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Segunda-feira, 10/6/2013
Amar a vida!
Daniel Bushatsky

Era uma carta. Para ele? Era endereçada a ele e assinado pelo seu tio, irmão do meio do seu pai. A surpresa foi grande, pois carta é um meio de comunicação em extinção, convenhamos.

A carta começava explicando que o tio conhecia outros meios de comunicação, mas justificava indagando qual era o mais intimista, o meio que melhor proporcionava uma possibilidade, como nos velhos tempos, de reflexão. Ele estava convencido. Desligou o computador, deixou o celular de lado e sentou-se confortavelmente para ler a carta.

O conteúdo era um caso sério. Na semana anterior um aluno seu (não do tio) tinha lhe perguntado se ele era judeu. E quanto se despediu disse: "Tchau, judeu".

Perplexo pela pergunta feita em sala de aula, de famosa faculdade paulistana, o professor respondeu para a primeira pergunta, "sim!" e, para a segunda, atônito "tchau".

A carta do tio, que ele sempre admirou pela sensibilidade e pelas opiniões construtivas desde sua adolescência, questionava o comportamento do aluno (inveja, crítica, ciúmes) e logo concluía que jamais saberíamos, pois cabia ao pretenso preconceituoso entender suas razões para aquele comportamento.

O professor não tinha entendido como preconceito, mas, por incrível que pareça, como uma forma desajustada e inábil de aproximação.

Mas a pergunta feita pelo tio na carta era: como ele se sentia por ser judeu? Um povo, na opinião do sobrinho, acostumado a mudanças, sempre inserido em outras culturas e que muitos, seja por interpretação errada da história e tradições judaicas, seja por preconceito do diferente, julgam e condenam antes de conhecer.

O tio, na carta, seguiu o mesmo caminho, do sobrinho, mas pelo olhar do judeu: é difícil, pois sempre somos nós os diferentes, os que devem se adaptar a novas culturas, nunca renunciando as nossas.

Por exemplo, no museu judaico da Filadélfia, nos Estados Unidos, conta-se que alguns grupos judaicos abandonaram o período entre a sexta-feira à noite e o sábado (Shabbat) - dia sagrado para a religião judaica - e mudaram para o domingo para se adaptarem à economia americana no início da imigração judaica e conseguirem emprego para se sustentar.

Mas então o que significa ser judeu? Esta questão martelou na cabeça do sobrinho e a resposta é extremamente difícil.

É defender sua cultura? Sim, com certeza! É se adaptar a novos ambientes? Também. É ter que lidar com ciúmes, inveja e preconceito? Lógico! E generalizações como "todo judeu é pão duro"? Infelizmente também!

Mas a maior característica de ser judeu, independentemente da religiosidade, concluiu o sobrinho, pela carta de seu tio, é tentar sobreviver e curtir a vida! É aproveitá-la!

Sorte, então, do povo judaico (como outras minorias) poder através desta constante indagação responder que é judeu e que isto, por si só, o torna mais forte!

Ser judeu, portanto, é se sentir judeu, é amar a vida!

Obrigado, tio!

Daniel Bushatsky
São Paulo, 10/6/2013

 

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