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Terça-feira, 15/12/2015
As sobras completas, poesias de Jovino Machado
Jardel Dias Cavalcanti


Jovino é um poeta do balacobaco. Sua poesia cria um espaço de diversão, nonsense e delírio que é raro entre a turma das letras. Coitado de quem espera aquela seriedade cozida em sofrimento, trauma ou perturbação emocional nos seu poemas. De romântico, o poeta só tem a verve boêmia. E essa verve (com sua filosofia de bar, não sisuda) está presente na maior parte de sua criação. Resumindo: Jovino está mais para Oswald de Andrade do que para Drummond e muito menos ainda para João Cabral.

Uma publicação, que o poeta chamou divertidamente de "Sobras completas", acaba de reunir 10 dos seus livros e mais 20 poemas, além de uma apresentação e parte da fortuna crítica. Em edição de apenas 450 exemplares, pela editora Guayabo, de Belo Horizonte, o livro recebeu incentivo da Lei Municipal de Incentivo à Cultura da Prefeitura de Belo Horizonte.

O livro cobre mais de 20 anos de produção poética, que vai de 1993 até 2015, traduzindo um recorte que organiza os 10 últimos livros do autor. O objeto gráfico que é o livro, em si mesmo, nos agrada. O livro tem um aspecto de diário, com sua capa rosa e seu recheio de um belíssimo azul antigo e aquele elástico que faz pensar nos cadernos de memória que podem ser fechados para impedir o olhar bisbilhoteiro. Apenas nonsense, pois o livro é um convite à comunhão de almas e quer mesmo é ser lido.

O caráter lúdico de sua poesia vai de página a página contaminando nosso humor. Saímos mais leves, menos graves, dispostos a brincar com a vida como ela brinca com a gente. Veja-se a pequena série "Coração 1, 2 e 3":

Coração 1

fechado para balanço

agradecemos sua preferência



Coração 2

aberto por motivo de luto

venha velar comigo



Coração 3

Permitida a entrada de pessoas estranhas



No "Poema dos trinta anos", quando se espera a desilusão como melancolia anunciada, o que temos é a vitória sobre cada idade: "aos sete perdi a infância/ não perdi a elegância// aos dezessete perdi a virgindade/ não perdi a dignidade// aos vinte e sete perdi a ingenuidade/ não perdi a vaidade// não perdi a fé/ gosto de café/ ando a pé.

A positividade não perde o pé, mesmo quando se anuncia toda uma tradição familiar perdida, como no poema "Antena", pois para o poeta seu caminho é outro: se seu pai foi queimado, seu avô castrado, seu bisavô ignorado, "eu sou sambista".

A filosofia de boteco não deixa por menos. Quer exibir sua reflexão, e não é qualquer coisa que se anuncia, como se pode ver no mínimo poema "Nunca sempre":

deus não morre

deus não vive

Jovino trabalha com a quebra dos estados de humor. Quando o poema anuncia uma espécie de fechamento dramático, lá vem o poeta para desanuviar o ambiente e nos fazer pensar (filosofar), mas sem fazer drama, pois lhe parece que a vida, remendada ou não, consegue continuar, apesar dos pesares. O poema "Cind" é um exemplo disso: "amo a deus/ apesar das dores// amo o diabo/ apesar dos amores// amo você/ sem apesar".

A verve crítica do observador do humano e de sua tragédia pessoal também está presente no livro. Não se trata de sociologia da comédia humana, mas observação astuta, como no poema "Cor de cadáver":

a fumaça do cigarro

não esconde a sua beleza

sua tristeza não se afoga

no copo de cerveja

seu olhar é um fantasma

que, nu drible, oscila

entre a trave e o gol

no seu sorriso

vejo que você possui

apenas o que te falta



Na série "Inverno" segue uma dica de acompanhamento: "para ler ouvindo Brahmns". Ah! Essa música para liberar a delícia da energia livre!E o filósofo-poeta-boêmio se põe a tentar nos levar para uma certa gravidade que, sempre, no fim das contas, nos deixa com aquele sorriso maroto na cara. Conclusão: não é tão séria assim que ele queria que a vida fosse (nem a poesia também):

a vida não presta

quando eu adoro

e você detesta



a vida é uma bosta

quando eu amo

e você não gosta



a vida é vazia

eu vício

você vadia



a vida é neblina

eu enlouqueço

e você sublima



Já que seu bar é seu lar, como intitula um dos grupos de poemas, o ambiente propício para suas divagações é ali também: "o meu anjo/ beija o bar na boca/ sem cadeira tem colo/ intuição e sorte/ bom de cama/ ama egos e éguas".

Que silêncio deseja o poeta? Ah! Que poema mais contemporâneo o pequeno "Algodão nos ouvidos", nesse momento em que se grita tanto, se canta tanto, sem se dizer nada:

Dor de ouvido?

Não, dor de ouvir.

O percurso do poeta, suas andanças e vertigens pela vida, estão sintetizadas em todos esses poemas mínimos mais que máximos. Se é de amor, de dor, do calor sensual, da solidão fria ou do prazer vital que falam, é pela voz desse Lúcifer no cio, a poesia, que pode se transmutar em musa de minissaia só para seduzir a alma desse atrevido trovador, que nos leva junto para seu bar-livro-poema.

Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 15/12/2015

 

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