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Terça-feira, 18/2/2014
Solidão Moderna
Mentor Muniz Neto

Os dois se conheceram há uns 40 anos, ainda no tempo do Facebook.

Ele morava em Sidney, na Austrália.

Ela morava em Uruguaiana, no Brasil.

Ele apareceu para ela como sugestão de amizade.

Ela deu um trago no cigarro e clicou em sua foto, só de farra.

O perfil dele era aberto.

Escrevia em inglês.

Só depois de uma hora, ela decidiu clicar na solicitação de amizade.

Ela nunca tinha feito isso.

Pedir a amizade de um desconhecido.

Mas a rotina daquele dia tinha sido especialmente cansativa.

Foi a maior loucura que fez no dia.

Ela era tímida.

Sofria para se relacionar ao vivo.

A solicitação foi na velocidade da luz até os servidores do Facebook nos Estados Unidos e de lá, pulando diversos nós de rede, bateu na tela dele, que respondeu instantaneamente.

Ele não fumava.

Era extrovertido, adorava conhecer gente.

Raramente checava o Facebook antes de sair para o escritório.

Mas naquele dia teria tantas reuniões que resolveu checar ainda de casa.

Aceitou a amizade de uma brasileira desconhecida.

E foi assim que começou.

Durante dois anos namoraram online.

Mudaram o status do relacionamento.

Todo mundo deu parabéns, nas respectivas linhas do tempo.

Naquela época, preferiam trocar mensagens de texto.

Fizeram planos.

Várias vezes.

Planos de se encontrar em Londres, em Paris, em Bilbao.

Quanto mais passava o tempo, mais especial precisaria ser.

Juntaram dinheiro, mas nunca conseguiram sincronizar as viagens.

Com o tempo se acostumaram com aquela relação.

Se encontravam no fim do dia dela, início do dele.

No fundo, os dois estavam acostumados a viver sozinhos.

Depois de uns meses de namoro, os contatos passaram a ser por vídeo.

Mais frequentes.

Ela e ele compraram monitores 4K que ficavam o dia inteiro conectados.

Ela colava lembranças dele em volta do monitor.

Ele colocou leds coloridos que acendiam quando ela aparecia.

A casa de cada um, era a extensão da do outro, naqueles monitores.

Ela chorou junto quando o border collie dele morreu.

Ele a consolou quando a mãe morreu.

Eram felizes assim.

Ele lá, ela cá.

Quando brigavam, raramente, desligavam os monitores.

Depois de 8 anos de namoro, lançaram os primeiros scanners de DNA domésticos.

Da Samsung.

Decidiram ter um filho.

Assinaram um serviço de inseminação artificial à distância.

Ele mandou o arquivo com seu código genético.

Ela engravidou na primeira tentativa.

Ele acompanhou o parto pelos óculos do médico.

Tiveram gêmeos.

Um casal.

A decisão foi difícil, mas concluíram que os gêmeos deveriam morar cada um em um país.

Isso de serem gêmeos acabou sendo providencial.

A menina foi para a Austrália, quando completou 3 anos.

O garoto ficou com a mãe, no Brasil.

Os irmãos brincavam online todos os dias.

Cresceram.

A menina foi estudar na Austrália.

O menino fez MIT, engenharia espacial.

A menina, é médica e trabalha para os Médicos Sem Fronteira. No Maranhão.

O tempo passou voando, como sempre acontece.

Ele, já beirando os 80 anos, ainda era muito ativo.

Ela ficava em casa o dia todo.

Sempre gostou de ficar sozinha.

Então, três dias se passaram sem que ele a visse.

Ficou preocupado.

Mas a memória não era mais a mesma.

Cada dia que passava sem vê-la, era o primeiro dia.

Perdeu a noção de quanto tempo ficou sem ver sua mulher.

Só se deu conta do que havia acontecido quando abriu a porta para os gêmeos.

Algumas notícias só se dão pessoalmente.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado no blog Não Conte para a Mamãe.

Mentor Muniz Neto
São Paulo, 18/2/2014

 

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