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Terça-feira, 25/12/2001
Papai Noel Existe
Alexandre Soares Silva

Devo ser, não o único, mas certamente um dos poucos adultos no mundo que acreditam que o Papai Noel existe. Outro dia minha cozinheira estava conversando com a minha mãe na cozinha. A cozinheira disse que tinha ensinado aos filhos, um de 9 e outro de 6, que Papai Noel não existe. Minha mãe me viu entrando e perguntou com que idade eu tinha descoberto que Papai Noel não existe. Fiz uma cara de choque, recuei um passo e disse: “Ele não existe?”. Elas riram, mas a verdade é que eu nunca descobri isso, que o Papai Noel não existe.

Acho que não acreditar em Papai Noel, usar esse sorriso superior que a minha cozinheira usou para dizer o que disse, é algo tão infantil quanto carrinhos Matchbox e Falcons. É típico do molequinho fumando o primeiro cigarro sentir um certo frisson ao pensar que Papai Noel não existe. Adultos infantilizados continuam a sentir um certo prazer de serem bem adultinhos e não acreditarem em nada, nem em Deus, nem na vida depois da morte. Sou maduro demais pra isso.

Olha: só estou dizendo isto: que o mundo é tão grande e tão complicado, que em algum lugar, de alguma forma, alguém assume todos os anos as funções atribuídas ao Papai Noel- seja uma forma-pensamento alimentada pela imaginação de milhões de crianças ao longo dos séculos, seja o próprio espírito de São Nicolau, seja outro espírito qualquer. Como tenho comprado presentes de Natal nos últimos quinze anos, sei bem como é que eles entram na minha casa, e não é pela chaminé. Mas talvez alguém que não comprou presente para os filhos, em algum lugar, se surpreenda ao encontrar presentes para eles debaixo da árvore. Talvez os presentes não sejam materiais, mas sejam reais mesmo assim. Talvez muita coisa. Talvez.

Uma coisa eu sei com certeza, e vou dizer, mesmo que me internem num hospício- que eu vi Papai Noel quando tinha onze anos, e ele estava saltando de telhado em telhado numa daquelas partes montanhosas de Santana, à noite- e que eu morri de medo. Eu não tinha sido Bom naquele ano.

Ano Novo

As festas de Ano Novo não me interessam muito. Sempre achei um pouquinho melancólicas. Talvez até um pouquinho apocalípticas. E, para qualquer pessoa com um pouco de sensibilidade para cores, o Natal é uma festa vermelha, e o Ano Novo é uma festa branca. E o vermelho, é claro, é muito mais interessante do que o branco.

A verdade é que o Natal está associado a magia, e o Ano Novo é uma festa mundana. Natal é Hogwarts, Narnia, OZ. Ano Novo é o Anel Industrial de Belford Roxo. Grande São Paulo. Cancún. Natal é infância- ou uma infância idealizada, se você preferir, feita de A.A. Milne (o autor do Ursinho Puff), J.M. Barrie ( Peter Pan), filmes de massinha. Ano Novo tem a ver com a fase mais chatinha da adolescência- aquela em que a gente acha muito engraçado e subversivo fazer desenhos do Mickey com a barba por fazer transando com a Minnie.

O Ano Novo, claro, tem a vantagem de não ser “família”- o que, dependendo da família, evita muita bregalhada. O tio dormindo no sofá com um palito no canto da boca. Uma vez passei o Natal na casa de um primo, e o tio dele (não meu) começou a passar fio-dental quando ainda estava na mesa. No Ano Novo, pelo menos, existe a oportunidade de fugir dessa gente, não é?

Voto Natalino

Um brinde de Natal, vamos lá:

Longa vida ao deus de Carne de Chocotone e Sangue de Nescau
E morte aos que se tornaram Chatos Demais para acreditar nele!

Alexandre Soares Silva
São Paulo, 25/12/2001

 

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