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Terça-feira, 25/6/2013
A Onda de Protestos e o Erro de Jabor
Humberto Pereira da Silva

1.
Na edição de 12 de junho último do Jornal da Globo, o colunista Arnaldo Jabor fez severas críticas às manifestações pelo aumento da tarifa de transporte público em São Paulo, conduzidas pelo MPL (Movimento Passe Livre). Sem meias palavras, compara as ações dos jovens que impulsionaram as manifestações às da organização criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital), que assombraram a cidade em 2006 com toques de recolher e atos de violência que levaram à queima de dezenas de ônibus. Ao final, Jabor pontua que os jovens atuais são a caricatura violenta de um socialismo dos anos 50.

A repercussão dessas afirmações foi muito negativa. Sem dó nem piedade, entre as manifestações contrárias, a de que lhe faltou sensibilidade para problemas sociais de fato, de que sua compreensão do mundo não vai além de um palmo do nariz.

Atordoado, admitiu o erro em comentário na Rádio CBN, cinco dias depois. Na admissão de erro, se justifica ao dizer que viu inicialmente no movimento toda cara de anarquismo inútil, mas ao notar a violência da polícia admitiu estar diante de um movimento que expressa uma inquietação que tardara no país, e que se expandira como força política original porque lhe falta rumo definido.

2.
O jornalista Mario Magalhães, muito em evidência nos últimos meses por ter biografado o guerrilheiro Carlos Marighella, escreveu em seu blog sobre a atual onda de protestos. Ele toma por mote a reação violenta dos protestantes àqueles que, nos protestos, carregam bandeiras de partidos políticos, centrais sindicais, entidades estudantis ou movimentos sociais. Como Jabor, sem meias palavras, Magalhães os acusa de intolerantes, pois quem não gosta de livre expressão partidária é a ditadura.

Na sequência, ele lembra movimentos intolerantes na Alemanha de Hitler e, aqui no Brasil, a Ação Integralista Brasileira, versão tupiniquim do fascismo de Mussolini. Por fim, afirma que quem ataca militantes partidários o faz por ter escolhido o partido da Intolerância. Assim como Jabor, Magalhães foi enxovalhado de críticas; mas ao contrário de Jabor, até o momento ele não admitiu ter errado.

3.
O aumento da tarifa de ônibus acendeu o estopim. De reivindicação casual, rápido se espalharam por todo país reivindicações por melhorias na educação, no sistema de saúde, por esclarecimentos de gastos com obras para a Copa de 2014; enfim, reivindicações que apontam para a mudança de uma mentalidade que aceita passivamente atos de corrupção como se espera a próxima novela global. Como decorrência da ida do povo às ruas, a classe "bem pensante" foi solicitada a explicar o que estava ocorrendo e que rumo os acontecimentos tomarão.

O bom senso recomenda considerar que qualquer processo social em ebulição é marcado pelo entusiasmo, por contradições, extremismos, ou excessos, e que só o tempo demarca papéis, posições e o lugar de mocinhos e vilões na história. Assim, deve-se notar como o movimento da história escapa a avaliações ou prognósticos movidos por paixões.

A queda do muro de Berlim, assim como o desmoronamento dos regimes comunistas nos início da década de 1990, pegou de surpresa os intelectuais de ambos os lados do espectro político. Mais recentemente, a primavera árabe, que pôs fim a regimes longevos como o de Hosni Mubarak, no Egito, e de Muammar Gaddafi, na Líbia, nos ensina a ter um pé atrás com respeito a prever consequências ou jogar com slogans ou palavras de ordem. O entusiasmo pela democratização ficou para as calendas.

4.
Como muitos da "classe pensante", Jabor e Magalhães não estão imunes à tentação de ajuizar, apontar o dedo e, no caso deles por caminhos distintos, fazer comparações, separar mocinhos e vilões (tentação a que quem vos escreve, claro, não está protegido). Diante da onda de protestos que se espraiou pelo país nos últimos dias, no entanto, cabe apenas o risco de assumir a posição A ou B, sem qualquer garantia de que seja a certa. No risco, a certeza de se mover no fluxo dos acontecimentos; no risco, a certeza de que o tempo dirá o quanto de ingenuidade ou calhordice se esconde na escolha tomada.

