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Sexta-feira, 21/6/2013
Tarifa de ônibus: estamos prontos p/ pagar menos?
Adriana Baggio

Sempre que se começa uma argumentação dizendo "aqui na Europa...", parece que vem atípica desqualificação do Brasil por quem está morando fora. Para contribuir com o debate sobre as tarifas e a qualidade do transporte público no meu país, mais em pauta agora por conta dos protestos em São Paulo, queria trazer as minhas percepções sobre o transporte público de Bologna, que eu considero bom. O que não significa que viver em Bologna seja melhor do que viver no Brasil. Aliás, arrisco a dizer que morar em outro país nos ajuda a valorizar o nosso. Mas enfim, isso é digressão.

Bologna fica na área mais abastada da Itália, no centro-norte. É considerada uma cidade economicamente privilegiada. Mesmo assim, tem sofrido os efeitos da crise europeia. Sua população gira em torno dos 500 mil habitantes e recebe muitos imigrantes de países da África, Ásia e leste europeu. Apesar de não ser uma cidade grande, as linhas de ônibus são fartas e possuem uma frequência adequada.

A passagem de ônibus em Bologna varia de acordo com o local onde se compra o bilhete e a quantidade comprada. Estudantes e idosos possuem algumas bonificações, que acabam tornando o preço da passagem mais barato para esses grupos. Mesmo quem não tem a passagem subsidiada pode pagar menos, por meio da compra de cartões que valem por alguns meses ou um ano.

Se o bilhete for pago dentro do ônibus, custa 1,50 euro. Se for comprado antecipadamente, numa tabacaria ou banca de revista, custa 1,20. O cartão city pass, que vem com 10 "viagens", custa 11 euros, ou seja, 1,10 por passagem. É essa tarifa que eu pago, já que costumo usar esse cartão. Convertendo para a moeda brasileira, minha passagem custaria por volta de 3,10 reais.

Uma vez comprado o bilhete, ele vale por uma hora. Ou seja, posso trocar de ônibus nesse período, sem precisar pagar outra passagem. O mesmo vale para os cartões e o bilhete comprado antecipadamente. Por isso, uma regra estritamente seguida é validar o bilhete assim que se entra no ônibus. Não há cobrador: as pessoas são responsáveis por pagar sua passagem, validar seu ticket e cumprir as demais regras. Os coletivos são fiscalizados e, se um passageiro estiver viajando sem bilhete e for pego, leva uma multa bem alta.

(Ultimamente parece estar havendo uma incidência maior de "malandragens", porque há uma campanha publicitária mostrando a importância de as pessoas pagarem sua passagem.)

Bologna é uma São Joaquim do inverno e um Rio de Janeiro no verão. Os ônibus, então, têm aquecedor e ar condicionado. Passageiros e motoristas viajam com conforto. Em todas as paradas há uma tabela com o horário em que o ônibus passa naquele local, e esses horários são cumpridos. Por tudo isso, andar de ônibus em Bologna é muito conveniente.

Você já andou de ônibus em São Paulo num dia de verão, às cinco da tarde, enquanto o sol ainda está fervendo os miolos e o trânsito já está uma merda? Se a resposta for sim, meus sentimentos. Eu também já passei por isso. Mas apesar de todo o desconforto, pensava o seguinte, enquanto tentava abstrair o calor, o cheiro ruim e o barulho do motor no meio do engarrafamento: eu desço daqui a pouco. E esses dois coitados, motorista e cobrador, que vão continuar nessa linha infernal mais não sei quantas horas?

Primeira diferença entre os ônibus de Bologna e os de São Paulo (e de Curitiba): as condições de trabalho. Os motoristas dos ônibus daqui ficam numa espécie de cabine, protegidos inclusive da eventual violência de algum passageiro. Sobre cada porta, uma câmera mostra se o passageiro já subiu ou já desceu, sem que ele precise ficar esticando o pescoço pra olhar no espelho ou sem que tenha que esperar a batidinha de moeda do cobrador pra avisar que dá pra fechar a porta.

Segunda diferença: o escalonamento de preços das passagens. Quem usa com mais frequência, paga menos. Isso é uma prática comum de mercado. Se você compra algo lá no Sam's Club em quantidade, vai pagar menos por unidade. Não poderíamos fazer o mesmo no Brasil pra distribuir melhor os custos?

Terceira: em São Paulo o cartão permite que você troque de ônibus sem pagar nova passagem. Em Curitiba, não. A integração só acontece nos terminais e nos tubos - a não ser que algo tenha mudado a partir de fevereiro. O ônibus que passa na minha casa, por exemplo, não faz integração nenhuma. Ou seja, sai mais barato pagar gasolina e estacionamento do que comprar quatro ou mais passagens - se o trajeto exigir mais de uma linha de ônibus.

Quarta: na maior parte dos ônibus, são duas pessoas trabalhando. Em Curitiba, algumas linhas funcionam só com motorista, mas ele precisa fazer o papel de cobrador também. A parte "recursos humanos" impacta bastante no preço da passagem.

Sou contra a tarifa gratuita. Acho que pode haver subsídios pra quem precisa mais. Porém, pagar ajuda a valorizar (ao menos enquanto a gente não amadurece enquanto cidadãos). Mas quem cuida do transporte público poderia pensar em soluções alternativas, como desconto para compra de passagens em grande quantidade, por exemplo.

Outra coisa: se o transporte público for bom, muita gente vai passar a usar. E se o sistema passa a ter mais usuários e o trânsito passa a ter menos carros, o custo de operação dos ônibus vai baixar.

Acho que as empresas de ônibus são uma máfia, sim. Acho que a passagem é cara e o serviço é ruim. Porém, se queremos um serviço nível europeu, estamos preparados para agir como cidadãos europeus? Vamos comprar a passagem ou validar o bilhete mesmo se o ônibus não tiver cobrador? Vamos resistir à tentação de "tirar vantagem" e andar de ônibus sem pagar, já que não haverá ninguém nos controlando? E se os cobradores forem "abolidos", os sindicatos não vão se revoltar?

Coisas pra fazer a gente pensar, para que possamos embasar muito bem nossos argumentos e protestar com coerência. A começar pelo voto: a forma mais eficaz de mostrar que estamos fartos de ser tratados com desrespeito.

Adriana Baggio
Curitiba, 21/6/2013

 

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