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Quinta-feira, 2/10/2014
Hércules reduzido a lenda
Carla Ceres

Os trailers de Hércules (2014), de Brett Ratner, acenavam com encantamento e decepção para os apreciadores da mitologia grega. Impossível não vibrar por antecipação e reconhecimento, com as cenas do leão de Nemeia, do javali de Erimanto, da Hidra de Lerna e do cão Cérbero. Os cenários e as lutas tiravam o fôlego pela grandiosidade, mas algo parecia fora de lugar. Sério mesmo que Hércules estava afirmando desejar somente ser marido e pai? Pior, ele negava o fato de ser um herói e procurava fugir de seu destino mesmo após executar tantos trabalhos? E que história era aquela de vingar a morte de sua esposa e filhos? Pra começo de conversa, foi o próprio Hércules quem os matou em um surto de loucura causado pela deusa Hera. É como penitência por esse crime que o oráculo de Delfos manda o herói realizar seus famosos trabalhos.

Claro que, dependendo da fonte clássica utilizada, podemos encontrar versões diferentes de vários mitos. Segundo alguns autores, por exemplo, a esposa de Hércules sobreviveu e se casou com Iolau, sobrinho e eromenos do herói. O filme, entretanto, se baseia em uma graphic novel e procura (nada mais atual) revelar o homem por trás da lenda. Na minha opinião, essa é uma opção de leitura empobrecedora, especialmente quando distorce o mito a seu bel-prazer, com a intenção de validar suas explicações.

O que faz aquela arqueira jurando lutar e morrer por Hércules? Trata-se de Atalanta, a protetora do herói e filha de uma rainha amazona. Isso não tem cabimento. Infeliz do herói que precisa de protetora humana. Segundo o material de divulgação, a família da moça foi exterminada e ela se juntou ao grupo de mercenários de Hércules. Que desaforo à mitologia! Se queriam mostrar Hércules trabalhando em equipe, deveriam filmar suas aventuras ao lado dos argonautas, um grupo de heróis liderado por Jasão, em busca do velo de ouro. Esses, sim, trabalhavam em conjunto, cada um explorando seus superpoderes específicos. Precursores dos X-Men e dos Vingadores, os cerca de cinquenta argonautas contaram com a presença de Hércules por pouco tempo, quase uma participação especial. A Atalanta da mitologia era uma argonauta. Heroína caçadora, possuía supervelocidade, mas sua mãe não era uma rainha amazona. Talvez os roteiristas tenham se confundido com a Mulher Maravilha.

Outro argonauta que aparece no filme é o adivinho Anfiarau. Numa trama que joga sujo para desmistificar os mitos, Anfiarau vale mais como guerreiro do que como adivinho. Mas isso não é nada perto do que fazem com o também argonauta Iolau. O rapaz aparece como um contador de histórias, cuja missão é espalhar a lenda de Hércules. Na mitologia, Iolau ajuda Hércules a matar a Hidra de Lerna. Cada vez que o herói decepava uma das cabeças do monstro, outras duas cabeças surgiam no lugar. Coube a Iolau cauterizar os ferimentos, impedindo que novas cabeças aparecessem.

Alguns pesquisadores consideram a possibilidade de que o mito de Hércules tenha se construído a partir de um homem real que tenha vivido em Argos. Outros estudiosos sugerem que seus doze trabalhos sejam uma referência alegórica à passagem do sol pelos doze signos do zodíaco. Uma terceira hipótese alega que o mito se formou a partir de mitos mais antigos, de origem indo-europeia (pré-grega), egípcia, asiática e de outros povos com os quais os gregos fizeram contato. A terceira hipótese me parece mais provável, mesmo porque não exclui totalmente as anteriores.

Hércules não é uma simples lenda. É um mito, uma divindade que foi cultuada em locais, datas e rituais específicos. Sua relevância para o mundo atual vai além do entretenimento rasteiro e da curiosidade histórica sobre as crenças dos antigos gregos. Ele traz uma riqueza arquetípica irredutível. Hércules precisa ser um semideus porque representa os humanos em todas as situações extremas possíveis. Seu potencial divino convive com momentos de loucura furiosa. Ele paga pelos erros dos pais; fere a quem mais ama; sofre com o remorso; pensa em suicídio; expia seus crimes; sofre e comete injustiças; é morto por alguém em quem confia; desce aos infernos; vence a morte; torna-se divino.

Dwayne Johnson foi uma escolha perfeita para interpretar o protagonista. Até o tom da sua pele condiz com a iconografia do herói. As representações de Hércules mostravam-no moreno bronzeado, quase negro, para simbolizar sua grande força. A relação entre pele bronzeada e força física devia-se ao fato de que os atletas ganhavam força exercitando-se ao sol. Pele clara era atributo de mulheres fisicamente fracas. Atalanta, como heroína, estaria melhor representada por uma atriz de pele morena. O filme acerta muito no tocante a visual, ação e aventura, mas peca ao optar por uma abordagem nada fantástica e empobrecer o mito.

Nota do Editor
Carla Ceres mantém o blog Algo além dos Livros. http://carlaceres.blogspot.com/

Carla Ceres
Piracicaba, 2/10/2014

 

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