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Quarta-feira, 26/8/2015
Pantanal
Marilia Mota Silva

É preciso estar determinada para viajar à meia-noite, com quatro crianças acostumadas a dormir às oito horas. Esse foi o único horário que encontramos, 23:52 para ser exata, de voo direto Rio-Cuiabá. Os outros faziam conexões diversas que acrescentavam pousos e decolagens e horas consideráveis à jornada. Mas, como estávamos mesmo determinados a conhecer o Pantanal nessas férias, fomos em frente.

Vou poupá-los dos detalhes das primeiras horas: a chegada a Cuiabá, o hotel difícil de localizar, na alta madrugada, porque tem um nome online e outro "in loco"; as "reservas vencidas" por ser mais de meia-noite, embora eles estivessem avisados da nossa hora de chegada, e depois de algum impasse, as crianças se deitando nas mochilas, finalmente receber chaves de quartos já ocupados. Detalhes. Antes das quatro da manhã, finalmente pudemos descansar.

A boa notícia é que as "ilhas de excelência" no Brasil estão por toda a parte. Essa viagem, por exemplo, a despeito do começo atrapalhado, foi uma dessas ilhas de profissionalismo. Valeu cada minuto.

Do hotel à Pousada, percorremos cerca de 120 km através de cenários naturais belíssimos, em que a presença humana interfere pouco. Me lembrou o deserto que cobre boa parte do oeste americano. Ali também a estrada é um dos poucos sinais da presença humana. Ali também se pode entrever a soberania da Terra, a beleza da natureza sem a nossa presença. Só que no oeste americano, a faixa escura de asfalto corta um paisagem uniforme, em tons marrons, forte erosão, ar seco, vento e poeira. O Pantanal é o oposto, é tanta vida que supera descrições. Só vendo.

Uma parte ínfima do Pantanal constitui Parques Nacionais, Reservas Biológicas e Ecológicas. - 94% são propriedade privada, diz o motorista que nos leva à Pousada. - Mas eles não podem mexer em quase nada. A SEMA (Secretaria do Meio-Ambiente) vigia. Mas nem precisava. O Pantanal se defende sozinho, acrescenta com gosto. - Metade do ano ele fica alagado. Não dá pra formar fazenda, plantar soja. Não tem jeito.

Gado, sim. Gado vive em harmonia com o ciclo das águas. Veem-se belas boiadas, zebus imponentes e cavalos em campo aberto entre bandos de aves, a extraordinária fauna que vive sem susto por ali.

De vez em quando o motorista parava na estrada para nos mostrar um jacaré à espreita, um bando de capivaras atravessando o rio, uma siriema, um tuiuiu.

Assim que chegamos na Pousada, o guia nos levou à sala de mapas, onde aprendemos alguma coisa sobre a geografia do Pantanal.

São cerca de 150 mil km² no território brasileiro (só pra dar uma ideia, Portugal tem 92 mil km²) a maior parte fica no Mato Grosso do Sul, avançando até Bolivia e Paraguai ; situamos nossa Pousada no mapa (MT) e o trecho do rio que iríamos explorar no dia seguinte.

Os rios que irrigam o Pantanal nascem em um platô fora da região pantaneira: um delicado ecossistema. Os que nascem do outro lado desse platô correm para o norte e formam a bacia amazônica.

Manhã inteira rio acima, rio Mutum, amplo e secreto com seus labirintos de igarapés, e piranhas, capivaras, ariranhas, jacarés. Pássaros e aves magníficos em seu habitat, indiferentes à nossa presença. Fomos pescar piranha durante uma tarde até o anoitecer. Pescar é fácil, até as crianças pescaram várias. Tirar a bichinha do anzol exige conhecimento e coragem. Um peixinho pouco maior que um lambari, mas com olhos vorazes, não leva dois segundos para destruir um talo de aguapé.

Fomos fazer um safari à tarde, com a esperança de ver araras azuis, cada vez mais raras. Ficamos à espreita junto à árvore manduvi, e elas chegaram barulhentas, mas fugiram assim que deram com nossa presença.

Fizemos caminhada pela mata, aprendendo sobre a vegetaçao local que abriga plantas de ecossistemas diversos, do cerrado, da Amazonia, do chaco.

Num dos passeios, fomos à vila de Dona Joana, onde só se chega de barco. Com tudo isso, o ponto alto para as crianças foi o passeio a cavalo, três horas cavalgando pelo mato, por trilhas ou campo aberto, por terrenos alagados, parando aqui e ali pra admirar uma coruja buraqueira, uma teia de aranha gigante ou o voo de um colhereiro.

A Pousada estava lotada nos dias em que estivemos lá, em meados de julho. No restaurante só se ouvia lingua estrangeira. No fim de semana chegou um grupo de brasileiros, só homens: vieram pescar. O guia disse que 85 a 90% dos hóspedes são europeus, alemães e ingleses, principalmente: pessoas que procuram esses santuários no mundo inteiro.

As Pousadas no Pantanal, distantes, naturalmente, das cidades, incluem no preço da diária, os translados de e para o aeroporto, todas as refeições, passeios e excursões, e o guia que nos recebe e acompanha durante toda a estada.

Tivemos sorte. Nosso guia, o biólogo Bruno Grolli Carvalho, conquistou as crianças e despertou seu interesse com sua paixão e conhecimento da natureza.

No dia de vir embora, a seu convite, acordamos às cinco da manhã para ver o sol nascer. Em meio aos jacarés que costumam se reunir junto do embarcadouro, embarcamos em duas canoas e subimos o rio, remando, ainda no escuro. Até que o sol despontou e com ele a gritaria, a algazarra das aves e dos bichos. E nós ali em silêncio, amanhecendo junto.


Marilia Mota Silva
Washington, 26/8/2015

 

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