5.
Magalhães pode ter exagerado na comparação. A intolerância nazista, ou mesmo integralista, tinha carga ideológica e estrutura interna que nem de longe se assemelham a atos isolados de skinheads, Carecas do ABC (citados por ele) ou quaisquer extremistas antipartidários nos dias de hoje. Ao fim e ao cabo, aquela intolerância era orquestrada, contaminava diferentes seguimentos sociais que conscientemente viam no totalitarismo o regime político ideal.

Não é o caso de pensar que as manifestações de intolerância nos grupos isolados de hoje sejam uma ameaça, de fato, à democracia. Esta, contudo, é apenas a suspeita de que Magalhães exagerou - os acontecimentos por vir dirão se ele foi tomado de paranoia ou clarividente para perceber o "ovo da serpente".

De qualquer forma, Magalhães não se viu compelido a repensar sua posição e Jabor sim. Mas, por que Jabor se viu constrangido a se retratar? E qual o sentido de sua retratação?

O que há em comum entre eles é que baixaram a guarda, tentados pela necessidade de marcar posição numa situação movida por paixões. A diferença é que Jabor nem de longe percebeu que não podia, sem cair em contradição, criticar a legitimidade de atos de protesto no Brasil e defender os da Turquia, o que também acabou fazendo em sua fala atabalhoada no Jornal da Globo. Assim, Jabor se viu compelido a se retratar porque, "inteligente", notou a guarda baixa. Ele subestimou a dimensão dos acontecimentos; seria absurdo desconectar a legitimidade da ida do povo às ruas na Turquia da no Brasil.

6.
Mas essa guinada não é tão simples como possa parecer: "fiz uma avaliação errada...". Se Jabor foi sincero ao dizer que errou, isso significa uma mudança de posição em sua forma de pensar, e não mero "erro de avaliação" numa situação isolada. Pensar tem seus caprichos; assumir uma posição conveniente, de acordo com as circunstâncias, tem nome: oportunismo, casuísmo, embuste, calhordice; recuar o pensamento não é o mesmo que recuar numa ação. Pensar implica assumir os riscos do pensamento, tão pouco flexível a torneios retóricos desde os embates entre Sócrates e os sofistas.

Na guinada de posição, ele necessariamente coloca em dúvida a forma como comentava assuntos do mesmo teor. Só desconhecendo completamente suas intervenções nas últimas décadas para não reconhecer que sua fala no Jornal da Globo reflete sua forma de pensar; ou alguém esperaria que ele dissesse algo diferente do que disse? Ou seja, apesar do atabalhoamento, lhe caberia ficar em silêncio ou reorganizar os argumentos e manter o que disse. A não ser, óbvio, que ele tenha visto uma luz e sofrido um ato de conversão.

A falsidade em sua admissão de erro será posta a prova, tão logo tenha de se manifestar sobre o que, antes, sabia-se bem que posição tomaria. Pois é, feitas as contas, Mario Magalhães se sai com crédito. Tendo errado ou não, ele mantém coerência numa situação em que, efetivamente, não se deve falar com leviandade. Caso Jabor não tenha, de fato, se convertido, para alguém inteligente como ele, inevitável afirmar que desdenha da inteligência daqueles a quem se dirige. Ao dizer e desdizer conforme as conveniências, ele se comporta como se estivesse na frente de crianças que tapam os olhos e, assim, imaginam ficar invisíveis.

Para muitos, os comentários de Jabor não têm credibilidade. Mas com o "ato falho" de agora, seus defensores só continuarão a lhe dar credibilidade se forem crianças, crentes no mundo de faz de conta.

Humberto Pereira da Silva
São Paulo, 25/6/2013

 

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