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Quinta-feira, 13/6/2013
O cavalo branco
Elisa Andrade Buzzo


ilustra: Renato Lima

Paisagem verdejante infinita. Paisagem artística, saída de quadro medievo, lugar perdido na sombra do tempo, resquício de tempo de campo e trevas. Solvente, excremento campestre a verdejar ainda mais a terra fértil. Terra doce e culta, dormente da modernidade, saudosa desde sempre. Terra verdadeira, essencialmente ela mesma, sem firulas, nem decorações, estendida de si a si mesma, despretensiosa, de leste a oeste disposta em sua certeza e simplicidade de chão longamente pisado.

Apesar de além, ela aprendeu a se limitar em suas beiras, frente ao mar. Infinitamente disposta, vazia de peso, com seus vãos preenche a nação, serve de base, estuque para a carestia de alma no concreto. A vida portuguesa desde sempre, como diz a loja das grandes cidades, a vida com gosto de terra a se tocar com o dedo. Tela cheia de vinhas e árvores de cortiça em crostas de pinceladas de tinta. Ninhos de cegonha ornando a trajetória firme das estradas.

Acaso deixo de ser um intruso, uma personagem apenas por estar momentaneamente dentro dela? Acaso cortar estes campos em ziguezague neles incute minha presença? Não há presença humana que testemunhe se ela é real, quem sabe inventada. Presença estrangeira que não tem meios de compreensão, não se imagina naquela porção do mapa, surpreendentemente alocada em outro hemisfério. Haverá algo a unir estas pontas separadas pela distância, que desenvolva um caminho meticuloso na medida do bem entender natural?

Além do Tejo os bois ruminam ao ar livre, mordiscam sua porção de vida. Aparentam ser felizes e satisfeitos, a ponta do rabo em seta ereta, a cabeça pendida. Alguns, deitados, curtem a boa vida. Da estrada se antevê apenas a simplicidade de montes verdes, a mentirosa infinitude dos campos. Dela ainda, em terra, em cuja margem se estendem flores silvestres, há também, afinal alguns cavalos. Três cavalos, um marrom, um preto, outro de pelagem branca.

Este observa em minha direção e, ao balanço de uma mão, começa a menear o esguio pescoço. A cara como um rosto riscado, a crina lançada para trás longamente. Ladeando-o, os outros, inacessíveis em sua porção de bicho. Tento reter tudo o que posso dessa imagem, lamber com força o contorno parado desse algo poderoso e enérgico, no entanto, a curto alcance, brando.

E assim ficamos, face a face, hipnoticamente, não fosse um estalido da cidade que distraísse nosso entendimento mútuo, um ruído que dissipa nossa tendência ao movimento. Qual a oculta mensagem deste cavalo branco, sem sela, sem cabresto? o cavalo, como a paisagem, apenas, sente o intruso, ou o reconhece? Tão perto, mas longe, fina cerca-espelho a separar, uma sequência de vida distanciando uma coisa da outra, uma liberdade de corpo rijo e quente afastada de mim, imbricada naquele deserto verde sem fim. Meu cavalo branco e eu, afinal nunca nos entenderemos.

Elisa Andrade Buzzo
Lisboa, 13/6/2013

 

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