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Sexta-feira, 1/2/2002
Seu Mauro
Marcelo Guedes Nunes

O Seu Mauro tem 85 anos, 68 de casado e 3 filhos. É há 60 ascensorista de elevador. Do mesmo elevador. Vai todo domingo à Igreja, reza com a mulher e os filhos, se confessa, paga as penitências e o dízimo. Não reclama do salário, da rotina (e que rotina!), da saúde e da vida. Acha que o que lhe deram é mais do que merecia. Acha que a graça de viver está nas coisas simples. Acha que ajudar aos mais pobres é gratificante. E acha que todos os homens são bons e os que parecem ser maus estão, na verdade, desorientados e precisam de ajuda. O Seu Mauro é personificação da bondade católica. Se há um paraíso (a gente nunca sabe) e se há um Criador com um mínimo senso de gratidão para com quem acreditou na Sua existência (mesmo sem nenhuma evidência), ele sem dúvida deve ter o Seu Mauro na mais alta conta. Quando morrer, o Seu Mauro com certeza será recebido no Paraíso com honras de Estado e será nomeado ministro, embaixador, um figurão importante. Passará a ser chamado de São Mauro. Já eu sou do tipo que todas as religiões condenam, sem titubear, a vagar pelo limbo eterno, remoendo o bagaço da incredulidade. Se Deus existir e for tão exigente como dizem, Ele certamente me reservará um destino nada agradável, pior que o do pai do Hamlet. Só creio no que vejo (sou fervoroso discípulo do São Tomé da primeira fase) e no que a razão é capaz de demonstrar. Não acredito na bondade das pessoas. Elas são todas iguais, preocupadas com a sobrevivência, facilmente irritáveis, relativamente egoístas, bastante ciumentas e um pouco medrosas. Antes de dar esmola sempre penso no que de bom eu poderia comprar com aquele dinheiro. Por isso nunca dou esmolas. Gosto de quem gosta de mim, com exceção de uma vizinha loira recém chegada em meu prédio, que não me dá bola. Me divirto com algumas coisas simples da vida, porém aprecio ainda mais as sofisticadas: entre minha fazenda no interior de SP e Veneza ou misto quente e magret de canard, fico com os últimos. Acho que dinheiro é bom, que é mais provável o mundo ser dos espertos do que dos escolhidos e às vezes, confesso, tenho raiva de mendigos impertinentes e mal cheirosos. Não acredito em vida após a morte, em poder da mente, em espíritos, em anjos da guarda e não acredito que a caridade seja capaz de fazer os homens mais felizes.
Segundo a maioria das religiões, preciso ser exorcizado imediatamente, antes que comece a beber o sangue de virgens loiras em rituais satânicos à meia noite.

Um Sonho Ruim 1
Mas e se eu estiver errado? E se houver vida após a morte? Essa semana tive um sonho ruim sobre o assunto.
Me vi morto, andando em direção a um portal dourado cercado de pequenas nuvens brancas, surpreso com tudo o que estava acontecendo. Mas não é que era verdade? Quando estava por entrar no paraíso, o anjo Gabriel esticou o braço e disse:
- Meia volta, rapaz, você não falava que era tudo uma bobagem, que religião era coisa de gente ignorante?
Por mais que eu tentasse me explicar, saindo com aquela do Bertrand Russell, que reclamou da falta de evidências para se chegar a qualquer conclusão, o anjo Gabriel permaneceu irredutível:
- É tudo uma questão de fé. É aquela história: felizes dos que acreditam sem ver. Agora a coisa está preta para o seu lado. Ainda tentei convencê-lo de que esse espírito vingativo e ressentido não condizia com uma religião que prega o perdão e a fraternidade, que eu merecia mais uma chance e que eu ia melhorar (juro! juro!). Mas, diabos, o anjo não cedia um centímetro:
- Não. Depois de morto não vale.
Numa última tentativa, argumentei que o Seu Mauro tinha sido um grande conhecido meu, lá na terra.
- O Seu Mauro?
- Sim. O Seu Mauro, em pessoa.
O anjo Gabriel olhou desconfiado, franzindo as sobrancelhas.
- O que era ascensorista na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio?
- Não é do meu feitio sair por aí me exibindo, mas... esse mesmo. Ele foi ascensorista de um prédio onde trabalhei. Nos falávamos todo dia.
- Qual é o seu nome, rapaz?
Marcelo Guedes Nunes, eu disse, já olhando impaciente o relógio ("esse anjo idiota vai ver só quando o Seu Mauro souber o que está acontecendo por aqui").
Após uma rápida ligação (no Paraíso o celular pega em qualquer lugar), o anjo Gabriel me pediu para esperar um momento. Dez minutos depois, uma enorme carruagem de fogo parou ao lado dele. A porta se abriu e o Seu Mauro desceu. Fiquei de longe, só observando.
O anjo disse alguma coisa e o Seu Mauro respondeu no ato. O anjo coçou o queixo e balançou a cabeça desaprovando. O Seu Mauro insistiu: abriu a Bíblia e leu um ou dois versículos, que falavam da importância do perdão. O anjo parou, pensou um pouco, pegou a Bíblia das mãos do Seu Mauro, abriu em outra página e leu outro versículo, que descrevia as penitências que os hereges devem sofrer.
- Se eu liberar por aqui, disse o anjo, o pessoal lá embaixo vai começar a aprontar todas.
O Seu Mauro ouviu compenetrado por alguns minutos, até balançar a cabeça, concordando. Sem dizer mais nada, entrou de novo na carruagem. Antes, porém, de fechar a porta, olhou para mim e acenou pela última vez, com um ar desolado.
Nem o Seu Mauro tinha dado jeito. Eu estava condenado à danação eterna. Desesperado, dei meia volta e, após uma tentativa mal sucedida de pular o muro, fui conduzido resignado em direção às escadas do Inferno. Num derradeiro esforço, pedi ao anjo para falar com um advogado. Rindo, ele disse:
- Advogados? Dentro em breve você estará cercado deles.

Um Sonho Ruim 2
Religiões existem para todos os gostos. As que adoram dinheiro (para adular os ricos), as que o repudiam (para consolar os pobres). As que fazem apologia ao uso de drogas, as que abominam o uso de drogas. Algumas são divertidas e alegres (como a que cultua Elvis Presley), mais adequadas às personalidades expansivas, outras são mais fúnebres, para agradar aos mais compenetrados e introspectivos.
Mas uma me assusta especialmente. Não sei em que parte do Oriente, tem um povo que afirma que cada um vai para o Paraíso em que acredita. É só mentalizar e concentrar todo o fluxo dos seus poderosíssimos pensamentos num só ponto de convergência, que seu sonho se tornará realidade. Agora, imaginem só: segundo esta religião, eu, que não acredito em nada, vou simplesmente deixar de existir, enquanto todo o pessoal vai estar na maior farra com dezenas de virgens safadas.
Seria muito azar...

Marcelo Guedes Nunes
São Paulo, 1/2/2002

 

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