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Sexta-feira, 22/2/2002
Terra Papagalli
Rafael Azevedo


Foliões
Acabou o Carnaval. Aos poucos, tudo parece voltar ao normal; a Quarta-feira de Cinzas marca o Ano-Novo Brasileiro. Difícil acreditar que durante quatro ou cinco dias tudo pára no país, e mais difícil ainda tentar explicar isso para um estrangeiro. Na Espanha carnaval é festa infantil.


Berço esplêndido
Em se falando de feriados, somos campões mundiais absolutos, somos hors concours. Ninguém folga tanto quanto nós brazucas. Férias de um mês, ou mais, todo ano, feriados a dar com pau, todo mês um ou dois. Até feriados religiosos temos, ainda. Duvido que capitalismo algum dia dê certo num país assim.


No man's land
Vivemos um momento perigosíssimo no país, e mais especificamente em Sampaulo - a falência total e completa da autoridade e domínio da lei. Acabou. A bandidagem tomou conta, pura e simplesmente; dita os nossos hábitos, impõe os toques de recolher, e faz a cabeça da moçada da periferia, que a cada dia aperta mais o cerco na cidade. A polícia é ineficiente em sua totalidade, e corrupta em sua enorme maioria, despreparada, mal-treinada e mal-armada. As autoridades penitenciárias são tão sujas que aqueles que eles encarceram, quando não mais, e as cadeias e FEBEMs da vida estão caindo aos pedaços e dominadas por facções que continuam com a mesma vida de crimes que levavam fora. Os advogados, juízes, promotores et alii também têm em suas filas grande número de mal-intencionados, coagidos por dinheiro ou canalhice intrínseca mesmo a agirem em benefício do lado errado; e os poucos que se salvam estão presos a um código penal atrasado, uma constituição grotesca, e um sistema jurídico moroso e inepto, mal-feito de nascença e corrompido pelo mau uso.

Somente nos últimos meses sequestraram a filha do apresentador de TV mais famoso do país, e o mantiveram como refém. Levaram também o publicitário mais famoso. Dois prefeitos de grandes cidades do Estado foram assassinados, um deles após ter sido mantido em cativeiro por 24 horas. Sem contar os milhares de anônimos que vivenciam isso todos os dias, todas as horas. Nessa semana, um moleque de 16 anos, trocando tiros com a polícia (!), invadiu com o carro roubado que dirigia os jardins do Palácio do Governo. Se isso ainda não é motivo para que se tome alguma medida drástica, exército nas ruas, ou algo do tipo, eu já não sei mais nada.


Os hómi
Observando ainda os boletins policias, fornecidos às pencas pelos meios de comunicação brasileiros, que descobriram a rentabilidade do ramo folhetinesco em programas como Cidade Alerta, percebe-se que na absoluta maioria das vezes, a polícia deixa escapar alguém da "quadrilha", nas diversas ocorrências e perseguições. Dificilmente, para não dizer quase nunca, ele prendem todos. Das duas uma: ou é incompetência máxima, ou tá chovendo cascalho na mão deles.


Wasteland
Ainda que em São Paulo, supostamente a maior cidade da América Latrina, a sensação que se tem é de se estar no submundo cultural. Não há uma peça minimamente decente em cartaz, um concertozinho sequer. Dizem que a vida cultural de Buenos Aires, em tempos de cacerolazo, é mais completa. Ouço que a OSESP, de John Neschling, está gravando um disco... que façam bom proveito.


Paneleiros
Enquanto isso, se abrimos um dos cadernos culturais dos dois maiores jornais da cidade, a impressão é a oposta. Parece que vivemos em uma das capitais do mundo, numa Roma mulata, como diria o Darcy. Abundam, literalmente, eventos de segunda, vernissages de desconhecidos, balés gays, exposições de esculturas pós-modernas, peças de teatro cheias de gente gritando e tirando a roupa. Parece que só o lixo da cultura mundial desembarca por nossas praias, desde que Pero Vaz cá aportou. E o mais engraçado é que os responsáveis por todo esse detrito são amigos, muitas vezes pessoais, de quem o comenta (e elogia). Isso é mau-caratismo puro.


Tutti buona gente
A ausência da autoridade, que mencionei acima, não se reflete somente na criminalidade - embora essa seja sua faceta mais incômoda. Ela está presente mais que nunca no início de todo ano, nessa época de chuvas torrenciais (quem mandou viverem nestes tristes tropiques?). A cidade alaga, ponto. Não há o que se fazer, a não ser largar o carro na rua, mudar os móveis de lugar. Isso seria inaceitável em qualquer outro lugar, motivo de revolta popular. Mas ainda não tivemos nossa revolução francesa. Nada parece mudar, ao sul do Equador; aqui provavelmente a massa ignara votará nos mesmos políticos que vêm assombrando o país há dez, quinze, vinte anos atrás. Uma ou outra carinha diferente aparece de vez em quando, e logo demonstra ser farinha do mesmo saco. Novas pessoas, novas idéias, gente dotada de um mínimo de inteligência e boa vontade? Inexiste. Aqui a política é ainda mais suja e mal-vista que no resto do mundo; é, como a atividade policial, exercida por quem não tem talento para mais nada.


Semana de 1922
Oitenta anos da semana de 22. "Semana de Arte Moderna". Hmmm... alguém aí sabe me dizer o que essas pessoas, os Andrade, Anita Malfatti, e o resto da cambada, trouxeram de valor para a arte mundial? Algo que se aprofunde, ainda que levemente, mais do que simplesmente o "novo pelo novo" - que em boa parte dos casos equivale ao mais puro charlatanismo - e que mereça com que essa tal semana tenha alguma relevância? Eu não faço idéia. Há algo de bom em Di Cavalcanti, e Portinari não é de todo ruim; mas Mário de Andrade não passou de músico frustrado e escritor incompetente - seu Macunaíma é ilegível - e Oswald não passava de um fanfarrão com pretensões de gênio. Anita nos assusta com seu hediondo Abaporu, que, graças a Deus, foi comprado por um argentino e já deve estar bem longe do Brasil.

Além disso, uma herança direta desse "movimento" foram charlatanices pós-modernas como o concreti(ni)smo, os irmões (sic) Campos... coisas que por si só tornariam obrigatória a execração pública dessa semana por toda história do Brasil, por todo mundo que tenha um mínimo de interesse em arte. Quantas gerações de pessoas que poderiam ter algum interesse por cultura e arte não tiveram esses mesmos interesses aniquilados quando ouviram algum poemeto do Haroldo com trilha sonora do Arnaldo Antunes, ou leram aquele célebre do Augusto em forma de chuva?

Rafael Azevedo
São Paulo, 22/2/2002

 

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