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Quinta-feira, 3/5/2012
O céu tornou-se legível
Carla Ceres

Outro dia, num bate-papo entre escritores e leitores, alguém perguntou quais foram os livros que alteraram nossas visões de mundo. Enquanto eu pensava no assunto, as pessoas disparavam títulos em profusão.

Antes que nos afogássemos em menções a clássicos e best-sellers de suposto valor revolucionário, um outro alguém sugeriu limitarmos a lista a apenas dez livros por pessoa. Todos acharam pouco, mas aceitaram. Só eu protestei. Dez livros eram demais. Minha visão de mundo não vive mudando a cada ano bissexto. Autoajuda não me proporciona epifanias múltiplas. Nem na infância, quando a pouca leitura favorece o encantamento, fui presa fácil de livros transformadores. Além do mais, a vida tem outras formas de mudar nossos conceitos. Experiências traumáticas, viagens e até novas tecnologias costumam exercer maior influência do que uma única obra literária.

Minha abordagem do contra estava prestes a levar a conversa para um terreno árido, por onde poucos conseguiriam caminhar. Num debate informal como aquele, não valia a pena discutir Weltanschauung, cosmovisão, visão de mundo, ou o que quer que fosse, pois, quando alguns colegas disseram que gostavam de filosofia, estavam se referindo a misticismo consumista.

Resolvi sair pela tangente, apelando para a literalidade, e admitir que, recentemente, houvera, sim, um livro capaz de mudar minha visão de mundo. Um livro tão importante para minhas atividades radicais que eu o trazia sempre no porta-mapas do carro. Era o Guia do Observador de Nuvens, de Gavin Pretor-Pinney.

Tive que ir buscar o livro no carro, porque não acreditaram em sua existência. Foi um grande sucesso. Adultos também gostam de textos com figuras, mesmo quando a maioria está em preto e branco.

Literatos passam a vida tentando capturar um ideal de beleza fugidio, que, muitas vezes, só eles conseguem entrever. Poetas, em especial, costumam viver nas nuvens. Talvez com essas ideias em mente, Gavin Pretor-Pinney tenha escolhido um festival literário na Cornualha para lançar sua The Cloud Appreciation Society, entidade fundada em 2004, que atualmente reúne quase trinta mil associados do mundo todo.

O ponto de encontro virtual desses observadores de nuvens é um site com o qual podem contribuir enviando suas fotos de nuvens. Além de imagens belíssimas, o site apresenta notícias, fórum, guia de referência para colecionadores de nuvens, música de nuvens (sim, isso existe) e até uma loja onde se pode comprar, entre outras coisas, a versão em inglês do Guia do Observador de Nuvens.

Pretor-Pinney escreveu o guia porque os associados pediam indicações de obras acessíveis ao público em geral, que os ajudassem a reconhecer os tipos de nuvens. Os manuais disponíveis no mercado destinavam-se a meteorologistas. Havia também luxuosos livros de fotos coloridas, que pouco explicavam sobre as nuvens e seus fenômenos ópticos.

O Guia do Observador de Nuvens destina-se ao leitor comum - até àquele que nunca se interessou em olhar para o céu - porque vai além de classificar e mostrar fotos dos dez tipos mais comuns de nuvens. Com muito bom humor, passeia pelas esferas da arte e da mitologia universais. Onde mais eu descobriria que os elefantes albinos são cultuados por seu parentesco ancestral com as nuvens Cumulus?

"Os mitos da criação na tradição sânscrita descrevem como os elefantes gerados no início dos tempos eram brancos, tinham asas para voar, podiam mudar suas formas à vontade e detinham o poder de trazer a chuva."

O livro não me transformou em meteorologista amadora, mas ensinou como prever algumas sequências de nuvens e as variações climáticas ligadas a elas. Entendi que nossos avós tinham razão ao prever chuvas com base nas trilhas de condensação que os aviões a jato deixam no céu. Agora não dependo mais de instrutores para me dizer se o dia continuará bom para voar de paraglider ou treinar manobras de paraquedismo num túnel de vento. Basta olhar para cima. O céu tornou-se legível.

O guia foi uma cartilha que mudou meu jeito de ver a metade superior do mundo. Agora também quero ir para a Austrália, pegar um planador e "surfar" a Glória da Manhã, uma rara "nuvem de rolo" que aparece por lá, anualmente, mas já foi vista visitando o Brasil. A maneira de ouvir o mundo também mudou, pois fui apresentada à Harpa de Nuvens, "um instrumento que cria música a partir do formato das nuvens que pairam acima dele".

O capítulo sobre a Glória da Manhã, por emocionante que seja, parece tranquilo diante da aventura do piloto William Rankin, o único ser humano a descer de paraquedas por dentro de uma nuvem de tempestade cheia de raios, rajadas de vento e granizo. Esse tipo de experiência, sim, muda a visão de mundo de qualquer um.

Nota do Editor
Carla Ceres mantém o blog Algo além dos Livros. http://carlaceres.blogspot.com/

Carla Ceres
Piracicaba, 3/5/2012

 

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