conseguir mais a mesma sensação de toque. Tortura? O que é isto de ter a imagem e não ter a sensação? Memória rebelde. Não quero lembrar, mas não adianta. Memória cínica. Memória sádica. Não há como trancá-la. E ela me desafia. Veja só como está arranhado este CD. Por que certas imagens se repetem tanto? E por que não certos episódios? Só replay? É o que eu sei, mas não o que eu posso.

E de repente o despertador toca. Na forma de uma carta, um chat, um telefonema ou um pombo-correio. Do jeito que for. Alguém resolve ser realista. Vamos lá? Isto não pode dar certo. Vamos então assistir ao filme do Woody Allen. Quem sabe ele nos inspira? Mas não. Melhor transformar isto num episódio feliz. Como você classifica? Maravilhoso. Tem, mas acabou. Vamos nos colocar no álbum de retratos. Vamos narrar isto como um intervalo lindo entre um romance e outro. Vamos. Seu surf, sua guitarra, seu cabelo, sua idade, seu jeito de se mexer, seu cheiro, sua roupa, sua descrição de personagem de ficção. Ninguém vai acreditar que isto existiu. Talvez nem eu.

Mas os efeitos da sua passagem são notáveis. Na composição do meu prato ou no cabide vazio estão os rastros da sua presença. No CD que toca ainda no carro ou na toalha usada estão resquícios, resíduos, menos do que provas. E a música complica tudo. Elas são as mesmas. Eu é que não as posso ouvir mais sem experimentar um arrebatamento. Não aquele dos abraços ou dos beijos, mas aquele de quando a lembrança me atravessa, dos cabelos às unhas. É isto: quando a memória é o avesso do destino.

Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 16/12/2011

 

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