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Quarta-feira, 6/2/2013
A Conquista de Nenhuma
Marilia Mota Silva

Da última vez em que respondi ao recenseamento no Brasil, a entrevistadora marcou "católica" quando eu disse "nenhuma" à pergunta sobre religião. Chamei-lhe atenção para o engano. Ela argumentou:

"Você não é de família católica, não foi batizada?"

"Sim, fui."

"Então você é católica, todo mundo é católico!"

Insisti: "Põe o xis no quadradinho de 'nenhuma', é só isso que você tem que fazer!"

Afinal a conquista de nenhuma tinha me custado anos de questionamento, uma jornada que marcou de angústia minha adolescência, a rejeição da família, o exílio dentro de casa. Não era para ser tomada com leveza.

Lembrei-me disso quando li artigo no New York Times falando sobre o significativo aumento dos que se declaram sem religião nos EUA. De 16% em 2008 para 20% em 2012.

O assunto tem estado na mídia. Os evangélicos reclamam da diminuição do número de devotos, da dificuldade em atrair adultos jovens, da perda de influência e de poder político. Falam em colapso, desintegração de sua igreja nos EUA.* Em 2004, diz o pastorJohn S. Dickerson, os evangélicos deram a vitória ao Presidente Bush. De lá pra cá a situação mudou drasticamente. "Nós evangélicos precisamos aceitar que nossas crenças estão em conflito com a cultura vigente. Não podemos mudar doutrinas antigas para nos adaptar aos dias de hoje. Mas podemos e devemos adaptar a maneira com que sustentamos nossa fé - com graça e humildade em vez de arrogância e hostilidade".

É um começo.

Alguns pastores defendem que é preciso procurar caminhos de doutrinação que assustem menos as pessoas. Uma religião mais voltada para a generosidade, a bondade e menos para a punição, o terror, as ameaças do inferno. É largo o caminho que leva à eterna danação e muitos vão entrar por ele (Mateus 7:13, Sermão da Montanha) já não produz o efeito de antes.

Parece que placas tectônicas da mente se deslocam afinal um pouquinho para se acomodar às mudanças dos últimos tempos. Ainda hoje o catolicismo considera a mulher como ser de segunda classe, religiões praticam a intolerância, a segregação, criam cismas enquanto falam de amor e solidariedade.

Se a doutrinação religiosa se orientasse para os aspectos positivos e sadios de nossas emoções e não tanto para o pecado, o castigo, o medo, os índices de paz e bem-estar geral subiriam muitos pontos e acabariam por se refletir no estado deplorável do mundo que temos hoje.

É comum a crença de que o comportamento ético é atributo exclusivo de pessoas afiliadas a alguma religião; só elas seriam capazes de bondade, compaixão, empatia, uma vez que sem temor de Deus, sem medo do inferno, sem as promessas de vida após a morte cairíamos na selvageria, no vale-tudo. Nada justifica essa crença.

Há uns anos, estava no CCBB, no Rio, assistindo ao Saramago, que vinha lançar um novo livro, quando, ao fim da palestra, uma senhora pediu a palavra, criticou Saramago por seu ceticismo e perguntou no tom indignado de quem conhece todas as verdades: "Como o homem sem Deus pode ser bom?" A pergunta cintilou como um golpe fatal, irrespondível. A plateia em silêncio. Saramago respondeu: "Como o homem com Deus pode ser mau?!". Quantas guerras, quantos crimes tem sido cometidos em nome de convicções religiosas. Não há como fugir dessa verdade.

Quando me defini por religião nenhuma, meus pais, mestras, padre confessor julgaram que, passada a rebeldia dos quinze anos, voltaria ao rebanho e ao bom senso. Não aconteceu; minha decisão tinha sido pensada exaustivamente; reconstruí minha cidadela interior, como diria Saint-Exupéry, um dos raros autores a que tinha acesso na época, sem dar lugar a dogmas, morbidez, medo, intolerância. Tenho vivido em paz e contente desde então.

A tranquila aceitação da vida, a aceitação de nossos limites, do que não nos foi dado saber, nos torna livres. Livres da pretensão, da onipotência, do orgulho, da ilusão, do medo. A vida aqui e agora se torna uma celebração. Sei que não sabendo (de onde viemos, para onde vamos) sinto-me em união com todos os outros seres do mundo; somos todos irmãos, passageiros do mesmo barco, compartilhamos o susto, a ignorância, o deslumbramento, a mesma história fantástica.

Não tenho pressa de morrer, adoro a vida, mas não tenho medo. O sono é bem-vindo depois de um longo dia bem vivido. Quando dormimos, não tememos nada, não sabemos de nada - apenas descansamos do dia. Sinto saudades mas não me angustio quando as pessoas queridas vão embora, a seu tempo. Faz parte da vida, do ciclo; nada é permanente. E tudo o que tiver que ser compartilhado com elas, tudo o que puder ser feito, é bom que seja enquanto estamos vivos. Essa consciência do tempo dá mais emoção, paixão à vida.

Livre e contente desse jeito, há memórias de minha infância católica que conservo e de que gosto muito. A arquitetura das igrejas, as torres e os sinos, as abóbodas em arcos e ogivas que se multiplicam nas alturas, o desejo de infinito! As pinturas, as luzes nos vitrais, os cálices de ouro; os paramentos bordados, as rendas, o incenso; e a música, o som das ladainhas, do órgão e dos corais; o canto gregoriano!

O arrebatamento a que me levavam esses rituais! A ternura!

Sem religião, agnósticos, mesmo os tranquilamente ateus, há algo em nós que espreita o céu, que reza, que anseia pelo que nos transcende, pela beleza. Há algo de religioso em nós, e esse mistério é mais um que nos contempla. Assim é, e assim seja.

Marilia Mota Silva
Moura, Pt, 6/2/2013

 

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