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Quarta-feira, 1/5/2013
De olho em você
Marilia Mota Silva

Com a chave na mão quer abrir a porta, não existe porta; quer morrer no mar, mas o mar secou; quer ir para Minas, Minas não há mais. (C. Drummond de Andrade, E agora, José?)


O tempo passa lento em cidade pequena. A vida é sossegada. As portas das casas ficam fechadas só no trinco. Vizinho bate palma e vai entrando na sala, cozinha, até mesmo quarto adentro. As crianças vão sozinhas para a escola. Brincam na rua. Crime, violência, bandalheiras do governo ficam longe, não lhes dizem respeito. Na cidade pequena todos se protegem. Ninguém sofre sozinho uma dor ou um segredo. Na cidade pequena a vida é mais suave.

Mas há quem sufoque em cidade pequena. Quem se sinta enjaulado. Os que recusam a trilha que lhes foi prevista, que anseiam por solidão e anonimato. Os que não se ajustam. E por mais que doa e assuste, essas pessoas vão embora, não porque gostem do caminho mais difícil, mas porque não tem escolha: se não forem, sufocam. A cidade grande os acolhe em seu deserto, sua indiferença, e eles se rejubilam! Ser ninguém na multidão, esquecer-se de si na multidão. Oh, liberdade!

Há uns 50 anos quando o mundo nem sonhava com internet, Marshall McLuhan, sociólogo canadense, falando sobre os meios de comunicação de massa - jornais, rádio, televisão - disse que habitávamos uma aldeia global. A expressão tornou-se popular. Se ele visse agora a aldeia que, de fato, nos tornamos! E o que diria das nuvens que se avolumam no horizonte, ameaçando o céu claro e infinito dos primeiros anos. Nuvens que não passam nem se desmancham.

O Google, com esse par de olhos no nome, saberia desde sua fundação o que ambicionava ser quando crescesse? O que tudo vê, tudo pode, tudo controla, ou terá se dado conta das estonteantes possibilidades do caminho ao percorrê-lo?

Aquele carro deles que anda sem restrições pelas cidades, fotografando casas, comércio, ruas para nos oferecer graciosamente imagens exatas dos endereços mais distantes, aquele carro não tira apenas fotografias. Ele está equipado para colher todos os dados, senhas, emails, documentos pessoais de milhares de pessoas desavisadas. Fizeram isso nos EUA. Quem sabe o que fizeram nos outros países, Brasil inclusive? Pegos com a mão na cumbuca, pediram desculpa, disseram que foi um acaso, erro de um funcionário. Erro repetido em 38 estados, só nos EUA! Me engana que eu gosto. Uma multa de sete milhões de dólares encerrou o assunto. Sete milhões para eles deve pesar tanto como cinco centavos para qualquer um, mas não é o valor simbólico da multa que causa desconforto. Nem o fato de que as pessoas prejudicadas, a quem desculpas e indenização seriam devidas, não tem como saber se estão na lista.

As pessoas entendem (vê-se pelos blogues e comentários) que tamanha voracidade por informação é motivada apenas por questões de mercado; interessam-se por nós como consumidores, querem antecipar nossas vontades, realizar nossos sonhos. Seria menos mal se fosse isso porque sempre nos restaria a decisão de comprar ou não, usar um serviço ou não.

Os que nos conduzem nessa era digital certamente contemplam com entusiasmo a profunda transformação social que eles tornaram possível: o acesso à informação, à educação, a transferência do poder para os indivíduos, mudanças que trazem em si o germe da destruição de toda forma de totalitarismo, e sem guerra, sem sacrificar nenhuma vida. Razões de júbilo e motivação de sobra para os corações mais generosos.

Mas o passeio do Google pelo mundo toca um alarme. Assusta perceber o quanto estamos expostos, ignorantes e indefesos - não só como indivíduos, mas como sociedade. Um carro para tirar fotografias dispõe de equipamento (e usa) para, de passagem pela rua, revistar seu computador, contas bancárias, imposto de renda, exames médicos, contatos, amigos, emails, quebrando leis fundamentais e princípios sagrados que tornam possível nossa vida em comunidade.

Google, Apple, Facebook, redes de conunicação global intrincam-se, naturalmente, com segurança nacional. Há interesses mútuos. O aparato para um Estado Policial existe e, ao que parece, anda em fase de testes. A novidade é que o cidadão nem precisa saber. Inevitável lembrar de George Orwell, grande visionário, que imaginou esse futuro, ainda em 1949, em seu livro que se tornou emblemático:"1984": O Grande Irmão, um poder esmagador, sem rosto, onipresente, que invade e controla cada minuto da vida de seus súditos, que sequer sabem quem é seu opressor.

Muita gente não se perturba com essa perspectiva. Tudo o que querem é uma vida protegida, a bolha de paz e liberdade dos subúrbios e seus gramados impecáveis. E prometem ser bem comportados. Mas há sempre os que sufocam no subúrbio, nas cidades pequenas. E dessa vez, não há cidade grande para onde escapar.


Marilia Mota Silva
Washington, 1/5/2013

 

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