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Quarta-feira, 19/3/2014
Mente Turbinada e Brasil na Copa
Marilia Mota Silva

Em fins do século passado, décadas depois da conquista do espaço e da fissão nuclear, os cientistas finalmente perceberam um fato elementar sobre nós mesmos: nosso cérebro não é um sistema passivo, com determinado número de neurônios que se gastam com o tempo, como se acreditava desde sempre. Nossa mente é maleável. Sua anatomia física e funcional reage a nosso pensamento, atividades e interesses. A partir de então, as neurociências ganharam espaço na mídia e o crescente interesse do público.

Em 2002, a PBS americana (canal público de televisão), criou a minissérie The Secret Life of the Brain, mostrando como a mente se desenvolve desde a infância até a velhice. Em 2008, a mesma PBS realizou documentários em que neurocientistas falam de suas pesquisas e conclusões obtidas graças à tecnologia, que permite estudar os circuitos da mente em atividade: The Brain Fitness Program e Brain Fitness 2: Sight & Sound. Nesse último, nos "extras", uma cientista narra uma experiência feita com um grupo de voluntários que demonstra a rapidez com que nossa mente se adapta. Essas pessoas tiveram os olhos totalmente vendados durante cinco dias. Ao fim desse breve período, o córtex, que controla a visão, tinha construído pontes com os neurônios controladores das pontas dos dedos e da audição. Os "cegos" passaram a "enxergar" com as mãos e os ouvidos.

Que os cegos, compensando a falta de visão, apuram os outros sentidos, já se sabia. A surpresa foi constatar a base biológica desse fato e, principalmente, a rapidez com que o cérebro se adapta, refazendo ligações, criando atalhos.

Ano passado, os estudos da mente, de doenças como Alzheimer e autismo, cuja incidência aumentou exponencialmente nos últimos anos, ganharam um novo impulso, quando Obama anunciou o projeto Brain Iniciative:

"Podemos identificar galáxias a anos-luz de de distância, podemos estudar partículas menores que o átomo. Mas ainda não descobrimos o mistério desse quilo e meio de massa cinzenta que se situa entre nossas orelhas", Obama disse no discurso em que anunciou o programa. "...Ainda somos incapazes de curar doenças como Alzheimer ou autismo, e ainda não sabemos como reverter completamente os efeitos de derrames cerebrais....Não vai ser fácil. Mas pensem no que podemos fazer quando decifrarmos esse código. Imaginem quando nenhuma família tiver que assistir impotente à pessoa amada desaparecer sob a máscara de Parkinson ou na luta contra a epilepsia". Bem-vinda iniciativa.

O neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis incluiu o Brasil nessa corrida, ligando a universidade de Duke (NC), onde é professor, ao Instituto Internacional de Neurociência de Natal, (RN), idealizado por ele.

Suas pesquisas, conectando cérebros de ratos à distância, um em Natal, outro em Carolina do Norte, desafiam mesmo a imaginação mais ousada: qual o potencial de várias mentes interconectadas, à distância, como um computador orgânico?

Outro projeto empolgante é o Andar de Novo, (em parceria com Estados Unidos e Europa) que deve ser apresentado na abertura da Copa do Mundo, quando um paciente paraplégico, depois de caminhar alguns passos, dará o chute inicial, abrindo os jogos. Essa pessoa usará uma veste robótica - chamada exoesqueleto - que será controlada apenas com sua atividade cerebral. Nicolelis explica: "As mensagens fornecidas pelo cérebro, como a vontade de andar, de se mexer ou de parar, serão captadas pelo robô para que os movimentos sejam gerados. E o exoesqueleto também devolverá ao paciente sensações do mundo exterior".

"Vai ser como colocar o homem na lua", diz Nicolelis: "Eu gosto de usar essa metáfora, porque é conquistar um patamar, um grau de audácia e inovação que as pessoas fora do Brasil não estão acostumadas a associar ao Brasil".

O Instituto de Miguel Nicolelis dedica-se também a outro estudo que gera grande expectativa: um novo tratamento para a Doença de Parkinson.

O escritor Rodolfo Motta Rezende, vencedor do Concurso Literário Civilização Brasileira de 1994, com o romance Terra, Céu e Aruanda, é um dos maiores entusiastas desse trabalho:

"Como um parkinsoniano de carteirinha já sinto vontade de começar a festa! Acompanho com o maior interesse as informações já abundantes na midia, e creio que não deve faltar muito para que essas doenças sejam eliminadas do nosso cenário".

Os avanços da neurociência, que a tecnologia torna possíveis, justificam esse otimismo. E enquanto se prepara esse futuro, academias de ginástica para o cérebro começam a surgir, em todo o país:

Cottage Center for Brain Fitness, em Santa Barbara, Brain Health Center, em San Francisco, Brain Fitness Check-up, da Neocorta, Washington, DC. Chicago Center for Cognitive Wellness são algumas delas, que Patricia Marx descreve em artigo na revista The New Yorker, de julho passado.

E para quem não quer sair de casa, há jogos online a escolher: Cogmed, Lumosity, Brain Games, Jungle Memory, GogniFit, MindSparke, MyBrain Solutions, Brain Spa, Brain Tivity, Brainiversity, Brain Metrix, Mind Quiz e muitos outros.

A moda é corpo saudável e mente turbinada. Barriga de tanquinho, bíceps fantásticos são tão século passado!

Marilia Mota Silva
Washington, 19/3/2014

 

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