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Quarta-feira, 6/5/2015
O Jagunço degolado
Wellington Machado

O Jagunço ficaria sem cabeça. Ele soube de tudo, viu tudo, mas a lembrança da terra quente e seca, dos pés encrostados, cairia com sua cabeça. Cairiam também as imagens da ossatura das montanhas ao longe, que produziam ecos de silêncio sem fim, sob o sol incolor de tanta luz refletida. O jagunço de tão fino não se destoava dos "arbúsculos quase sem pega sobre a terra escassa". Havia ali uma lagoa que há muito não produzia reflexo de tão ausente. Lagoa de memória. Uma água sedenta, que supriu boi, que virou carne deitada na poeira, boi-pó. O Jagunço passou ali e viu carcaça de chifres, mandacarus pelados e tristes. Era Monte Santo, sem chuva quase toda vida. Canudos atraiu o homem para a fome, a esqualidez. Um arraial labiríntico de pau, barro e pedras indiferentes. O Jagunço que viria a perder cabeça, desmemorizando-se, corria com desenvoltura no labirinto de Canudos. O sol era. Tão que fazia um soldado descansar imóvel no chão — por três meses qual boi seco. O milico era um restolho de uma batalha vencida pela jagunçada de Canudos, a primeira de uma série de muita gente que ia chegando para degolar a inocência. Jagunço travou combate, com raiva de chutar o soldado seco, mumificado e sem verme, espalhando a ossada inofensiva. Sola de pé de Jagunço é ferro com ferrugem; ignora espinho. Umbuzeiro é carne e água do sertão. O fruto umbu faz bem pro bucho, mantém a espera. O sertão empedra o solo, desnuda a flora sem deixar silhueta e vai abrindo fissura. Jagunço esfomeado revida na guerra. O sertão é salitre pra pólvora de bacamarte, que mira nas ventas dos soldados da república. É muita gente que vem. Jagunço não viu Euclides em reportagem, à espreita. Conselheiro aconselha rezar. Isso tudo é aquele lugar; mediações de Canudos. Assim é a TERRA.

Jagunço é mameluco, igual a qualquer outro jagunço do sertão. É tudo tudo igual ao igual. Difícil saber qual é um no igual. Jagunçada parelha em pele. É uma tropa "desgraciosa", gente torta no andar, desengonçados que dão ânsia de rir da miseragem. O Jagunço e a jagunçada sofrem da moléstia diária de "translação de membros desarticulados, postura abatida, humildade deprimente". O ser jagunço é cócoras o tempo todo quando em prosa. Dedão grande do pé dá conta do corpo. De tanto não dormir e pesar a vida de trabalho põe a juventude em rugas logo cedo. Mas o Jagunço que será desmemorizado em futuras degolanças faz fita de cansaço mas esconde forças nas entranhas. Transmuda-se e a cabeça se eleva atenta ao inimigo, "sobre ombros possantes, aclarada pelo olhar desassombrado e forte; e corrigem-se-lhe numa descarga nervosa instantânea" contra as fardas que vêm das rugas da terra. É a guerra! Jagunçada é certeira; não desperdiça músculo. Não erra o gume mesmo na cegueira da luz que esmerila as retinas. Conselheiro aconselha rezar no pé dos oratórios das capelas erguidas por eles, jagunços mesmos, de humor mínguo. Jagunço não viu Euclides ao longe, em reportagem. Isso é aquele ser, o HOMEM.

Jagunço degolado em acontecer viu chegar gente de farda. Era muita gente da segunda vez. Canudos é formigueiro, não perdoa soldado no labirinto. Poeira é parceira. Vem cambada! Deixa a fome ser, pois Jagunço não perde força. Era pedregulho com salitre nas armas soltando fogo sem rumo. Enxofre prenuncia. Jagunço passa a foice. E veio mais gente de farda e as rezas cumpriram promessa com reforço das mulheres. Militar é faminto, não saber rasgar sertão e quedam pros matutos. Jagunço e jagunçada seguem conselho de rezar, de levantar igrejas com torres, de construir Canudos muitas vezes. As poeiras das batalhas não fazem tossir. E veio mais gente de milícia da cidade, pra mais de formigueiro. E veio mais farda com arma boa. E vieram balas dos canos urbanos. Balas de canhões brutos, de derrubar arraial. E veio mais gente sem dar pra contar mais de dor de perda. Tudo tombou em pó. Jagunço seguia conselho de rezar com os poucos jagunços de sobra. Canudos é o chão. O sol arde em tudo que escorre sangue. Euclides em reportagem. Jagunço esqueceu pra sempre no gume. Isso tudo é LUTA.

Wellington Machado
Belo Horizonte, 6/5/2015

 

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