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Sexta-feira, 3/5/2013
Anotações de um amante das artes
Márwio Câmara

Com o "boom" das redes sociais compartilhando a todo o momento fragmentos, nem sempre de natureza verossímil, de escritores de forte veia intimista como Clarice Lispector e, de seu assumido admirador, Caio Fernando Abreu, seus nomes passaram a ganhar novamente destaque na literatura nacional e curiosidade (?) entre os jovens leitores.

Embora pertençam a épocas antagônicas à nossa contemporaneidade, o espírito existencialista de suas obras vem cativando a nova geração justamente por falar sobre questões sensitivas do homem, quase numa espécie de catarse intimista - embora, criticamente, nas redes sociais tais escritores venham sendo usados de maneira um tanto quanto superficial e dispersa. Com a contaminação pop - no melhor ou pior sentido da palavra - de seus nomes, novas coletâneas e reedições de suas obras vêm surgindo e despertando o interesse entre as editoras e espaço nas livrarias.

O último lançamento do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu trata-se de uma compilação inédita de crônicas do autor, publicadas, entre os anos 80 e 90, no Jornal O Estado de São Paulo, intitulada A vida gritando nos cantos, editada pela Nova Fronteira, no final do ano passado. O título intimista e de estigma poético foi selecionado pela dupla de pesquisadoras Lara Souto Santana e Liana Farias, responsável pela feitura do livro, e retirado de uma das crônicas de Caio, intitulada "Querem acabar comigo?".

A ideia do livro, inicialmente, surgiu durante as buscas de Liana pelas crônicas assinadas por Caio que abordavam sobre a AIDS, doença que o matou em 1996, e que seria tema de sua monografia de conclusão do curso de Jornalismo, em 2010. Na busca por seus textos, vasculhou cada um dos exemplares do jornal, disponíveis na Biblioteca do Senado Federal, e encontrou um vasto material de crônicas do escritor que nunca havia lido. Com a missão de que estas viessem a público, reuniu-as e foi atrás dos responsáveis pelos direitos autorais. Conheceu Lara, no ano seguinte, que também fazia um trabalho de pesquisa sobre as crônicas inéditas de Caio, e juntas revisaram todo o material, sendo lançado no final de 2012.

Nesta compilação dividida cronologicamente entre os anos de: 1986-1988; 1993-1996 e em crônicas sem data, nos deparamos com um cronista atento às novidades da arte e da indústria do entretenimento, amante da música, da Literatura, do Cinema e do Teatro; e um depurado flâuneur do cotidiano paulistano, atento às transformações sociopolíticas do Brasil de seu tempo. Suas crônicas são como uma espécie de diário de anotações, onde Caio F. dialoga com o seu leitor, despretensiosamente, sobre arte, política e vida, indo da música dos The Doors ao disco Totalmente demais, do Caetano Veloso; da poesia de Drummond aos elogios feitos ao diretor Woody Allen, com o filme Hannah e suas irmãs; recordações de sua primeira ida ao bairro de Santa Tereza à experiência de morar numa comunidade hippie. Tudo junto e misturado. Jazz, Blues, Rock, MPB, Cinema, Literatura, agradecimentos, memórias, saudações, puxões de orelhas, homenagens e lamentações.

"Semana passada, me deu uma vergonha tão grande de morar numa cidade que tem como prefeito essa figura lamentável do sr. Jânio Quadros, que até pensei: bom, no domingo sento e escrevo sobre isso. Uma crônica/carta irada, reclamando da sujeira das ruas, da violência solta, do barulho, da poluição, do lixo. Uma carta raivosa, cheia de cobranças. Lamentando a burrice deste povo que elegeu o sr. Jânio como prefeito e é bem capaz de, nas próximas (cadê?) eleições diretas para presidente, votar naquele outro senhor - o João Baptista Figueiredo. Uma carta sugerindo o internamento imediato do sr. Jânio (como ele fez com a própria filha) para uma boa - digamos - faxina mental. Com muito detergente."

(Trecho de "Ninguém merece Jânio Quadros", assinada em 28 de outubro de 1987. A vida gritando nos cantos, pág. 127.)

Em outra crônica, ele relata o esgotamento existencial, após terminar de escrever um de seus livros:

"Escrevendo na manhã de segunda-feira. Céu muito azul. As moças da loja de bicicleta lavam as vitrinas. Eu bebo café, abro janelas. Como uma carta para vários remetentes, apara nenhum remetente. Despedida rápida, provisória: vou ficar algum tempo sem escrever aqui, pelo menos até dia 6 de janeiro. Um pouco porque vou viajar, tenho um trabalho a fazer no Rio de Janeiro. Mas principalmente porque preciso de tempo - me dar um tempo, sabe como? Ando meio esvaziado. Nos últimos tempos, investi todas as energias para terminar um livro - chama-se Os dragões não conhecem o paraíso. Não me sinto capaz de falar sobre ele. Está ponto, entregue. Foi demorado, foi difícil, talvez mais difícil que qualquer outro dos anteriores. Às vezes, escreve-se um livro como se fosse para não morrer. Eu disse às vezes, mas me pergunto se não será quase sempre assim. De qualquer forma. Este foi. E não que seja um livro "triste". Ao contrário: acho que é cheio de vida. Também não sei se tudo que é assim, cheio de vida, não será sempre também um pouco triste. Em abril, estará nas livrarias. Então conversamos."

(Trecho de "Despedida provisória", assinada em 16 de dezembro de 1987. A vida gritando nos cantos, cap. 137.)

A vida gritando nos cantos é um aparato do escritor, jornalista, crítico e cronista - e um eterno amante das artes -, codificados na figura de Caio Fernando Abreu. Uma conversa de bar com direito a uísque e cigarros ao som de Billie Holiday, Cazuza, Caetano, Angela Rô Rô, Nara Leão entre tantos outros. Um ótimo livro para os apreciadores de sua prosa esmiuçar o seu lado perspicaz e abrangente de cronista, e, evidentemente, para reforçar o boom das redes sociais que, felizmente ou infelizmente, o fizera, na geração virtual, um escritor um tanto quanto popular.

Márwio Câmara
Rio de Janeiro, 3/5/2013

 

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