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Quarta-feira, 22/8/2012
Caetano, sem meio termo
Humberto Pereira da Silva

"O que é arte pura na concepção moderna? É criar uma imagem sugestiva que contenha simultaneamente o objeto e o sujeito, o mundo exterior ao artista e o próprio artista"
Baudelaire


Os 70 anos de Caetano Veloso foram amplamente noticiados, com especiais em programas de TV, espaço nos cadernos de cultura e, inevitável quando se trata de Caetano, discussões que misturam seu temperamento e o valor de sua produção artística. Antes de tudo, deve-se realçar, como lembrete para discussões sobre Caetano, que a ruptura entre artista e obra segue itinerário traçado por Charles Baudelaire, nas palavras do filósofo Walter Benjamin, um lírico no auge no capitalismo: com a modernidade, a indiscernibilidade entre vida e obra, de modo que o artista e seu temperamento se amalgamam como obra de arte.

Por lapso, ou guarda baixa, esse lembrete é frequentemente esquecido e as discussões sobre Caetano acabam numa confusão sem fim. Gostar ou não de Caetano dá vazão a comentários que se referem à obra, mas subliminarmente apontam para antipatia com respeito ao seu temperamento, à sua conduta diante de órgãos de imprensa, mídia e poder. Com isso, questionamentos pueris sobre o valor de sua obra e a incompreensão de que em Caetano o letrista de canções populares, ou cantor, e o provocador cultural são dois lados da mesma moeda. A transa de Caetano, num sentido amplo, consiste em atacar os pontos nevrálgicos da cultura numa sociedade de cosumo. O púlpito de que se serve e se dá bem são os espaços da mídia, onde se apresenta e canta as letras de suas canções.

Falar dos "discos" de Caetano sem se ater ao contexto no qual ele se insere é como atirar no que vê e acertar o que não vê. É o que fez o jornalista André Forastieri em seu blog. Para ele, Caetano chega aos 70 e há 30 anos não faz um disco decente. Pode-se concordar com Forastieri, mas um primeiro senão inevitável: quando se fala em disco, acentua-se que é um produto para ser colocado no mercado. O critério de avaliação, então, é a lei da oferta e da procura, como reza o catecismo do consumo. Por ironia, o primeiro "disco" de Caetano que chegou a 100 mil cópias vendidas foi "Outras palavras", de 1981. A partir de então, as vendas dos "discos" de Caetano cresceram em escala exponencial.

Forastieri, então, teria de responder sobre o porquê de os tais discos dos últimos 30 anos terem vendido tanto. O próprio Caetano, mais rápido que Forastieri, responde com sarcasmo em 1973, na faixa "Épico", do experimental "Araçá Azul": "destino eu faço, não peço, tenho direito ao avesso, botei todos os fracassos nas paradas de sucesso". Disco anticomercial que, só para lembrar, teve grande número de devoluções e foi retirado de catálogo. Ou seja, Forastieri "não gosta" de "musicas" que atingiram as paradas de sucesso: as dos discos de Caetano nos últimos 30 anos; portanto, todos os seus fracassos. Nisso, um arroubo retórico, mas igualmente um recado para afoitos como Forastieri. Ao falar de "músicas legaizinhas", "discos", Forastieri atira no que vê, mas não percebe o temperamento artístico de Caetano, que mistura arte e mercado sem sair da alça de mira.

Forastieri, como muitos que se envolvem em discussões infindáveis sobre Caetano, acerta no que não vê. Ele afirma que Caetano provoca "paixões ou vomitório, nada intermediário". Sim, claro, não precisa ser muito esperto para perceber isso. Basta perguntar a um fã de Raul Seixas o que ele acha de Caetano. Mas, o que isso tem a ver com a obra, se não passa de simpatia ou antipatia pelo temperamento? Forastieri não parece perceber que as tais "paixões e vomitório" decorrem do entrelaçamento entre a personalidade e a obra e esquece que, não fosse de Caetano que fala, o valor da obra poderia, sem problema, não ter nada a ver com o caráter do artista.

Forastieri sustenta também que Caetano "sobrevive da admiração acrítica e condescendência da imprensa". Nenhum problema com essa afirmação. Coerente, pois, com as paixões suscitadas. Paixões supõem justamente a ausência de discernimento crítico. E, novamente, não precisa ser muito esperto para perceber que Caetano pode ser acusado de tudo, menos de ser morno, para ficar em famosa passagem bíblica. Mas, na admiração acrítica desconsidera-se que Caetano sabe muito bem se aproveitar dos meios de comunicação de que dispõe para oferecer um retrato crítico do mundo em que vive? "Haiti", do "disco" "Tropicalha 2", de 1993, vai para a lata do lixo porque um colunista diz que no máximo é uma "música legalzinha"? Não seria mais oportuno ponderar que, como obra de arte, a letra toca os sentimentos das pessoas, independente de querer "passar por vanguarda junto aos desinformados", como sustenta Forastieri? Ou a letra não o sensibiliza para a realidade social cantada por Caetano?

O texto de Forastieri segue uma linha que poderia oferecer coisas interessantes para se pensar menos no mito Caetano do que propriamente no que nos leva a endeusá-lo, ou seja, nossa necessidade de paparicar um símbolo de nossa cultura, uma forma de afirmação cultural: Bob Dylan, citado por ele na comparação com Caetano, tem que se ombrear com os poetas beats, tem ao lado o bebop, o blues, o soul... Mas ele não segue essa linha e, como muitos baba-ovos de que fala em seu texto, só inverte o sinal e fica no blá-blá-blá... Sobre o pressuposto de que há 30 anos Caetano não faz "disco decente", faço a seguinte observação: Caetano é um artista prolífico; não conheço nenhum artista prolífico cuja obra mantenha sempre o mesmo padrão, sem qualquer contestação, divergências, comparações e similares.

Uma obra vasta revela momentos diferentes de inspiração de um artista. Caetano seria Caetano só com "Tropicália", de 1968. Ou Forastieri defende que, por que para ele esse "disco" só teria duas ou três "músicas legaizinhas", não se justifica nem de longe o lugar que Caetano ocupa no cenário cultural brasileiro? Depois de "Tropicalha", Caetano não precisava fazer mais nada. Quem não souber o significado cultural de "Tropicália", não está em condições de falar nada sobre cultura brasileira. Para Forastieri, "Caetano será lembrado por 15 ou 20 canções que ficarão como retrato de uma época distante. Não é pouco. Também não é grande coisa". Quem escreve isso não pode exigir ser levado a sério. Também só gosto da Nona Sinfonia de Beethoven, mas, venhamos, não é grande coisa... Nisso, nada além de ignorância coberta com um pedantismo tolo.

Por fim, esta pérola: "nos discos recentes, ninguém acertou três músicas decentes num mesmo álbum..." Forastieri sugere que as três "músicas decentes" dele concordam com as de seus interlocutores. Mas ele deve ser avisado de que não é a lista dele que conta. Para muitos, Caetano tem muito mais que 15 ou 20 canções "legaizinhas". Cada qual lista e faz seu catálogo do que gosta e do que não gosta em Caetano. Nisso, nenhuma pretensão além de expressão de subjetividade.

Humberto Pereira da Silva
São Paulo, 22/8/2012

 

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