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Quarta-feira, 22/7/2015
O romance do 'e se...'
Cassionei Niches Petry

E se não tivéssemos saído de casa naquele dia fatídico? E se eu não tivesse parado para amarrar os tênis antes de passar por baixo da marquise que desabou? E se você tivesse ficado em casa naquele dia em que conheceu a namorada na boate? E se Tancredo Neves não tivesse morrido? E se não existisse literatura?

Se eu não conhecesse a obra anterior de Miguel Sanches Neto, talvez não tivesse lido seu recente romance. A narrativa poética e memorialística de Chove sobre a minha infância, os romances com tintas de história em O amor anarquista e A máquina de madeira e os contos das coletâneas Hóspede secreto e Então você quer ser escritor?, assim como as crônicas sobre livros em Herdando uma biblioteca, mostraram um autor experimentado e dono de um estilo próprio, alimentado por leituras e reflexões a partir da condição de crítico literário, atividade que abandonou para se dedicar à elaboração de A segunda pátria (Intrínseca, 320 páginas).

Se Getúlio Vargas se aliasse a Adolf Hitler e cedesse a posse dos Estados com forte colonização alemã ao regime nazista, o que aconteceria? Com essa premissa, o escritor paranaense cria uma realidade paralela (possível de ter acontecido, diga-se de passagem) e solta a imaginação. Esse painel histórico alternativo, porém, não nos é contado a partir da macro mas sim da micro história. O ângulo escolhido é o reflexo do horror nazista nas pessoas comuns.

E se a perseguição nazista acontecesse numa sociedade recém-saída da escravidão dos negros e praticamente sem a presença de judeus? Com a justificativa da pureza da raça ariana, os descendentes africanos seriam os primeiros a sofrerem. É o que acontece na cidade de Blumenau, em Santa Catarina, com Adolpho Ventura. Apadrinhado por um alemão para quem seus pais trabalharam, o jovem recebeu boa educação e oportunidade de se formar engenheiro. Aprendeu a falar alemão e aprecia a literatura da terra de Goethe. Trabalhando como engenheiro na prefeitura, tem agora sua casa própria e cria sozinho um filho cuja mãe, de descendência alemã, não podia criá-lo. Com as novas leis, no entanto, as pessoas começam a se afastar dele e logo o obrigam a deixar o emprego e a casa. Esse era um sentimento que aumentava a cada dia. Não queriam mais a sua presença no serviço. Nem na cidade. Ele cruzara uma fronteira. Por fim, é obrigado a trabalhar em uma fazenda como escravo. O horror está estabelecido.

E se o enredo fosse contado a partir de outro ponto de vista? Pois o foco narrativo muda na segunda parte do enredo e se cola na figura de Hertha, jovem branca, criada pelo tio alemão. Tendo como fachada a atividade de pianista, ela na verdade presta serviços sexuais. O seu maior "recital" acontece em Porto Alegre e tem como "ouvinte" uma grande figura da época. Simpatizante do nazismo num primeiro momento, chegando a fazer parte da juventude hitlerista, ela passa, assim como o tio, a questionar o regime. Por isso, também são perseguidos. E é o tio quem faz uma interessante reflexão sobre a igualdade e a mistura de raças, através de uma comparação com as florestas nativas e as plantadas:

Karl ergueu o arame da cerca para Hertha e também passou pela fresta. Andaram no meio dos eucaliptos eretos, plantados em linha reta, com espaçamento fixo. O chão estava sem mato. Era fresco ali, e tudo tinha um cheiro forte de produto químico, liberado pelas folhas e cascas das árvores.
- Para mim, as florestas deviam ser todas assim, iguais, regulares. Demorei a me acostumar com as florestas tropicais, com a fartura, o excesso, a confusão. A gente olhava uma árvore e via o galho florido da outra dentro de sua copa.
Após um breve silêncio, Karl disse:
- Promiscuidade.
- O quê? - Hertha achou que ele a acusava.
- Uma floresta promíscua, mas muito rica, muito viva. Eu queria uma floresta militar.


Se Miguel Sanches Neto freasse sua imaginação e não recriasse os fatos históricos, ou melhor, não os invertesse, e não se furtasse inclusive de mudar a forma da morte de um chefe político importantíssimo, chegando a antecipá-la na linha do tempo da História, teríamos um romance mediano, pois falha em alguns pontos. Não desenvolveu, por exemplo, algumas personagens, que aparecem muito rapidamente, apesar de assumirem papéis relevantes. Também obscureceu em demasia a identidade da mãe da criança de Adolpho de tal maneira que, quando revelada, se tornou inverossímil, pelo menos para este leitor que não encontrou o elo e não identificou as mudanças de discurso temporal da narrativa. Esse hermetismo destoou do resto do romance. Saímos, no entanto, extasiados pelo enredo, um dos mais originais da literatura brasileira.

E se esse livro virasse filme? Pois parece que vai, pois os direitos de filmagem já foram comprados. Confesso que espero ansioso para ver audácia de Sanches Neto na grande tela. É uma obra que ainda dará muito que falar.

Cassionei Niches Petry
Santa Cruz do Sul, 22/7/2015

 

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