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Quarta-feira, 7/8/2013
O Nome Dele
Marilia Mota Silva

Antes de entrar na escola, na horinha descansada das tardes, eu ouvia novelas de rádio com minha mãe. Ela pegava o crochê ou o bordado, acomodava-se na poltrona junto ao rádio, e eu ficava por perto, em silêncio reverente.

Não me lembro até que ponto eu entendia as histórias. Lembro-me de fragmentos, o rincho do pneu na estrada, o acidente, o barulho do vento nas árvores, a voz grave-poderosa-ardente do mocinho, a mocinha meiga-frágil-delicada, cenas que a imaginação pintava.

Uma vez, uma frase me chamou a atenção. Era um homem ultrajado que brigava com a mocinha, ameaçava tornar a vida dela um inferno, logo ela, tão doce e vulnerável. Ele se exaltava:

"Você não tinha o direito! Não podia fazer isso comigo! Eu lhe dei o meu nome!" Acordes cheios, descendentes, tchan, tchan, tchan! Era grave!

No intervalo perguntei a minha mãe:

"Ele disse que deu o quê pra ela? O nome?"

"Foi."

"Mas ela não tinha nome antes? Como que falavam com ela? Ô, menina?"

" Ele deu o sobrenome dele para ela, o nome da família".

"Ela não tinha um?"

"Tinha, claro, todo mundo tem."

"Então pra que ele deu? Se era pra ficar bravo desse jeito!"

"Porque é assim que é. Quando a mulher se casa, o marido dá o nome dele pra ela."

"Pra depois gritar com ela?"

"Para mostrar que eles são uma família, são casados para sempre".

A coisa não fazia sentido.

"Você ainda é pequena, quando for mais velha, vai entender melhor."

Aos seis anos, já ia longa a lista do que eu só entenderia quando fosse mais velha.

Uns quinze anos depois, terminada a faculdade, vou ao cartório com meu futuro marido para dar entrada nos papéis de casamento.

Uma funcionária cansada, que mal se distinguia dos arquivos cinza e papéis amarelados, pôs-se a preencher o formulário: nome, filiação, endereço.

"E a noiva passa a se chamar?"

"Marilia Mota Silva".

"Esse é seu nome agora. Estou perguntando como você vai se chamar depois de casada!"

" O mesmo. Não vou mudar."

"Tem que mudar, está na lei."

"Se tiver que mudar, não caso."

Ela me fincou uns olhos que as lentes aumentavam como se quisesse me intimidar. Levantou-se, empurrando a cadeira e sumiu atrás de um biombo. Voltou acompanhada de dois funcionários.

"Vou ter que mandar seu caso ao juiz. Se ele não autorizar, não tem casamento."

"Não tem mesmo."

"Silva ainda por cima! Se fosse um Matarazzo"! Virou-se para meu futuro marido, uma sobrancelha levantada, com descaso:

- Está começando bem, hem, meu filho?

Ele sorriu com cara de coitadinho,mas estava se divertindo (foi o que me disse). Eram os anos 70, e queríamos mudar o mundo.

Demorou alguns dias e o juiz assinou meu requerimento, sem problema. Cada vez que tive que preencher formulário, fazer documentos, cumprir a burocracia que nos persegue sempre, onde quer que se vá, me congratulei pela decisão tomada. Fez bem à minha alma e simplificou minha vida.

O tempo passou, o Código Civil foi atualizado e hoje trocar de nome depende do gosto de cada um. Não há pressão social para que se mantenha a tradição patriarcal, embora para os filhos prevaleça, sem questionamento, o nome do pai.

`Nos EUA o patriarcalismo que se manifesta nesse aspecto é mais aferrado, mais inflexível. Aqui a criança recebe apenas o sobrenome do pai. Quando uma pessoa tem três nomes, o segundo é nome próprio também. A criança não recebe nenhum nome da mãe e a jovem, quando se casa, passa a assinar apenas o nome do marido. Quase sempre ela faz isso toda saltitante, ansiosa para entregar a própria coleira ao novo dono. Essa é a impressão de quem vê de fora, mas não é tão simples. A mulher americana, em geral, é forte, corajosa e sabe se fazer respeitar. No entanto obedece a esse paradigma sexista. Tento entender.

A tradição - que vem do tempo em que a mulher passava da propriedade do pai para a propriedade do marido - reza que cada família tenha apenas um nome - o do marido, claro. Os Silva, Os Stratton.

Muitas mulheres dizem que preferem seguir a tradição para evitar o aborrecimento de ter que dar explicações, constantemente, sobre o fato de ter nome diferente do marido e dos filhos. A mulher que não muda sua identidade em benefício da família é vista com maus olhos, é considerada má esposa.

Outras trocam o nome de bom grado: "Fiz questão de mudar meu nome, sempre quis fazer isso desde pequena", disse uma das amigas da minha filha.

"Casamento é uma fusão, é uma nova unidade que se forma, e a mulher abandona seu nome em beneficio da nova unidade familiar," ela recitou.

Mas ninguém pediria aos homens para mudar de identidade.

"Minha identidade não muda nada só por causa de um simples nome."

A personalidade, o caráter, talvez não, mas identidade é outra coisa: é a forma como você é identificada. O nome que consta nos documentos, nos cartões de crédito, compromissos financeiros, na vida profissional.

A média da idade em que as pessoas se casam tem subido. Quando se casa, normalmente a mulher já construiu uma carreira. Especialmente se está na vida acadêmica, ou é cientista, advogada, jornalista, ela já fez um nome, tem trabalhos publicados, já construiu uma reputação. É admirável que ela se disponha a enfrentar as tremendas complicações da mudança de nome apenas para ter o mesmo sobrenome do marido e dos futuros filhos.

Trata-se de uma norma cultural poderosa. E patriarcal, sexista, retrógrada. Reafirma a desigualdade. Não combina com uma sociedade que se pretende moderna e democrática.

A menina aprende, desde pequena, que o nome dela é provisório, vale quase nada, assim como o de sua mãe, que desapareceu quando ela se casou. Os meninos assimilam a mesma noção: a mulher vale menos.

O nome do menino é permanente, tem lastro, tem história e tem futuro. Vem do pai, do avô, e cabe a ele perpetuar a linhagem dos homens da casa.

Dessa maneira (e de muitas outras de que sequer nos damos conta), meninos aprendem que eles prevalecem, eles importam, eles fazem diferença, e as meninas aprendem a mesma coisa: que os meninos prevalecem, são superiores, tem história, tem importância, e elas não.

Quando uma pessoa reconhece a superioridade da outra, está reconhecendo a própria inferioridade e sua autoestima, sua dignidade sofrem. E dão lugar a um certo ressentimento também.

Com alguma frequência, a mídia explora o fato de, mesmo depois de tantos anos de luta pela igualdade, as mulheres raramente ocuparem postos de comando. Especulam sobre características do gênero: as mulheres não se interessariam pelo poder, não se sentiriam bem em postos de comando. Me parece que, em parte pelo menos, a resposta é simples: Nossa autoestima ainda é baixa. A percepção que temos de nós mesmas e dos homens ainda nos situa em posição de inferioridade. E tudo conspira para perpetuar isso. Basta olhar as revistas femininas, a forma como a mulher é tratada na mídia, como ela se vê, os sacrifícios que faz para ser um produto consumível. E mal nos damos conta disso.

Marilia Mota Silva
Itajubá, 7/8/2013

 

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