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Quinta-feira, 12/12/2013
Pelo meio de Os Sertões
Carla Ceres

Alguns livros exigem tanto de seus leitores em termos de vocabulário, prática de leitura e bagagem cultural que chega a parecer pedantismo afirmar que gostamos deles. Isso acontece porque obras complexas costumam reunir, além se um seleto grupo de verdadeiros apreciadores, uma horda arrogante, que mal passou das primeiras páginas, mas jura ter lido, entendido e adorado cada vírgula.

O Ulisses, do escritor irlandês James Joyce, poderia disputar o record mundial na modalidade "reunião de falsos fãs". A literatura brasileira, porém, não deixa de contribuir com o fenômeno. Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, e Os sertões, de Euclides da Cunha, já levaram muitos alunos do colegial à suspeita de que todo livro contendo "sertão" no título seja incompreensível e, como diria Euclides, aspérrimo. Certos professores, por sua vez, glorificam essas obras-primas das quais só conhecem trechos, resumos, versões simplificadas, adaptações para televisão, cinema ou quadrinhos.

Livros difíceis costumam deixar o leitor numa sinuca de bico. Se não leu, é um ignorante; se admite que começou a ler e desistiu, é burro; se diz que gostou, é mentiroso e/ou esnobe. Já passei por essas três situações com vários livros. Venho de uma família de leitores que me permitia pegar o que quisesse nas estantes de casa. Aos dez anos, saltei de Monteiro Lobato para A política, de Aristóteles. O aviso do meu pai foi "Esse livro é bom, mas você ainda vai precisar ler muitos outros antes de conseguir gostar dele. Claro que pode tentar ler agora, mas, se achar chato, troque por outro". Dito e feito: li um pouquinho, não entendi nada e guardei a filosofia pra depois, sem traumas.

Quem tentou enfrentar Os sertões e desistiu tem toda a minha simpatia porque fiz o mesmo algumas vezes, até entender que estava abordando a obra pelo trecho mais inóspito aos leitores modernos. O livro se divide em três partes: A terra, O homem e A luta. Começar pelo começo é pedir para desanimar. A terra parece mais um texto acadêmico a respeito do sertão do que um romance. Descreve em minúcias o relevo, o solo, a flora, a fauna, os ciclos das secas. Tudo muito novo e interessante para o leitor de 1902, ano em que Euclides lançou sua obra-prima.

Vale lembrar que, durante a Guerra de Canudos (1896-1897), nem o próprio exército brasileiro conhecia direito a região. A estrada do Calumbi, que encurtou em mais de um dia a marcha das tropas pelo sertão, só foi descoberta após milhares de mortes, graças a "informações de alguns vaqueiros leais". Acontece, porém, que o leitor atual vê imagens do semiárido nordestino desde a infância. Estudamos relevo, clima, vegetação e tipos humanos de todas as regiões do Brasil com a ajuda de filmes. Se quisermos saber como é um determinado traje típico, basta procurar na internet. Ninguém precisa descrevê-lo para nós nem nos explicar a função das peças que o compõem. Uma foto nos aviva a memória porque já vimos essas roupas em uso, em alguma telenovela regionalista ou de época.

Por esses e outros motivos, concordo com o antropólogo Darcy Ribeiro: "Para ler Os Sertões, salte a primeira parte, A Terra, ultrapassada, pretensiosa e chata, mas leia". Comece direto por O homem e vá se acostumando, aos poucos, com o estilo, o vocabulário e as teorias científicas atualmente descartadas que Euclides utilizou para contar a história da Guerra de Canudos.

Fiel à ciência de sua época mesmo diante de fatos que a contradiziam, o autor acreditava na existência de raças superiores e inferiores, bem como na de sub-raças retardatárias. Seu coração, porém, toma o partido dos sertanejos, "nossos patrícios retardatários", que, embora fanáticos e supersticiosos, demonstravam bravura, nobreza, inteligência, esperteza, força, lealdade e heroísmo. Encanta-se com os feitos dos jagunços "caçadores de exércitos" e ironiza os inúmeros erros das expedições militares que marcharam para combatê-los e falharam miseravelmente.

Mesmo começando pelo meio, Os sertões está longe de ser um livro fácil. Os termos técnico-científicos atrapalham; o texto, cheio de explicações dentro de explicações, desorienta; os superlativos eruditos desse escritor sapientíssimo tornam certas passagens acérrimas. Isso ainda não é motivo para desistir. A obra é excelente. Seria covardia abandoná-la sem luta. Além do mais, nós temos a internet, onde podemos, sem custo algum, ler o texto integral e, também, ouvi-lo em uma gravação LibriVox. Basta decidir por onde se deseja começar. Prefere ouvir desde o começo ou a partir de O homem (section 06)? Claro, nem todo mundo vai conquistar Os sertões, mas, se você já leu muitos livros, pode ser conquistado e se interessar até pela primeira parte.

Nota do Editor
Carla Ceres mantém o blog Algo além dos Livros. http://carlaceres.blogspot.com/

Carla Ceres
Piracicaba, 12/12/2013

 

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