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Segunda-feira, 5/12/2011
A lebre com olhos de âmbar, de Edmund de Waal
Ricardo de Mattos

"Por que eles conseguiram atravessar a guerra escondidos quando tanta gente se escondeu e não conseguiu?" (Edmund de Waal).

O professor e ceramista inglês Edmund de Waal (1964) é autor de um daqueles felizes livros em que o tema inicial é por vezes esquecido e a narrativa espraia-se tanto, que podemos abrir um volume de memórias e fechar um de História. Ou começarmos lendo sobre uma jornada familiar e terminarmos melhor informados a respeito do movimento Impressionista francês. N'A lebre com olhos de âmbar, acompanhamos o roteiro de sua família e, ao encerrarmos a leitura, restou-nos a sensação de termos mergulhado com o autor num universo ficcional do qual gradativamente emergimos de volta à realidade. Ele mesmo assim expressa-se: "Já não sei mas se o livro é sobre minha família, sobre a memória ou sobre mim mesmo, ou ainda se é um livro sobre pequenos objetos japoneses".

Os "pequenos objetos japoneses" são os netsuquês, peças de marfim ou de madeira, esculpidas de forma a representar pessoas, animais ou plantas. As pessoas são representadas num minúsculo contexto, como o monge adormecido, a menina que se banha, o menino reclinado sobre um búfalo... Segundo Waal, sua coleção tem 264 destas peças e nenhuma ultrapassa "o tamanho de uma caixa de fósforos". Foram esculpidas por deleite ou para servirem de fecho para sacolas, com furos onde passassem o cordão. Contudo, para levantar o percurso delas em sua família, Waal realizou pesquisas em Paris, Viena, Japão e Odessa.

O autor é descendente direto da família Ephrussi, de negociantes judeus. Originários da Ucrânia o patriarca Charles Joachim Efrussi - a grafia com "ph" viria mais tarde - envia seus filhos a Paris e Viena, incumbindo-os de estabelecer a família e os negócios fora dos limites pátrios, ampliando assim o campo de atuação. Dos seus netos parisienses, seu homônimo Charles foi aquele que se dedicou totalmente à Arte. Não como artista, mas como estudioso, colecionador, e patrocinador. Mecenas, numa só palavra. Quando na França sobreveio a onda de interesse pela cultura japonesa, decorrente da abertura promovida no século XIX pela dinastia Meiji, Charles - neto - adquiriu caixas de laca, gravuras e os cobiçados netsuquês. Desfez-se deles apenas quando seu primo Viktor casou-se em Viena, enviando-lhe como presente nupcial.

Em Viena, a coleção sobreviveu às duas guerras mundiais. Seguiu para a Inglaterra, onde estagiou até ser levada para Tóquio por Iggy, tio-avô de Waal. Atualmente encontra-se de volta a Londres, instalada na casa do autor. A estes objetos reunidos por Charles no século XIX agregou-se todo um histórico familiar. Como se diz em Direito Civil, encontra-se agora entre as "coisas fora do comércio".

A primeira parte do livro é dedicada a Charles Ephrussi. Discorrendo sobre este colateral da terceira geração, Waal descreve o cenário em que ele viveu, o contato que teve com pintores como Renoir, Manet e Monet. O autor foi minucioso: visitou os imóveis que pertenceram à família, leu cartas, diários e livros de autores da época. Visitou arquivos oficiais e pediu o auxílio de acadêmicos para o que estava fora de seu alcance. Antes de escrever, esforçou-se por reconstruir a ambiência. Traz revelações diversas, nem sempre alegres. Exemplo disso envolve o quadro Rosa e Azul, de Renoir, exposto no MASP. É das obras mais famosas do pintor. O que poucos devem saber é que a menina de faixa azul foi uma das vítimas de Auschwitz.


Rosa e Azul, por Renoir

A vida literária também tem presença viva. Começa com Marcel Proust, secretário de Charles, com quem conviveu o suficiente para incluí-lo na modelagem da qual resultou seu personagem Swann. Há o implicante Edmond de Goncourt, que nomeia um prêmio literário francês. Os livros de Arthur Schnitzler - ora editados no Brasil - nortearam Waal a respeito da Viena saída do século XIX. A avó paterna de Waal, Elisabeth, filha de Viktor Ephrussi, nutriu sincera adoração pelo poeta Rilke, enviando-lhe seus versos e recebendo inéditos dele. Somos remetidos a Hannah Arendt quando mencionado certo Eickmann, eficiente burocrata.
Viena é objeto das partes II e III, quando a cena é ocupada por Viktor e sua família.Para uma parcela do povo de Israel daquele tempo, ser judeu significou distanciar-se de suas raízes hebraicas, mas não encontrar total assimilação no meio germânico cristão. Seja por pacificidade natural, seja para não se exporem em conflitos e assim dar munição ao adversário - difícil precisar - as medidas antissemitas tiveram livre e progressivo curso, resultando na morte, prisão, tortura e expropriação de bens de milhares de pessoas. Waal não carrega nas cores, nem seu livro tem feição trágica - muito pelo contrário. Contudo, certas ocorrências, por si sós, são tão terríveis que nenhuma narrativa resulta neutra. Afetou-nos vivamente a descrição da tomada da casa e recolhimento da biblioteca de livros raros de Viktor. Ele foi banqueiro por força das circunstâncias. Teria sido mais feliz como leitor erudito e colecionador. Este ponto do livro de Waal complementa a leitura d'A biblioteca esquecida de Hitler, de Timothy Ryback.

O envolvimento cultural dos Ephrussi não era uma tentativa de forçar a assimilação nos países aos quais chegavam. Em visita e pesquisa em Odessa, Waal identificou também uma rica atmosfera cultural que não era estranha à família. A última parte do livro parece um pouco "corrida", talvez pelo retorno à realidade referido acima.

Redigimos esta coluna no banco do jardim de casa, com o Sol reaparecendo após breve chuva. Um bando de maritacas debate na árvore do vizinho dianteiro. As cadelas vêm conferir si ainda estamos aqui e aproveitam para solicitar o centésimo cafuné do dia. Levantando os olhos da prancha, identificamos no jardim molhado os alvos dos trabalhos da próxima semana. Na sala, o presépio armado aguarda acabamento antes da visita dos foliões. Não é agradável imaginar a invasão por uma horda que tudo chute e destrua. Não possuímos nenhum incunábulo, nenhum quadro de "Velho Mestre". Todavia, não queremos revirado o que temos, em busca de "provas".

Respondendo à pergunta epigrafada, por que as peças foram salvas e tantas pessoas não? Por causa de Anna, empregada da família Ephrussi, que conviveu com a avó e os tios-avôs de Waal. Porque entre aderir às ordens dos burocratas e oficiais nazistas e enfrentá-los, ela preferiu uma atuação anódina como funcionária na casa de seus antigos patrões, onde foi instalado um departamento qualquer. Com isso, salvou cada um dos netsuquês, pois para ela eram os "brinquedinhos" com os quais suas crianças gostavam de brincar enquanto a mãe deles vestia-se para os compromissos sociais. Escondia-os no bolso do avental e depois no próprio colchão, dormindo sobre eles. Si hoje a única ajuda que podemos esperar dos empregados é a necessária para subir ao patíbulo da guilhotina, Anna deve ser incluída entre aqueles casos em que bons sentimentos desafiam e superam os rígidos cálculos da maldade.

Ricardo de Mattos
Taubaté, 5/12/2011

 

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