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Quarta-feira, 6/2/2002
Ele, Francis
Paulo Polzonoff Jr

Há cinco anos, o Brasil perdeu uma de suas mentes mais brilhantes. Nem se deu conta, como sempre acontece em se tratando de Brasil. Era véspera de Carnaval, como agora, e as pessoas estavam pensando mesmo era na Globeleza. Morreu de ataque cardíaco numa manhã de inverno nova-iorquino. Sim, porque, apesar de ser uma das mais brilhantes mentes brasileiras, resolveu sair do País, indignado com os rumos que a Pátria Amada ia tomando naqueles longínquos anos 70. O ataque cardíaco foi fulminante. Há quem diga que ele estava muito nervoso nos últimos meses, por conta de um processo que um presidente de estatal movia contra ele, e cuja indenização pedida chegava a US$ 100 milhões. Morreu, no dia 4 de fevereiro de 1997, Paulo Francis.

A simples menção do nome Paulo Francis numa roda de amigos pode gerar alguma discórdia. Obviamente entre aqueles que o conhecem, algo que está ficando cada vez mais difícil de encontrar. Francis era isso: discussão. Até consigo próprio dava às vezes a impressão de não se entender. Na juventude e até os quarenta anos, foi um trotskista ferrenho. Acreditava no comunismo de idéias. Depois, já em solo americano, deu uma guinada para a direita, tornando-se um dos expoentes de nosso pensamento conservador.

Paulo Francis nasceu Franz Paul Trannin Heilborn em 3 de setembro de 1930, no Rio de Janeiro, filho de uma família tipicamente alemã. Educado, segundo ele, à base de muita violência, no prestigioso colégio São Bento, começou sua carreira não como jornalista, mas como funcionário de uma empresa de aviação. Foi também ator e até que tentou a direção. Os palcos, porém, não comportavam a crítica e a auto-crítica de Paulo Francis. O caminho natural foi, portanto, o jornal (refúgio dos velhos frustrados, como reza o lugar-comum). Ali, começou escrevendo crítica de teatro. Não poupou ninguém. Ícones da época, como Dercy Gonçalves, foram esfacelados pela pena de Francis, que queria um teatro novo, de idéias, de discussão, um teatro mais... artístico.

De crítico teatral passou a editorialista, a redator, a articulista, até virar nome da coluna que foi, durante quase três décadas, a de maior prestígio no Brasil. Em uma página de jornal, primeiro na Folha de São Paulo, de onde saiu escorraçado por Bóris Casoy & Cia, e mais tarde no O Estado de São Paulo, ele destilava o que havia de melhor e pior no Brasil e no mundo. Era, por assim dizer, um marcador de nível, que conseguia desagradar tanto à esquerda, quanto à direita. Nos últimos anos, também participou do programa de TV a cabo Manhattan Conection, conduzido por Lucas Mendes, com Caio Blinder e Nelson Motta no staff fixo. Francis era um show à parte neste programa. Principalmente quando perdia a paciência com seu desafeto, Blinder.

Apesar de, no fim da vida, assumir que se interessava mais por ballet e pintura do que por livros e cinemas, sempre foi um leitor voraz. Jornais e livros faziam parte de sua rotina. Em suas memórias precoces, intituladas O Afeto que se Encerra, ele diz que lia, a certa altura da vida, mais de seis horas por dia. Entre os livros que mais o impressionaram nesta época estão Crime e Castigo, de Dostoievsky, e Suave é a Noite, de F. Scott Fitzgerald. Francis era também um apaixonado por teatro, psicanálise e filosofia. Seus dramaturgos preferidos eram Bernard Shaw e Bertold Brecht. Também admirava Ibsen. Freud foi, para a vida inteira, uma referência. Como muitos pensadores deste século, achava que Freud tinha criado um olhar novo sobre o ser humano. Era, portanto, mais um filósofo que um médico propriamente dito. Na filosofia, nomes comumente citados por ele eram Wittgenstein, Nietzsche e Santo Agostinho.

No campo musical era onde Paulo Francis se tornava mais controverso. Amava ópera, principalmente Wagner (Tristão e Isolda) e Mozart. No jazz, não escondia sua admiração por Louis Armstrong e Billie Holliday. O problema era quando ele entrava no campo do rock, gênero que simplesmente abominava. Certa vez, escreveu que gente como os Beatles, no tempo de Mozart, estaria fadada a limpar os membros dos cavalos, e não fazer o sucesso absurdo que faziam (fazem). Uma de suas matérias mais interessantes é sobre a morte de John Lennon, em 1980. Francis deu de ombros para o sentimentalismo que imperava na imprensa e soltou o verbo tanto para cima de Lennon quanto de Yoko Ono.

