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Quinta-feira, 20/12/2012
Deixa se manifestar
Vicente Escudero


Nunca haverá final feliz para o capitalismo, esse sistema econômico tão fechado que se alimenta até dos próprios fracassos. Você pode assistir a protestos na rua contra o estado atual da economia ou a falta de oportunidades de alguns setores da sociedade, mas não vai ser capaz de encontrar alguém vivendo fora do ambiente intramuros da propriedade privada. Nem mesmo no Tibete, pois até os monges que meditam nas montanhas precisam adquirir barracas para se proteger do frio inóspito. Nas palavras de Vija Kinsky, personagem do filme Cosmopolis, dirigido por David Cronenberg e adaptado do romance homônimo de Don DeLillo, os manifestantes que lutam contra as distorções do capitalismo financeiro digital, que conectou todas as economias do mundo para o lucro e o prejuízo, buscam apenas atrasar a passagem do tempo, anestesiar o presente contra a dor causada pela angústia da repetição de seus horrores no futuro.

Uma ideia, quanto mais visionária, mais pessoas deixará para trás. A ideia central de Cosmopolis é a evolução do capitalismo financeiro para o capitalismo financeiro virtual, o cybercapital. Neste novo universo de operações financeiras abstratas, transações que não resultam na produção de qualquer bem material, as bolsas de valores funcionam sob o comando de algoritmos programados para realizar transações em frações infinitesimais de segundo. A dimensão do tempo, o único limite concreto para o trânsito destas informações, tornou-se o bem mais cobiçado. Horas de trabalho não valem mais do que qualquer segundo entre o período de abertura e fechamento dos pregões. Este presente concreto é consumido pelo cybercapital para dar lugar a investimentos maciços e voláteis. Fora destes limites, a vida é apenas um exercício de sobrevivência contra o relógio.

Eric Packer, interpretado por Robert Pattinson, é o jovem deus desta Matrix financeira, o bilionário controlador da Packer Capital. Alguém que, numa manhã, apostou bilhões na desvalorização do yuan e assistiu, durante o resto do dia, a sua fortuna desaparecer enquanto viajava numa limusine até o outro lado de Nova Iorque em busca de um corte de cabelo. Seu carro é blindado contra balas e o barulho das ruas. Cercado por telas de computadores transmitindo o desempenho dos mercados, este é seu mundo real. O exterior está desmoronando, anarquistas tomam as ruas e param o trânsito para protestar, jogam ratos mortos em outras limusines e dentro de restaurantes, enfrentam a polícia, mas nada é suficiente para desviar Eric Packer de seu corte de cabelo. Nem mesmo duas ameaças contra sua vida, detectadas pela escolta, fazem-no desistir.

A nostalgia é uma das maiores forças do universo, a origem das mitologias antigas, com seus deuses criadores e heróis imperfeitos, histórias representando um conjunto de valores importante para um povo em certo momento da história. Eric Packer vive desconectado da realidade, dentro do mundo abstrato de suas transações financeiras de sua limusine. Durante a viagem, encontra-se com várias pessoas dentro do carro: a esposa, sócios, funcionários, amigos e um médico. Nenhuma é capaz de conectá-lo à realidade do mundo exterior. Suas preocupações do dia são semânticas: por que um aeroporto é chamado dessa forma, qual o significado da assimetria de sua próstata (sim, ele passa pelo exame ainda dentro do carro, conversando com um dos visitantes). Procura preencher a indiferença se alimentando com algo suculento e através do sexo. Entretanto, pressente que seu futuro parece estar definido. Em certo momento, pergunta-se por que vê coisas que ainda não aconteceram, nas telas da limusine. Nem mesmo o ataque sofrido por um inimigo altera seu espírito. Seu último remédio são os laços com o passado, alcançar a barbearia que frequentou com o pai até os cinco anos de idade.

Eric Packer tem o destino contrário de Telêmaco na Odisseia. Enquanto este é forçado durante sua jornada a amadurecer, a se comportar como um homem adulto, Packer regressa aos instintos primitivos, em busca do retorno ao mundo concreto através da dor e da violência. Depois de derrotado pelo yuan, sai armado com um revólver em busca da ameaça que o perseguiu silenciosamente durante todo o dia. Antes de terminar o corte de cabelo, deixa a barbearia, invade o prédio onde está seu inimigo e descobre sua identidade: trata-se de um ex-funcionário da Packer Capital. O destino deste encontro parece tão inevitável como a derrota sofrida na bolsa. A perda do controle do cybercapital é a perda do controle do tempo. Eric Packer agora está à margem. Para a natureza voltar ao normal, o reajuste da aceleração do tempo mencionado no início do filme se inicia. As frações de segundos do protagonista estão se esgotando. Há um ajuste de contas entre o capitalismo e Eric Packer, prestes a acontecer.

A adaptação de Cronenberg tem o mérito de reproduzir com fidelidade os diálogos do romance, a maior demonstração do afastamento dos personagens de qualquer contato com a realidade. Detalhes como o interesse de Eric em comprar a Capela de Rothko e a arte da abertura do filme, uma reprodução do processo de criação de Jackson Pollock, reforçam o caráter abstrato do universo do cybercapital e servem para dar ao filme um fluxo experimental, algo parecido com uma viagem por um ambiente controlado por forças indiferentes à interferência humana. Esta dose de fatalismo faz com que a única forma de compreender tais acontecimentos seja seguir o conselho do médico a Eric Packer, sobre a natureza de uma mancha encontrada na sua pele: deixa se manifestar.

Vicente Escudero
Campinas, 20/12/2012

 

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