Paulo Francis tinha, contudo, seus pontos fracos, que eram justamente seus romances. Cabeça de Negro, Cabeça de Papel e As Filhas do Segundo Sexo tiveram algum sucesso de público, mas a crítica simplesmente os execrou. Francis não escondia que acreditava que a imortalidade só existia para os que sabiam criar, algo que nele era deficiente. O romancista sofrível, contudo, era um grande cronista do cotidiano. Verborrágico, contundente e contraditório, é, ainda hoje, leitura obrigatória para quem se interesse um mínimo por comportamento e cultura.

Poucas são as obras deixadas por Francis em livro. Quem não quiser se enfurnar numa daquelas maquininhas de microfilme da Biblioteca Pública terá de se contentar com as coletâneas Paulo Francis Nu e Cru, fora de catálogo, mas que pode ser encontrada sem muito esforço em sebos, e principalmente Waal O Dicionário da Corte de Paulo Francis, organizada por Daniel Piza, e que traz um pouco do veneno de Francis publicado sobretudo na década de 90, em sua coluna.

Hoje em dia, muitos tentam ser Paulo Francis. O amigo Élio Gaspari é o que mais chega perto. Falta-lhe, contudo, o humor ácido quase nítrico de Francis. Arnaldo Jabor, sobretudo na televisão, pretende fazer o estilo Francis, mas, convenhamos, falta-lhe credibilidade. Diogo Mainardi, escrevendo para a Bíblia da classe-média, a Veja, cria polêmicas vazias e acha que, assim, estará construindo um mito pessoal à altura de Francis. E o admirador Daniel Piza, em O Estado de São Paulo, tampouco tem a contundência necessária para se igualar ao mestre dele. O fato é que todos estes (à exceção de Gaspari, que vem fazendo o mesmo trabalho muito antes de Paulo Francis morrer) tentam copiar um modelo que já não encontra eco nem na própria imprensa, nem no público, alheio a querelas estéticas.

Há ainda quem duvide do vazio deixado por Paulo Francis no estreitíssimo mundo das idéias. Para se ter uma noção de o quanto o silêncio com aquela dicção mui peculiar que onze em cada dez humoristas e aspirantes imitam, basta pensar nos acontecimentos recentes nos EUA, tais quais a eleição conturbada de George Bush e os atentados terroristas de 11 de setembro. O que Paulo Francis estaria escrevendo sobre o fenômeno Roseana Sarney (em 1986 Francis disse que o Brasil era governado por um jeca, no caso, o pai da presidenciável)? O que ele diria sobre o Fórum Social Mundial, que está sendo realizado em Porto Alegre, apelidado, de antemão, de Disneylândia da Esquerda? E sobre a crise de nuestros hermanos argentinos?

Disneylândia de esquerda

Eu não ia falar nada sobre esse assunto, mas não dá para ficar quieto. Lendo, ouvindo, vendo sobre o Fórum Social Mundial, que está sendo realizado em Porto Alegre, chego a ter saudades de coisas como a Passeata dos Cem Mil, nos anos sessenta. É possível que, ainda hoje, em pleno século XXI, pessoas criem bordões tipo ao-ão-ão-eu-quero-meu-feijão, a fim de mudarem o mundo? Sim, basta dar uma olhadinha lá para as bandas do Rio Guaíba, que nestes dias vira o paraíso da correção política. Algo que fazer inveja a qualquer utopia. Lá estão negros, homossexuais, mulheres, banqueiros, sem-terra, argentinos, muçulmanos, sociólogos e apreciadores de uma certa erva, todos a fazendo coro contra o Fórum Econômico Mundial, que é realizado simultaneamente, em Nova York. Diversidade, os gays pedem respeito, as mulheres pedem respeito, os sem-terra pedem respeito, os banqueiros pedem respeito e os apreciadores de certa erva não pedem nada, ficam lá, só olhando, admirando como o mundo pode ser belo quando tingido de vermelho. Entre as estrelas desta Disneylândia de Esquerda (nada contra a Disneylândia, por favor) Noam Chomsky e Frei Betto, o Mickey e o Pluto desta festa que deixa sociólogos com os olhos rasos d´água. Eu não ia falar nada sobre esse assunto, mas não dá para ficar quieto.

Paulo Polzonoff Jr
Rio de Janeiro, 6/2/2002

 

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